Não é somente a distância física e geográfica que separa a Escola Tenente Rêgo Barros da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Governador José Malcher.
A primeira fica em Belém, é uma escola pública federal e, do Pará, foi a que alcançou o melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), segundo o Ministério da Educação.
A outra, como o próprio nome já sugere, é uma escola pública estadual, cuja sede está localizada no município de Colares, nordeste paraense, e foi a que apresentou o segundo pior desempenho no Enem. Ficou atrás somente da Escola Estadual Retiro Grande, em Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó – região conhecida pelos baixos de Índices de Desenvolvimento Humano (IDH).
No ranking nacional, a ETRB ficou em 388º lugar, com uma média de 625,35 pontos, e teve 98,96% de participação dos alunos. Já a José Malcher ficou em 11.270º lugar com 403,96 pontos de desempenho, com a participação de 50% dos estudantes do Ensino Médio.
DESEMPENHOS
De acordo com os dados do MEC, os estudantes de Colares tiveram um desempenho ruim em Redação, mas se deram bem nas disciplinas referentes às Ciências Humanas. Já os alunos do Rêgo Barros se deram bem em todas as disciplinas, sobretudo em Redação, onde a escola alcançou uma média de 728,212 pontos.
Infelizmente, esta disparidade apresenta uma realidade lamentável, que reforça o princípio de que a educação pode transformar o país, desde que haja incentivos e investimentos, sobretudo para as escolas da rede pública estadual que carecem de infraestrutura e recursos que podem ser usados para formar cidadãos e garantir um melhor futuro para o Brasil.
ESCOLA NA POUSADA
A diferença entre estas duas escolas está muito além da média que alcançaram durante o Enem. Para se ter ideia, a Escola Rego Barros tem até um museu com um vasto acervo disponível para os alunos, enquanto que a escola Governador José Malcher, que fica numa região que possui um ecossistema no qual se encontra a maior variedade de espécies de arraias de água doce do mundo, não possui sequer um laboratório de Biologia.
Aliás, nem prédio próprio a escola de Colares tem. Funciona em uma pousada que foi improvisada para receber os alunos, até que a reforma da sede do colégio seja concluída. As obras vão completar quatro anos e não há previsão de quando serão concluídas.
DIFERENÇAS
No Rego Barros, os alunos têm horário para entrar e sair e ainda se dedicar a projetos de iniciação científica. Em contrapartida, na José Malcher, os alunos entram às 7h30, mas podem sair da sala antes mesmo de completar as quatro horas diárias de aula por causa da forte sensação térmica nas salas de aula. “Aqui, tem dias que ninguém consegue suportar o calor e a gente acaba dispensando os alunos um pouco mais cedo”, comenta a professora de Química Iracele Miranda.
O diretor da unidade, Walter Miranda, é enfático ao reforçar que na escola faltam laboratórios, computadores e até espaço para armazenar os livros que servem de pesquisas para os alunos. “A situação também é ruim para quem mora longe, na zona rural, porque tem dias que o transporte escolar não está funcionando, então os alunos ficam sem ter como vir para a aula”, acrescenta.
Disciplina é a palavra de ordem para a qualidade
Ainda estudante do 1º ano do Ensino Médio no Rego Barros, Vinicius Lima, 16, apresenta firmeza ao dizer que já se considera preparado para o Enem, embora precise fazer a prova somente daqui a dois anos. “Aqui é uma escola que tem uma estrutura que facilita o aprendizado. De certa forma, desde que a gente começa aqui no Ensino Fundamental, a nossa formação já começa a ser voltada para enfrentar qualquer desafio, para fazer qualquer concurso público”, responde.
Todos os dias quando chega ao ETRB, Vinicius e os demais 1.500 alunos – 340 deles matriculados no Ensino Médio - cantam o hino nacional e passam por uma espécie de inspeção para verificar se o uniforme está completo e vestido da maneira correta. “Não é que a gente seja cobrado, mas, pelo fato de a escola funcionar no regime militar, temos uma disciplina mais rigorosa, e isto até ajuda”, comenta Vinicius.
O estudante comenta que a pontualidade também é cobrada, tanto que a tolerância para atrasos é de 10 minutos – em algumas escolas públicas, a tolerância é de 15 minutos. Quando um imprevisto acontece e os alunos chegam depois do horário da aula, o caso é registrado na ficha deles e isto se configura numa infração. Dependendo da quantidade de infrações, pode haver punições que resultam, inclusive, em expulsão.
Sobre as aulas, Vinicius atenta que a didática pedagógica consiste em aulas práticas e teóricas. Na disciplina de Biologia, por exemplo, eles aprendem o conteúdo da prática para a teoria. “A gente chegou a desenvolver um Manual de Laboratório que já recebeu a proposta até de publicação. Algumas escolas inclusive nos pedem exemplares”, ressalta a professora de Biologia Margareth Maia.
