A partir da segunda quinzena de janeiro, quando já terão sido entregues pela prefeitura de Belém as obras físicas da primeira etapa do Projeto BRT (Bus Rapid Transit), certamente haverá uma mudança importante no trânsito ao longo da avenida Almirante Barroso e também na área do Entroncamento, embora não se saiba se no sentido positivo. A Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob), responsável pelo planejamento e logística do empreendimento, prevê uma redução média de vinte minutos no tempo de viagem pela avenida entre São Brás e o Entroncamento. Este seria, por enquanto, o principal benefício previsto para os usuários do serviço de transporte coletivo em Belém. O órgão só não explica como o tempo da viagem será reduzido sem que esteja prevista a etapa de integração entre os sistemas.
“Fluidez” é a palavra mágica utilizada pela superintendente da Semob, Maisa Tobias, para definir o efeito imediato da conclusão da primeira etapa das obras do BRT, projeto iniciado sob contestações na administração anterior, de Duciomar Costa, e objeto até hoje de questionamentos, já na gestão de Zenaldo Coutinho.
Maisa Tobias admite que os passageiros até poderão passar sufoco, como já passam hoje, até a entrada do coletivo na Almirante Barroso. Mas, garante, quando entrarem na avenida as linhas expressas, elas vão circular com muito mais rapidez. Deslocando-se metade dos ônibus pela canaleta, o resultado é que a outra parte, segundo ela, vai ficar também descongestionada, fazendo com que a corrente de tráfego passe a fluir de forma mais livre.
Aos pedaços
Além dessa previsão otimista, a superintendente da Semob fez questão de esclarecer, durante a audiência pública realizada quinta-feira à noite no Amazônia Hall, que a entrega da etapa Almirante Barroso não é ainda o BRT, mas apenas uma parte dele. “Venderam para a população uma ideia de BRT que não existe, o BRT em pedaços”, afirmou Maisa Tobias, acentuando que o BRT tem que ser necessariamente um ciclo fechado. Sem isso, diz ela, não é possível fazer a integração do sistema com bilhete único, justamente o elo mais importante do processo.
No caso de Belém, é prevista a execução do projeto em três etapas. A primeira é a da Almirante Barroso, que deve ser concluída agora. A segunda vai alcançar toda a extensão da rodovia Augusto Montenegro, estendendo-se do Entroncamento até a entrada de Icoaraci.
A terceira etapa vai se completar com dois trechos, sendo um deles com circulação interna na vila de Icoaraci, até alcançar a orla, e o outro cobrindo a rota entre São Brás e o Ver-O-Peso.
A Semob trabalha com a expectativa de tocar simultaneamente, a partir de 2014, as duas etapas finais do projeto, que neste caso ficaria concluído no início de 2016. Se isso acontecer, aí sim, Belém poderá passar a contar com o BRT.
Ainda sem ônibus
Se não é ainda o BRT, o que é mesmo que a prefeitura pretende inaugurar festivamente no aniversário da cidade, em janeiro? Ainda sem os ônibus articulados, a PMB vai deslanchar apenas uma operação especial expressa na Almirante Barroso, sem qualquer benefício prático para a população.
A previsão é de que 30% das linhas vão ter circulação expressa na avenida e prolongarão viagem até o centro, enquanto 20% farão retorno operacional em São Brás. A outra metade da frota continuará operando como já operam hoje as linhas convencionais, inclusive com circulação dos ônibus fora da canaleta.
Projeto não resolve tudo, diz especialista
Embora o sistema seja bom, em princípio, e venha sendo crescentemente utilizado em todo o mundo, a forma como está sendo implantado o BRT em Belém suscita dúvidas e deixa no ar inúmeros pontos de interrogação. A opinião é de Patrícia Bittencourt Neves, professora e pesquisadora da área de engenharia de trânsito e transportes da Universidade Federal do Pará.
