A coincidência de ocorrerem a um intervalo de menos de quatro meses dois eventos com alto poder de mobilização popular – a Copa do Mundo e as eleições – faz de 2014 um ano singular, quase atípico para o Brasil. Embora tenham também enorme potencial para a geração de problemas, tanto a Copa (ela principalmente) quanto as eleições fazem de 2014 um ano promissor no bom sentido da movimentação financeira e de prováveis investimentos, que, por tabela, aumentarão também as possibilidades de geração de renda e empregos.
A avaliação é do economista, professor (da UFPA) e consultor empresarial José do Egypto Soares Filho. Segundo ele, mesmo não tendo sido a cidade de Belém escolhida para ser uma das subsedes da Copa do Mundo, o Pará acabará sendo indiretamente beneficiado. “Acredito que a combalida economia paraense será levada a reboque na captação dos benefícios gerados pelo Mundial de futebol”, afirmou José do Egypto Soares Filho, acrescentando que os impactos econômicos positivos acontecerão por reflexos indiretos ou por osmose.
Sobre as oportunidades oferecidas pela Copa do Mundo, o economista e professor considera que os paraenses poderiam ser mais contemplados, se outras fossem as circunstâncias. “Nós não vamos vivenciar esse bom momento na sua plenitude simplesmente por falta de uma maior densidade, capacidade de articulação e consistência política”, acrescentou.
Para José do Egypto Soares Filho, os dois eventos, em que pese o caráter cíclico de ambos, carregam uma carga tão poderosa de emoção que tendem a gerar certas “externalidades positivas”, no tocante à maior injeção de recursos financeiros. Aqui não cabe entrar no mérito, conforme frisou, quanto à destinação dada a esse dinheiro ou especular quanto à sua boa ou má aplicação. O importante, acrescentou, é que a Copa e as eleições vão irrigar a economia com um volume nada desprezível de recursos, o que amplia as perspectivas para novos negócios.
Apesar dessa visão favorável, José do Egypto não descarta por completo o risco da eclosão de crises – imediatas ou a posteriori – em alguns dos segmentos mais diretamente associados aos dois grandes acontecimentos. Entre eles, o economista cita o de eletrônicos, gráficos, publicitários, esportivos, turísticos, gastronômicos, além do comércio em geral, tanto no varejo quanto no atacado.
O professor considera que, mais importantes do que eventuais turbulências em setores específicos, são as condições – quase únicas – que os dois eventos oferecem para tirar da parcial inércia praticamente todos os setores econômicos e, da mesma forma, para quebrar a rotina das famílias e das empresas. “Acho que dificilmente a sociedade brasileira – e a paraense em particular – vai se resignar a uma observação passiva dos acontecimentos. Para mim, o clima efervescente da Copa do Mundo e, logo a seguir, das eleições, cria um ambiente propício aos investimentos e aos novos negócios”, finalizou.
Trabalho: 2013, um ano para esquecer
No tocante ao comportamento do mercado de trabalho, o ano de 2013 foi simplesmente “pavoroso”, seguramente o pior dos últimos dez anos. A avaliação é de Nara d’Oliveira, diretora da Gestor Consultoria, empresa com sede em Belém e especializada nas áreas de diagnóstico organizacional, planejamento estratégico e gestão da qualidade, de pessoas e de varejo.
Para ela, o ano de 2014 surge como um ponto de interrogação, principalmente em função de dois eventos que mexem com os humores de boa parte da população – a Copa do Mundo e as eleições de outubro. O país, segundo a especialista em gestão, vai ficar virtualmente paralisado durante alguns meses de 2014 e, num cenário assim, as empresas normalmente pisam no freio e retardam seus planos de investimentos. Nara d’Oliveira ressaltou também que toda e qualquer análise de conjuntura precisa levar em conta não somente a realidade local, mas também a nacional e a mundial.
Quanto ao ano que está terminando, garantiu que, depois de muitos anos, o Pará experimentou um desaquecimento acentuadamente forte em termos de oferta. O Estado, conforme frisou, vinha de um longo ciclo de pleno emprego, com mais oferta, inclusive, do que o mercado tinha condições de absorver. A oferta era grande, sobretudo, para os quadros de formação técnica, de terceiro grau e os de perfil gerencial estratégico.
De acordo com Nara d’Oliveira, depois de dois anos superaquecidos, em 2006 e 2007, o mercado de trabalho começou a emitir fortes sinais de desaceleração a partir do segundo semestre de 2008, quando eclodiu a crise internacional. Em 2009, a economia voltou a emitir leves sinais de recuperação, sendo acompanhada pelo mercado de trabalho. A boa performance, em escala crescente, se manteve ainda em 2010 e 2011. Em 2012, começou de novo a fraquejar, já prenunciando os trágicos resultados de 2013.
No exercício atual, segundo Nara d’Oliveira, a construção civil, turbinada pelos investimentos do Projeto “Minha Casa, Minha Vida”, pelas obras do PAC e pela construção da hidrelétrica de Belo Monte, foi segmento o que mais empregou no Pará, vindo a seguir o agronegócio, os serviços, o varejo e, por último, a indústria, setor que, nos últimos anos, tinha se mantido invariavelmente na primeira colocação.
O fraco desempenho da indústria, conforme frisou, resultou principalmente de mudanças em curso na postura estratégica da China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Por decisão do governo chinês, o país passou a investir menos em infraestrutura e a privilegiar investimentos no consumo. “Isso afetou duramente as exportações brasileiras de minérios”, finalizou.
(Diário do Pará)
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