Todos os sábados e a cada dia 23, Nazaré Leal, 49 anos, faz o mesmo percurso em direção à rodovia BR-316. O destino é um cemitério, onde renova o depósito de flores e troca algumas fotos. No local da peregrinação semanal e mensal está o filho Maike Taison Leal da Silva, morto depois de ter recebido três facadas em uma briga por motivo prosaico: o valor de uma corrida de mototáxi. No percurso, ao chegar próximo ao Hospital Metropolitano, Nazaré fecha os olhos, evitando o local em que o filho morreu - depois de receber os golpes no lado esquerdo do peito.
Maike Taison, nome dado pelo pai em homenagem ao problemático e mítico boxeador dos anos 1980, tinha 23 anos. Morreu no dia 23 de junho de 2012, depois de dois dias de agonia no hospital público. Taison começou a morrer provavelmente entre 5h e 6h da manhã de sábado.
Tinha ido até a rede de supermercados onde trabalhava como estoquista, receber um dinheiro devido. O aniversário de um dos três filhos seria no dia seguinte. Para se deslocar tão cedo, apanhou um mototáxi. Na volta, parou em um posto de gasolina e tentou trocar a cédula de R$ 100 para pagar o transporte. Ele e o mototaxista se desentenderam a respeito do valor da ‘viagem’. A discussão se tornou mais acalorada. Os dois brigaram e o mototaxista, que trazia uma faca no colete, feriu por três vezes o peito de Taison.
Nazaré Leal ainda dormia quando o telefone tocou. Antes que pudesse atender, ouviu batidas à porta. Pensou tratar-se do filho e já preparava o ‘ralho’ por não estar em casa. Era um sobrinho, noticiando o crime. Um dos irmãos foi até o local e viu as sandálias de Taison em meio a uma poça de sangue. Taison foi levado a um posto de saúde perto de onde a família sempre morou, na passagem 21 de Abril, no bairro da Condor. De lá foi levado ao Hospital Metropolitano. No meio do caminho, ainda disse ao irmão: “Cuida dos meus filhos que não vai dar para mim”.
NEGRA SINA
“Foi um negro esfaqueado chegando ao hospital. Imagine o que se pensa”, reflete o irmão. Nazaré Leal concorda com a cabeça. Ambos não estão longe da realidade. Uma pesquisa feita no Rio de Janeiro, já mostrou que negros e pardos têm mais dificuldade para ser atendidos no SUS e nas ações judiciais por crime racial, costumam perder mais do que ganhar. O documento, elaborado pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e encampada pelo economista e professor da UFRJ Marcelo Paixão, expõe o racismo mal camuflado.
“Viver no Pará é um perigo, ainda mais sendo negro”, diz Nazaré Reis, integrante da Associação Afro religiosa e Cultural Ilê Iyaba Omi, uma entidade situada no bairro da Terra Firme, em Belém, que luta contra a discriminação racial. “Vivemos numa sociedade que se comove mais com cachorros do que com gente. Você não percebe a indignação das pessoas por essa quantidade de assassinatos diários com a juventude negra, se vive um verdadeiro estado de guerra”, diz ela.
Nazaré Reis diz que a mortalidade juvenil negra não é de hoje. “Já faz alguns anos que o movimento social negro brasileiro vem fazendo essa denúncia de genocídio da juventude negra”, afirma. O risco maior, segundo ela, é a naturalização da violência. “Quando olham para as páginas dos jornais e lá estão os corpos negros caídos no chão, em média esses jovens morrem com cinco a sete tiros, sempre pelas costas. Isso é execução. Não se percebe a indignação da sociedade. Em geral, quem se manifesta são os familiares e o movimento social negro”, diz.
O Pará é o quinto estado que mais mata jovens negros no país, informa o Centro de Defesa do Negro no Pará (Cedenpa). Dos 132 municípios que mais matam 12 são paraenses. Belém, Ananindeua, Marabá, Marituba, Parauapebas, Castanhal, Paragominas, Tailândia, Redenção, Altamira, Barcarena e Tucuruí.
Segundo o Ministério da Saúde, e de acordo com o Censo de 2010, foram 11,5 mortes para cada 100 mil brancos por arma de fogo. E mais que o dobro, 26,8 mortes para cada 100 mil negros, também por arma de fogo. Dessa forma, a vitimização negra foi de 133%. Isto é, morrem proporcionalmente, vítimas de arma de fogo, 133% mais negros que brancos.
Nazaré Leal percebeu isso da forma mais real possível. Na casa grande onde moram todos os cinco filhos, quatro mulheres, a presença de Maike Taison está em todos os cantos, em cartazes e banner feitos para honrar a memória do rapaz negro, jogador profissional de handebol - o esporte aprendido um dia em uma escola pública e que ele esperava ser a passagem para outro nível de vida. A violência não permitiu.
(Diário do Pará)
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