No início da década de 70, ao mesmo tempo em que os primeiros impactos de grandes projetos de desenvolvimento para a Amazônia começavam a aparecer, foi também um momento de grande avanço na educação superior da região com o surgimento dos primeiros cursos de pós-graduação que visavam refletir de maneira mais profunda os problemas locais. Neste contexto, mas precisamente em 1973, é que o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) foi criado, trazendo o ensino aliado à pesquisa numa proposta interdisciplinar. Hoje, 40 anos depois, a instituição se firma como referência nacional em desenvolvimento regional.
“Ao longo destes 40 anos o Naea se tornou uma instituição de referência no campo das políticas públicas e do desenvolvimento sustentável, principalmente por que os cursos de pós-graduação acabaram tendo ineditismo não só na Amazônia, mas também no Brasil. Por exemplo, o nosso mestrado em Planejamento do Desenvolvimento, que começou em 1977, foi uma iniciativa pioneira no Brasil. Foi o primeiro mestrado em planejamento no país, e isso significou a possibilidade de contribuir para a pesquisa na Amazônia de uma forma mais sistematizada”, explica o professor e coordenador do Naea, doutor Fábio Carlos da Silva.
Segundo o professor, o Naea deu uma grande contribuição para Amazônia justamente por garantir uma formação voltada não só para a identificação como também para o auxílio na resolução dos problemas da região. Um exemplo recente é o projeto da Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia, IPPA, que visa uma ação integrada entre universidades, institutos de pesquisa, governos e setor produtivo para a concepção, formulação, acompanhamento e avaliação de políticas públicas de desenvolvimento sustentável para a Amazônia,
“Um dos grandes problemas que nós temos aqui na Amazônia é a falta de integração. Existe uma integração deficiente entre os estados, e isso também se reflete entre os intelectuais. Por isso o objetivo da Incubadora de Políticas Públicas é criar um ambiente institucional que favoreça a mudança na qualidade de vida dos estados e dos municípios da região. Sem esta integração dificilmente você vai ter uma realidade modificada”, explica o professor Fábio Carlos, que atualmente também coordena o projeto. Para o professor, pesquisador e ex-coordenador do Naea, Luis Eduardo Aragón, esta cooperação do Naea com outras instituições é uma das características da instituição desde seu início.
“Desde que o Naea foi criado em 1973, ele tinha uma visão da Pan-Amazônia, ou seja, de produzir ciência não só pra região amazônica brasileira, mas para a Amazônia como um todo. De certa maneira, um dos seus fins era criar outra imagem da região em que se pudesse identificar os problemas e processos semelhantes entre si”.
Um dos frutos desta ideia de congregação foi a iniciativa de criação, em 1987, da Associação de Universidades Amazônicas (Unamaz), uma agência multilateral de cooperação não governamental e sem fins lucrativos cujo objetivo essencial é cooperação científica, tecnológica e cultural como instrumento para a promoção do desenvolvimento em benefício das populações humanas e da ecologia amazônica. O professor Luis Aragón coordenou a associação e diz ter sido uma experiência exitosa por estreitar nossas relações com instituições vizinhas para a realização de trabalhos em conjunto.
MITOS DESTRUÍDOS
Uma das maiores contribuições do Naea nestes 40 anos, no entanto, tem a ver com destruição de mitos sobre a produção do conhecimento da região. É o que acredita a professora e pesquisadora doutora Edna Castro. Tendo estado à frente da coordenação do Núcleo em duas ocasiões (de 1997 a 2000 e de 2005 a 2009), a professora acredita que hoje este é ainda um problema que se coloca como desafio para as instituições de pesquisa da região.
Apesar do grande avanço e da ampliação dos programas de pós-graduação em várias áreas como nas ciências humanas, na sociologia, economia, programas multidisciplinares de desenvolvimento regional ente outros, as estruturas de circulação do conhecimento da Amazônia ainda são muito frágeis, fazendo com que noções equivocadas sejam disseminadas de forma muito mais fácil.
“Há hoje uma banalização sobre o conhecimento produzido na Amazônia. Há uma leitura dos problemas da região a partir de problemas ambientais, ou seja, a parir de uma noção biológica da região. E isso acontece não só no que é produzido e publicado sobre a Amazônia na região, mas também em grupos de pesquisa de universidades do Brasil e estrangeiras. No entanto, mesmo que sejam noções equivocadas, eles têm poder de difundir este conhecimento por meio da divulgação em revistas nacionais e internacionais e se tornam fonte de informação para os nossos alunos no Brasil,” critica Edna Castro.
Para ela este é um fenômeno que também tem a ver com o fato da Amazônia vir despertando cada vez mais interesse mundo a fora - e esta é, segundo a professora, uma tendência inevitável com a qual teremos que lidar.
“Eu diria que o tema Amazônia permanece com grande interesse de pesquisa e até há uma tendência ao aumento deste interesse, porque, sobretudo, quanto mais os interesses de mercado avançam sobre a Amazônia, mais novos problemas aparecem, seja de impactos territoriais, impactos sociais com as populações tradicionais e, muitas vezes, isto amplia a disputa por modelos diferentes de desenvolvimento sobre a região”.
Apesar disso a professora Edna Castro entende que a região possui já uma produção considerável que permita dar suporte ao desenvolvimento regional. E para que isso aconteça, é preciso que as instituições de pesquisa, a academia, sejam ouvidas por quem está a frente destes processos. A questão, segundo ela, não é fazer ciência para o desenvolvimento de qualquer maneira, mas sim produzir um conhecimento que ajude a construir um modelo de desenvolvimento que nos possa projetar para um futuro melhor.“Não podemos dizer que a Amazônia não é desenvolvida por que não tem produção de conhecimento. Eu rejeito esta tese. Se o conhecimento produzido ao menos fosse considerado, teríamos outras propostas de desenvolvimento mais interessantes que nos assegurariam um futuro melhor, no qual a identidade, a história, a trajetória, o potencial e as culturas desta região estivessem também contemplados”.
(Diário do Pará)
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