Em meio à programação em alusão à Semana do Bebê por parte dos Governos Estadual e Municipal, uma criança de apenas um ano de idade morreu na manha da última terça-feira a espera de um leito em uma Unidade de Tratamento Intensiva (UTI). Com o diagnóstico de meningite viral e com um coágulo na cabeça, Jair Felipe dos Santos morreu no Pronto Socorro Municipal Mário Pinotti, na travessa 14 de março, e gerou a revolta dos familiares pela omissão do sistema público de saúde do Estado do Pará.
Inconformada com a perda do neto e ainda com os cartazes pelos quais implorava por um leito para a criança, a avó de Jair, Rosa Garcia, responsabilizou o governo pelo ocorrido. Antes da criança conseguir ser internada no PSM da 14, a família já tinha percorrido outros três hospitais. “A gente foi de madrugada na Santa Casa e aquilo que o Jatene (Governador do Estado Simão Jatene) diz que está lá funcionando, não está. É só fachada!”, revoltava-se. “Como pode deixar uma criança de um aninho morrer, meu Deus?”.
De acordo com a família, o menino teria sido levado primeiramente até o Hospital Abelardo Santos, em Icoaraci, para onde teria voltado após ter sido medicado e não ter apresentado melhora. A criança ainda teria sido encaminhada para o Hospital Universitário João de Barros Barreto, onde foi confirmada a suspeita de meningite. “Eu peguei esses cartazes e fui para a rua e as pessoas perguntavam se eu queria dinheiro. Eu só queria um leito para salvar a vida do meu neto. Só queria isso, um leito”, dizia a avó, inconformada. “Cadê, Jatene, a Santa Casa que tu falas? Vou abrir um processo”.
A família ainda chegou a procurar a Divisão de Investigações e Operações Especiais (Dioe), porém, a última tentativa veio tarde. A criança faleceu minutos depois que a família conversou com a polícia. De acordo com o delegado Neyvaldo Silva, um inquérito policial deve ser instaurado para investigar as responsabilidades sobre a morte de Jair Felipe. “Vamos buscar apuração para ver quem falhou e, na medida do possível, responsabilizar criminalmente o responsável”, disse. “Zenaldo (Prefeito de Belém Zenaldo Coutinho), venha conversar com a gente e dizer o que está acontecendo com a nossa saúde!”, apelou Maria Cristiane, tia da criança.
Enterro
Jair Felipe dos Santos foi velado e sepultado na manhã de ontem no distrito de Icoaraci. Diante da morte prematura do neto, Rosa Garcia não escondia a indignação com o poder público. “Com certeza a responsabilidade é do Governo e da Prefeitura! Se eles tivessem leito pro meu neto, a gente não estaria levando ele para ser enterrado hoje (ontem)”, considerou. “O Governo até agora não fez nada, nada, nada por nós. Não prestou nenhum apoio a família”.
Minutos antes do sepultamento do neto e ainda muito abalada, Rosa ainda informou que a família ainda tem dúvidas sobre a causa da morte de Jair Felipe. “Eles dizem que ele estava com um coágulo na cabeça, mas no IML (Instituto Médico Legal) examinaram o corpo dele e não encontraram nada aparente no cérebro. Ainda não temos nem certeza da causa da morte mesmo depois desse laudo do IML”.
À Sesma, restou apenas lamentar
Em nota enviada ao DIÁRIO, a Secretaria Municipal de Saúde esclareceu que lamenta a morte do paciente e diz que a criança chegou ao HPSM Mário Pinotti no domingo, 16, passou por avaliação médica e exames de sangue, Raio-X e tomografia solicitada pela neuropediatra. Após o diagnóstico de meningite, foi cadastrada na Central de Regulação de Leitos, para encaminhamento prioritariamente ao Hospital Barros Barreto, referência neste tipo de patologia. Enquanto isso, o paciente recebeu todo o atendimento necessário dentro do perfil do HPSM de urgência e emergência.
Falta tudo no posto da Sacramenta
O Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Estado do Pará (Sindsaúde) se reuniu em manifestação, na manhã de ontem, em frente à Unidade Municipal de Saúde da Sacramenta, para denunciar, mais uma vez, o descaso com a saúde pública em Belém. Completo abandono e falta de segurança foram as principais reivindicações da classe, que contou com o apoio da população presente à espera de atendimento.
Há duas semanas enfrentado filas para conseguir uma única ficha para uma consulta com o clínico geral, o vendedor Alex Sandro do Rosário disse não suportar mais o descaso com a população. “Chego às 6h e, quando é meio-dia, eles aparecem sem justificativa alguma e afirmam não ter mais atendimento. Não aguento mais esta situação de descaso com a nossa saúde. Deixo meus afazeres para tentar um simples atendimento e toda vez é isto”, conta.
Segundo a assistente social Kátia Santos, devido à falta de estrutura, alguns programas de saúde tiveram que ser suspensos, como o atendimento odontológico, que não é realizado há dois anos, prevenção contra câncer uterino (suspenso há um ano), curativos deixaram de ser feitos desde o mês de março e imunização suspensa há um mês. Além desses agravantes, existe um grande problema relacionado ao oxigênio, que, ao ser utilizado em alguns plantões, apresenta o grande risco de explosão, por apresentar vazamento, colocando em risco a vida não apenas das pessoas na unidade, mas também dos moradores das residências ao redor.
Segundo nota enviada pela Sesma, as empresas vencedoras das licitações para aquisição de medicamentos e materiais técnicos de uso das Unidades Municipais de Saúde (UMSs) estão entregando os produtos para a Divisão de Recursos Materiais da Sesma. A secretaria está providenciando a distribuição para as UMSs o mais rápido possível. Sobre a UMS Sacramenta, a Sesma esclarece que a obra foi iniciada na gestão anterior e não concluída. A reforma já foi retomada e o prazo de conclusão é até dezembro.
(Diário do Pará)
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