Ela supervisionou o Vinicius e mais sete colegas de turma dele durante um projeto de pesquisa sobre a alimentação dos estudantes e a merenda escolar. A pesquisa deles foi premiada durante a IV Mostra de Ciências e Tecnologia Escola Açaí, realizada no mês passado, em Barcarena. “O projeto deles vai concorrer a um prêmio internacional ano que vem, que vai ocorrer no México. Isto é a iniciação científica que fazemos na escola e os alunos participam”, disse a professora.
Quando precisam fazer trabalhos de pesquisa, os alunos têm acesso livre à biblioteca da escola e também ao museu, que possui catalogadas algumas espécies de borboletas que não há em nenhum outro museu do Brasil.
Falta muita estrutura para escola em Colares
A Escola Estadual Governador José Malcher possui aproximadamente 520 alunos frequentando as aulas normalmente.
O Ensino Médio nesta unidade é um projeto recente, tanto que os dados sobre o péssimo desempenho da escola no Enem são referentes à primeira turma que se formou. Para o diretor Walter Miranda, vários fatores contribuíram para estes índices, entre eles o interesse dos alunos em estudar além da sala de aula.
Por outro lado, na escola falta laboratórios, computadores e também biblioteca, não há espaço para armazenar os livros que servem de pesquisas para os alunos. Isto sem ressaltar também a falta de recursos pedagógicos para que os professores possam ministrar as aulas de modo a gerar um maior conhecimento por parte dos estudantes. “Eu gosto de trabalhar com recursos audiovisuais e aqui a gente não dispõe. Não se pode trabalhar com muitos materiais numa sala fechada. Não temos laboratório”, reclama a professora Iracele.
Quem mora longe - na zona rural - e depende do transporte escolar sofre com as falhas no serviço e, às vezes, passa a semana inteira sem ir à aula. A estudante Heloisa Cristina Lobo, 17, que está no 3º do Ensino Médio, mora na comunidade de Mocajatuba, distante 17 Km da sede do município, e acorda às 5h30 todos os dias para estudar numa escola que não lhe dá sequer as estruturas mínimas. “Tenho que acordar cedo por causa do ônibus e às vezes venho com tanto sono que durmo na aula. Tem amigos meus que passam porque tomam café cedo e não conseguem esperar a hora do almoço para chegar em casa”, disse.
Enquanto a escola pública federal oferece educação de qualidade, a do estado não tem nem ventilação (Foto: Ricardo Amanajás)
DIFICULDADES
Diante de um cenário como este, não é difícil compreender o porquê de esta escola ter alcançado médias tão baixas no Enem. Os problemas que esta escola enfrenta representam muito mais a ineficiência das políticas públicas e da gestão estadual que os esforços de professores, coordenadores e pedagogos que trabalham na unidade. “São vários fatores que contribuíram para que a escola acabasse tendo um desempenho negativo no Enem. A começar que estamos sem, de fato, um prédio escolar”, aponta Walter, que também ressalta que os alunos precisam contribuir e estudar também fora do horário de aula, em casa.
O prédio escolar ideal, segundo o diretor Walter, deve dotar de laboratórios de informática, laboratório para as aulas de ciências (química, biologia e física) e até de uma biblioteca para incentivar a pesquisa. Tudo isso existe na ETRB.
A estudante do 2º ano do Ensino Médio, Josele da Luz, 16, que pretende se tornar oficial da aeronáutica daqui a alguns anos, é uma das que se queixa da falta de opções de recursos para realizar algumas pesquisas escolares. “Temos alguns livros didáticos aqui para estudar, mas tem assuntos que precisamos recorrer a outros livros ou então ir a um cyber acessar a internet para pesquisar, mas aí nem todo tempo a gente tem dinheiro para estar pagando o cyber”, disse.
Sem laboratório de informática na escola e sem computador em casa, ela precisa pagar também para imprimir e digitar o trabalho, o que torna a realização das tarefas escolares ainda mais difícil. “Nem todo mundo tem recursos”, lamenta.
SEDUC
A reportagem pediu à Secretaria de Estado de Educação (Seduc) justificativas para o descaso com a escola de Colares, para saber sobre a demora da reforma do prédio e quais as ações que o Estado planeja para melhorar a questão do Ensino Médio nos municípios do interior do Estado.
Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (Seduc) não respondeu aos questionamentos e se limitou a informar “que desenvolve um conjunto de ações para melhorar os índices da educação pública do Estado do Pará. A principal delas é o Pacto pela Educação do Pará, que pretende aumentar o Índice da Educação Básica (Ideb) em 30% no período de cinco anos”. Segundo a nota da secretaria, “o governo do Estado, por meio da Seduc, assinará, ainda neste mês, um projeto com o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), que investirá 200 milhões de dólares na educação pública do Estado”. E informou ainda que “de 2011 até agora foram realizadas 504 obras em escolas da rede estadual de ensino. Deste quantitativo, já foram concluídas e entregues 235”. Mais uma prova de que, como o Estado investe pouco em educação, precisa pedir ajuda e financiamento de instituição internacional para garantir a estrutura das escolas e do desenvolvimento da pedagogia e do ensino, e depende de recursos federais para capacitar e complementar o Piso Nacional dos professores.
(Diário do Pará)
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