Josemar Garcia não esperou muito. Aos 44 anos decidiu passar por uma bateria de exames que pudessem diagnosticar qualquer sintoma inicial de algum tipo de câncer, incluindo o de próstata. O histórico familiar foi o principal responsável por isso. Um tio, irmão do pai, teve a doença. Outro parente foi acometido por câncer de estômago. O sinal de alerta acendeu rapidamente na vida do editor de imagens de uma emissora de televisão.
“Foram dois casos de câncer na família. Tenho uma filha pequena de dois anos e não quero correr o risco de ficar doente e não ver a filha crescer”, diz Garcia, que se submeteu ao exame de toque retal para diagnosticar a presença ou não do câncer de próstata na primeira semana de novembro.
O histórico familiar de Josemar Garcia recomenda a precaução, mas o fato é que o período ideal para se realizar o exame do câncer de próstata não é unanimidade entre a classe médica. Um dos mais conhecidos especialistas brasileiros, o urologista Anoar Samad, aconselhava que o exame fosse feito logo aos 40 anos. Samad já fez mais de 10 mil exames e comanda o Centro de Urologia em Manaus.
O Instituto Nacional do Câncer, no entanto, já passou a defender a mudança nesse período. A idade adequada passou a ser recomendada a partir dos 50 anos. Em caso de câncer na família, a partir dos 45 anos.
“Atualmente, não existem evidências de que o rastreamento para o câncer da próstata reduza a mortalidade causada por esta doença”, defende o INCA, baseado em estudos do instituto de pesquisa Euro Observer.
“Se um paciente tiver um sintoma, como a dificuldade de urinar ou sangramento, por exemplo, ou outros que indicarem o câncer de próstata, não há idade para que se façam exames. Mas em pessoas que não têm sintomas, fazer o rastreamento é mais indicado a partir dos 50 anos”, diz o urologista José Ricardo Tuma.
Segundo ele, a chance de se detectar antes dessa idade é mínima se a pessoa não tiver um antecedente familiar. “Nesse caso não é necessário um rastreamento mais precoce”, diz.
Custos e polêmica
O raciocínio indica que não há alteração significativa em se começar a buscar exames cinco anos antes ou depois. Mas um fato que deve ser levado em consideração é financeiro. Segundo o INCA, com o advento da dosagem do PSA - exame de sangue específico para a detecção do câncer -, como um instrumento de rastreamento, os custos com o câncer de próstata aumentaram em três a dez vezes.
“Isso também precisa ser pensado. Não é algo que deva ser descartado”, diz Tuma. Segundo ele, a palavra adequada nesse caso é ‘bom senso’. “Se exagerarmos nos pedidos de exames, de tomografias, de raio-x etc, em pessoas que não têm sintomas, não há plano de saúde ou sistema público de saúde que aguentem”, diz ele.
A Sociedade Brasileira de Urologia defendeu recentemente que o procedimento atual é uma tendência mundial. Já o INCA diz que por não haver, até o momento, evidências científicas de que o rastreamento do câncer de próstata possa produzir mais benefício que dano, a recomendação é que não se organizem ações de rastreamento para o câncer da próstata e que homens que busquem espontaneamente a realização de exames de rastreamento sejam informados pelos médicos sobre os riscos e benefícios associados à prática.
A mudança não é consensual na classe médica. O urologista Oscar Teixeira, 58 anos e com 35 anos de experiência, discorda da alteração. “Antes era consensual a diretriz dos 50 anos, mas depois se baixou essa idade para 45 anos ou 40, dependendo do caso, porque se começou a perceber que os casos estavam baixando de idade. Estava se começando a descobrir o câncer mais cedo. Aumentar novamente a idade vai contra o bom senso”, diz ele.
Teixeira já fez mais de 400 operações de câncer de próstata. Segundo ele, cerca de 60 pacientes tinham menos de 50 anos. “Um dos meus pacientes operados tinha 33 anos de idade”, afirma.
O argumento usado por Oscar Teixeira baseia-se também no fato de o câncer de próstata ser uma doença assintomática, silenciosa. “Não faz sentido fazer o exame depois de se sentir o sintoma. É necessário que se faça antes de se sentir esses sintomas”, alerta ele. A hipótese de economia em relação aos custos dos procedimentos é considerada absurda por Teixeira. “Economizar para matar mais gente?”, questiona.
Antes ou depois
O aposentado José Orlando Amador passou a fazer os exames quando completou 55 anos. Atualmente tem 68 e conseguiu detectar a tempo a doença. Com o tratamento e a cirurgia, está praticamente curado.
Outra situação é de pessoas negras. O homem negro é mais suscetível a ter câncer de próstata. Nesse caso, 45 anos ainda é uma idade considerada adequada para se fazer os primeiros exames. A dificuldade, em alguns casos, é o de convencimento. Negro, o promotor de eventos Ronaldo Oliveira, 54 anos, mora em Icoaraci e se recusa a fazer o exame. “Teimosia pura, coisa de homem. Nós fazemos mil exames e homem é essa dificuldade”, diz a mulher Nazaré Oliveira.
No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas do câncer de pele. O Ministério da Saúde estima que em 2014 surjam 60 mil novos casos da doença no país. No Pará, o câncer de próstata ocupa a primeira posição. Até o final de 2013 são esperados 930 novos casos. Mais cedo ou mais tarde, o exame precisará ser feito. “É isso ou a doença”, diz, sabiamente, o aposentado Orlando Amador.
Entenda o debate
- O Instituto Nacional do Câncer (Inca) quer que se retome como rotina recomendar os exames preventivos contra o câncer de próstata a partir dos 50 anos. Em caso de câncer na família, a partir dos 45 anos.
- Atualmente, mesmo na ausência de sintomas, a recomendação é que homens a partir dos 45 anos, ou dos 40, se houver histórico familiar, devem ir anualmente ao urologista para realizar o toque retal.
ARGUMENTOS
- O Inca argumenta que não há evidências de alteração significativa em se começar a buscar exames cinco anos antes ou depois.
- Outro argumento é financeiro. Com o surgimento do exame de dosagem do PSA para rastreamento, os custos com a prevenção do câncer de próstata aumentaram em até 10 vezes.
- Médicos que defendem a manutenção dos exames a partir dos 40 dizem que não se justifica economizar e pôr vidas em risco.
PORQUE EXAMES SÃO OBRIGATÓRIOS?
Os exames preventivos ajudam a detectar a doença antes justamente porque a ausência de sintomas não garante que não há problemas.
PREVENÇÃO E DIAGNÓSTICO
Mesmo sem sintomas, homens devem ir anualmente ao urologista para realizar o toque retal. A rotina começa antes se houver histórico familiar.
Os exames são:
Exame de toque retal - rápido e indolor, ajuda a identificar sinais de tumor maligno na região;
PSA - exame de sangue para dosar o antígeno prostático específico;
Biópsia - é feita com um ultrassom transretal.
(Diário do Pará)
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