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Belém não tem ações para evitar problemas em chuva

Na última terça-feira (5), as ruas de Belém viraram cenário de uma novela que, há anos, a população assiste reprisar. A cidade, cortada por canais do centro à periferia, foi abaixo com a enxurrada violenta enviada por São Pedro. Com casas alagadas, trânsi

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Na última terça-feira (5), as ruas de Belém viraram cenário de uma novela que, há anos, a população assiste reprisar. A cidade, cortada por canais do centro à periferia, foi abaixo com a enxurrada violenta enviada por São Pedro. Com casas alagadas, trânsito caótico, vias intrafegáveis e até alunos ilhados na própria sala de aula, não teve santo que desse jeito no drama vivido pelos belenenses. A pergunta é: a culpa de quem? Fomos até a Câmara Municipal de Belém (CMB) ouvir o que dois vereadores, um da oposição e outro da situação, têm a dizer sobre o problema enfrentado, principalmente, por quem mora nos bairros periféricos, grandes responsáveis por elegê-los.

O vereador Amaury Souza (PT) é categórico: “Dinheiro tem pra resolver o problema. Não resolvem porque não querem. Na gestão passada, liberamos 180 milhões de dólares pra fazerem a Bacia da Estrada Nova. Não fizeram. O que a gente tem que questionar é pra onde foi todo esse dinheiro agora. Nós já estamos votando pra liberar mais recursos e não dão jeito nessa situação”, afirma.

De acordo com Amaury, é dever da CMB fiscalizar e cobrar providências do Executivo para a resolução de questões urgentes, como os alagamentos constantes que ocorrem na cidade. Para o vereador da oposição, apesar de Belém ter problemas históricos de falta de investimentos em diversas áreas, é dever do atual prefeito buscar soluções imediatas para minimizar os transtornos da chuva. “O que não dá pra fazer é ficar transferindo a responsabilidade de um pra outro porque aí ninguém vai resolver nada”, completa.

Mas até onde vai a responsabilidade do poder Executivo na hora de resolver um problema tão grande quanto os prejuízos causados por ele? Para o vereador Victor Cunha (PTB), é injusto culpar a gestão municipal atual por problemas que se arrastam há inúmeros mandatos. “Claro que precisa fazer drenagem, as obras da Bacia da Estrada Nova vão ser concluídas, sim. Agora, nós não podemos lutar contra a natureza. Belém fica à beira da baia, está no nível do mar, é claro que quando a maré enche a água não tem pra onde correr e a cidade afunda”, observa.

Para o vereador, que integra a bancada governista, a falta de educação de muitos, além de fatores históricos, contribuem para agravar ainda mais as consequências do aguaceiro. “Além de a cidade ter poucos canais pra escoar a água, porque muitos foram aterrados ao longo do tempo, ainda tem pessoas sem consciência que jogam tudo que é coisa dentro deles. Por mais que o prefeito mande limpar, vai ter sempre canal entupido. O que se precisa é de medidas mais enérgicas pra evitar este tipo de situação”, completa Victor Cunha. Entre um discurso e outro, quem fica no meio é a população, assistindo de camarote chover no molhado. E não está chovendo pouco.

Moradores pagam a conta do transtorno

Alguns moradores dos canais da Timbó e José Leal Martins, no bairro do Marco, passaram a manhã inteira de ontem fazendo a limpeza e contabilizando os prejuízos consequentes da chuva que deixou a cidade praticamente submersa na última terça-feira. José Ednelson Lima, que possui uma loja de confecções há mais de dois anos na rua Acatauassu Nunes, já perdeu as contas dos constantes alagamentos e de quantas vezes teve que colocar a mão no bolso para deixar o estabelecimento apto a receber a clientela.

“Toda vez que chove a rua vai pro fundo. Estou desde as 6h da manhã lavando a minha loja que foi completamente invadida pela água, que chegou a quase um metro de altura da parede. O meu prejuízo deve chegar a 600 reais. Já estamos com medo e não sabemos o que fazer só de pensar que as piores chuvas ainda estão por vir”, afirma.

Morador do bairro há 27 anos, o vendedor de açaí José Lima Martins, conta que estes alagamentos nunca tiveram solução. “Pode cair qualquer chuvinha que os problemas são os mesmos, há dois meses veio uma caravana da prefeitura para limpar o canal, mas não tem jeito. Isto aqui é uma verdadeira caixa d’agua, não tem para onde escoar, a solução seria abrir o canal para o Tucunduba, mas a prefeitura prefere deixar como está”.

Para poder sair de casa para trabalhar, ir a escola ou até mesmo fazer uma simples compra, alguns moradores acabam tendo que se arriscar andando pela água contaminada. “Infelizmente todos os anos passamos por isso, se não ficamos ilhados dentro de casa. Já até pensei em trocar o carro por um barco, acho que seria a única solução pra gente”, afirma, indignada, a dona de casa, Margarida Serrão.

Em fevereiro, Zenaldo dizia que não era mágico

A chuva que desabou em Belém na tarde e noite da última terça-feira não foi a mais violenta do ano. Nos dias 12 e 13 de fevereiro, Belém foi ao fundo com um temporal que durou aproximadamente 16h sem parar. Na época, segundo medições do Instituto Nacional de Meteorologia no Pará (Inmet), até então há 30 anos não chovia tão forte no mês de fevereiro, em Belém. José Raimundo Abreu, coordenador do instituto, dizia que, considerando a média de chuvas do mês de fevereiro dos últimos 30 anos, a chuva dos dias 12 e 13 foi a maior, tanto em duração quanto em volume de água. “Devido a uma grande faixa de nuvens que se estendeu desde o Maranhão, cruzando o Pará em direção ao Marajó, a chuva que atingiu a cidade nesta madrugada chegou também aos municípios de Benevides e Santa Izabel, porém com menos intensidade”, afirmou.

Logo após o temporal, o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, convocou uma coletiva de imprensa e nela disse claramente que não era mágico a ponto de resolver os problemas da cidade em pouco tempo. “Nós não temos condição de resolver os problemas de drenagem em dois, três meses. É impossível, humana e financeiramente. Vamos, sim, enfrentar ainda danos por alagamentos. Esperamos é diminuir, que não sejam tão grandes, por exemplo, como foram hoje (ontem). Não tem magia, Eu não fui eleito para ser mágico, nem minha equipe é de mágicos”, disse enquanto anunciava medidas emergenciais, como a intensificação do programa “Cuida Belém”, que previa limpeza dos canais, capina e coleta de entulhos, num investimento que custaria aos cofres públicos R$ 30 milhões. Parte dos recursos viria do Estado. Zenaldo ainda atribuía os problemas dos alagamentos à gestão anterior, que, segundo ele, não preparou a cidade para o período chuvoso.

(Diário do Pará)

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