As águas geladas do rio Caraparu, em Santa Izabel do Pará, amanheceram abençoadas por Nossa Senhora da Conceição no dia dedicado à ela. A edição de número 95 do Círio da Imaculada Conceição reuniu dezenas de devotos que, de canoa, seguiram a padroeira num grande ato de fé e agradecimento.
Ao longo do trajeto - percorrido em aproximadamente duas horas, tanto para ir quanto para voltar – um grupo de mulheres puxam os cânticos e as orações que animam esta romaria fluvial. A embarcação que transporta a imagem da Virgem é puxada por homens que se vestem de marinheiros e agem como guardiões da santa. A procissão é uma das mais belas do Estado, pois ocorre em um ambiente onde o rio parece ter cortado a floresta. Além do verde exuberante, pássaros e outras espécies de animais silvestres, são vistos ao longo da romaria.
O sol ainda não tinha nascido quando os primeiros romeiros começaram a chegar a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Caraparu. Pouco antes das 6h, a imagem peregrina foi colocada em um andor que estava ornamentado com flores brancas e roxas, depois foi conduzida até a margem do rio que recebe o mesmo nome da comunidade.
Devota da Imaculada Conceição, a evangelizadora Marlene Cardoso, 57, ornamentou a sua canoa com a réplica de uma capela, confeccionada em isopor, onde estava a imagem que ela utiliza nas peregrinações por casas da comunidade de Caraparu. “É uma forma que encontro de fazer a minha singela homenagem. Se a procissão fosse por terra, faria um altar em frente de casa. Como é por água, eu ornamento a canoa”, disse.
Na saída da romaria, uma salva de palmas dos devotos cobriu o som mecânico com cânticos marianos que tocavam para animar a procissão. Um grupo de 32 pessoas formava o corpo de marinheiros que conduziram a imagem e também fizeram a sua guarda. A única mulher do grupo, Roseana dos Santos, 44, relatou que é marinheira há dez anos. “Não foi promessa, o meu pai era marinheiro e com o falecimento dele quis dar continuidade na tradição”, comentava.
Quatro homens, em duas canoas, seguem abrindo os caminhos e soltando fogos. São os chamados “fogueteiros”. Eles têm o compromisso de, a partir dos estouros dos foguetes, anunciar se a procissão está perto ou distante do seu ponto de chegada.
Após duas horas pelo rio, a imagem chega a uma capela onde é realizada uma celebração da palavra. Neste momento, os fiéis têm a oportunidade de chegar mais próximo da imagem e fazer suas orações, pedidos e agradecer.
O padre Roosevelt Lourinho, que há 10 anos está a frente da paróquia e há 4 na coordenação da festividade, pede que aos romeiros não vejam a procissão apenas como uma tradição. “É um momento de todos nós fazermos um resgate das origens e raízes da nossa fé. Maria foi um exemplo para toda a humanidade por ter seu coração imaculado, dedicado aos ensinamentos de Deus”, explanou.
Ao término da celebração a imagem é colocada novamente na embarcação e volta a comunidade. São mais duas horas de percurso no rio, até a chegada a comunidade. A padroeira é recebida com outra queima de fogos. E, enfim, conduzida de volta a paróquia onde uma missa é celebrada.
(Diário do Pará)
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