Para ela, o projeto BRT é uma opção válida para a crise de mobilidade que se instalou não só em Belém, e nem só no Brasil, mas em todos os países que não planejaram o crescimento de suas populações urbanas. O Brasil, segundo ela, é um caso típico de país que pecou no planejamento. Então, é natural que o BRT seja visto hoje como a resposta mais à mão para enfrentar a crise de mobilidade.
Destacou a pesquisadora que, frequentemente, as pessoas fazem comparações entre o BRT e outros sistemas de transporte de massa, como o metrô e o veículo leve sobre trilhos (VLT), por exemplo. Neste caso, ela observou que o custo do BRT é significativamente mais baixo e a sua implantação, muito mais fácil e rápida. Ou seja, pelo critério custo-benefício, o projeto que está sendo implantado em Belém tem a oferecer certas vantagens comparativas.
Mas que ninguém se iluda a achar que essas vantagens são incondicionais, trata de advertir a pesquisadora da UFPA, acrescentando que o BRT não serve para toda e qualquer situação. “Ele tem que ser bem planejado, bem implantado e bem operacionalizado”, acrescentou. Patrícia Neves nem precisou dizer que a receita para o que deve ser um bom BRT é, exatamente, tudo o que faltou no projeto de Belém, pelo menos em sua etapa inicial, ainda em curso.
Para que funcione bem, segundo ela, o sistema exige, entre outras coisas, equipes altamente capacitadas, sistemas de controle eficientes e veículos maiores, articulados, para circulação em vias exclusivas. “Os ônibus precisam ter prioridade no sistema de tráfego, pois só assim o sistema se torna competitivo e potencializa as vantagens”, aduziu. Patrícia Neves também recomenda moderação nas expectativas, chamando a atenção para o fato de que o BRT, embora deva contribuir para a melhoria do tráfego urbano na capital, jamais será capaz de resolver, por si, os muitos e graves problemas do trânsito em Belém. Por isso, disse ela, é necessário que, ao projeto, se sobreponha uma série de ações complementares. Entre outras ações, ela sugere uma fiscalização sistemática e mais eficiente, a adoção de uma nova modelagem de sinalização semafórica – em substituição ao anacrônico modelo atual – e a busca de uma solução definitiva para a circulação dos veículos de carga no centro da cidade. Observou ainda a professora da UFPA que a cidade tem vida própria, é dinâmica e por isso está em transformação permanente, cabendo à administração pública e à própria sociedade acompanhar e se adequar a essas mudanças. É o caso, por exemplo, do formidável crescimento da frota automotiva, um fenômeno que se registrou em todo o Brasil. “A isso devemos uma grande parte dos graves problemas que hoje afligem as grandes cidades, como os congestionamentos, a poluição e o aumento de acidentes. Afinal, quanto mais carros circulando nas ruas, maiores são os riscos”, finalizou.
Augusto Montenegro: edital em janeiro
Responsável pelas obras de engenharia do BRT, o secretário municipal de Urbanismo, Adinaldo Oliveira, informou que a prefeitura está investindo nas obras da Almirante Barroso cerca de R$ 142 milhões. Ele confirmou que agora em janeiro serão entregues as obras civis desse trecho, que representa a primeira etapa do projeto BRT Belém.
Para a execução da segunda etapa, cobrindo todo o percurso da rodovia Augusto Montenegro, a prefeitura já dispõe de um saldo de R$ 260 milhões resultante do primeiro convênio celebrado com a Caixa Econômica Federal. O secretário da Seurb disse que não é possível saber por enquanto o valor a ser investido na obra da Augusto Montenegro porque estão sendo feitos ainda alguns ajustes no projeto.
Adinaldo Oliveira informou que o edital de licitação da segunda etapa deverá ser publicado no dia 20 de janeiro. Se for cumprido esse calendário e se não houver depois disso nenhum embaraço, a obra do BRT Augusto Montenegro será entregue à população nos primeiros dias de janeiro de 2016. Até lá, provavelmente, já com mais duas extensões do projeto em andamento, uma para fazer a integração rodofluvial das cerca de 40 ilhas do entorno de Belém, e a outra, a da avenida Centenário.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar