Poucas horas depois da erosão que engoliu por completo pelo menos cinco casas e condenou pelo menos outras cinco na comunidade São João Batista, que fica à beira do rio Maratauíra, em Abaetetuba, era impossível se aproximar do local, com o chão de piçarra repleto de rachaduras, sem temer que um novo desastre acontecesse a qualquer momento.
Mesmo do lado de fora, era possível ouvir paredes desmoronando em alguns momentos na tarde de anteontem e a situação só não foi pior porque ninguém saiu ferido. De acordo com levantamento preliminar do Corpo de Bombeiros, pelo menos 25 casas foram afetadas pela erosão.
“Nós ouvimos de algumas testemunhas que desabaram primeiro as pontes de madeira que havia sobre o rio e isso fez com que os moradores se assustassem e saíssem de suas casas. Pelo menos isso aconteceu de manhã, entre 8h e 9h. Se é de madrugada, ia morrer muita gente”, declarou o tenente do Corpo de Bombeiros, Reginaldo Margalho, acompanhado de mais de 30 homens da corporação.
Além dos bombeiros, estavam presentes em peso também a Polícia Militar, o Departamento Municipal de Trânsito (Demutran) e a Defesa Civil. A PM não soube precisar o número de homens em ação, mas informou que muitos que estavam de folga foram chamados e que até mesmo policiais de outros municípios atenderam ao chamado.
Toda a área, no raio de 1 Km, foi isolada para evitar que alguém se machucasse caso houvesse um novo deslizamento de terra, mas os curiosos não respeitavam os limites impostos pelos cordões de isolamento, o que fez com que a Defesa Civil tivesse ainda mais trabalho.
Algumas pessoas pegaram pequenas embarcações e ficaram cercando a área, interessadas em pegar pertences que estavam nas casas submersas e que, com a baixa do nível do rio, começavam a boiar - um dos imóveis que desabou parcialmente era um mercadinho, e era possível ver pacotes de comida, cigarro e outros itens vindo à tona.
Muitos moradores deixaram suas casas e carregaram móveis consigo, na medida do possível, mas havia aqueles que estavam resistentes em deixar seus imóveis. “Nossa primeira preocupação aqui é com os desalojados e desabrigados, em providenciar a eles o mínimo necessário. Em seguida, vamos fazer o trabalho corpo a corpo com os moradores que não querem deixar suas casas. Houve uma reunião na tarde de hoje (anteontem) com representantes do Executivo, Legislativo e outros órgãos do Estado para definir prioridades nesse primeiro momento”, explicou o chefe de operações da Defesa Civil, capitão William Silva.
Ainda segundo a Defesa Civil, cerca de 12 famílias estavam desabrigadas até anteontem, algumas porque tiveram as casas sugadas ou condenadas, outras porque moram no entorno e preferiram deixar a área com medo de um novo acidente. Em um primeiro momento, as pessoas carregavam o que podiam - móveis, eletrodomésticos, roupas e outros pertences - para um centro comunitário próximo de onde o desabamento ocorreu, enquanto as famílias que tiveram perda total eram encaminhadas para casa de parentes ou ao Ginásio Municipal de Abaetetuba Hildo Carvalho.
Ainda no centro, representantes da Secretaria de Habitação municipal começavam a fazer o cadastro das pessoas afetadas. “Essa comunidade existe há cerca de 22 anos e nós nunca vimos nada parecido. É muito triste isso tudo, mas a gente está ajudando como pode”, disse o líder comunitário José Elinelson Bittencourt.
Tentativas desesperadas de salvar os pertences
As primeiras horas do dia que sucederam a erosão da manhã do último sábado em Abaetetuba foram marcadas pela tentativa desesperada de alguns moradores de tentar salvar o que havia restado. Com os pés fincados no que antes era o telhado de uma das casas ‘engolidas’ pelo solo cedido, um morador se arriscava diante da possibilidade de salvar o que houvesse restado, ainda que fossem apenas algumas tábuas de madeira.
Diante do que antes era uma rua que seguia em linha reta margeando o rio Maratauíra, só o que os olhos conseguiam enxergar era um amontoado de tábuas, telhas e lençóis em meio à água barrenta.
Passadas mais de 24 horas da erosão do imóvel tido como moradia pelo viajante Manoel dos Santos desde os 16 anos, só o que restava era a placa, ainda torta, com o número 505. “Só o que restou foi o número da casa. Para construir custa, mas para ir embora é rápido”.
Sem que estivesse em casa no momento da erosão, que aconteceu entre 8h e 9h de sábado, a visão de Manoel carregava, silenciosa, a incerteza sobre o futuro. Da casa de altos e baixos feita de alvenaria e com muito esforço, como faz questão de destacar, só se via o telhado. Todo o resto ficou debaixo d’água.
“Quem estava na casa era a minha mulher, o meu sogro e meus dois filhos”, recorda, sem tirar o olhar do espaço tomado pela água da maré que enchia. “Ligaram dizendo que a casa do vizinho tinha caído e que era para eu vir para cá. Na hora, pedi pra verem como estava a minha casa e cuidar da minha família, mas já ouvi dizerem: ‘A sua também caiu’. Pronto!”
Agradecido por toda a família ter saído ilesa da fatalidade e já alojado na casa da sogra, só lhe restava contabilizar os prejuízos. “O que a gente tinha tá tudo aí”, mantinha o olhar fixo no espaço vazio. “Não dá nem para pensar no que fazer agora. Nunca pensei que fosse cair isso aqui. Agora eu vou é tentar esperar a maré baixar pra ver se dá para salvar alguma coisa”.
No outro extremo da ‘cratera’ repleta de água e escombros, os esforços eram para salvar o que ainda se mantinha em pé da Casa Maria Madalena, um pequeno comércio do local. Tombada e na beirada da nova ‘margem’ formada pela erosão, foi por pouco que a moradia do comerciante Alfredo Ferreira Rodrigues, de 61 anos, também não foi levada pelo rio.
O estalo repentino gerou o grito aflito do morador do outro lado da rua. Com os imóveis já perdidos, só o que preocupava Alfredo era a segurança dos filhos e amigos. “Sai daí agora que estalou isso. Desce, desce, larga tudo aí e sai!”.
VIDAS
Apesar de toda a tragédia, as lágrimas que escorriam eram, em grande parte, de agradecimento pela manutenção da vida de todos os familiares. “Nós fomos uns dos primeiros moradores desse bairro, isso já tem mais de 25 anos. Foi um susto muito grande. Quando eu fiquei sabendo, larguei tudo e vim para cá”, lembrava Alfredo, ainda abalado com os últimos acontecimentos. “Eu tenho um irmão que é deficiente e que tava na casa na hora. Sorte que foi de dia e deu tempo de retirar todo mundo rápido, inclusive ele. A gente agradece a Deus por isso”.

(Foto: Elcimar Neves/Diário do Pará)
Com a interdição da casa reformada há menos de seis meses, Alfredo e mais oito pessoas da família ficaram sem ter onde morar. A primeira noite fora de casa teve que ser na casa de amigos, que a todo momento apareciam prestando assistência. “De tudo o que a gente tinha de móvel, deu para salvar uns 50%. Ainda bem que aqui todo mundo é irmão mesmo e tá todo mundo se ajudando”.
(Diário do Pará)
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