Os moradores da comunidade São João Batista que não tiveram seus imóveis atingidos pelo desastre ocorrido no último dia 4 de janeiro, quando uma espécie de erosão engoliu algumas casas e condenou outras às ruínas, não podem se considerar seguros.
De acordo com o engenheiro civil Nagib Charone, que integra o Departamento de Estruturas e Fundações do Instituto de Tecnologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), da rachadura mais próxima no solo de piçarra que antecede o rio Maratauíra, na rua Siqueira Mendes, em Abaetetuba, até cerca de 40 metros para trás, o recomendado, em uma análise livre, sem laudos ou investigações mais profundas, seria mesmo o isolamento total, ou seja, que as pessoas deixassem suas casas. “Não vou dizer de certeza que algo irá acontecer novamente, seria leviano da minha parte. Mas é, sim, provável que aconteça de novo. Por baixo da piçarra, o que existe é argila, um material que é extremamente mole, uma ‘papa’. É tão instável que não precisa chuva, nem uma maré tão alta para que algo como aconteceu no sábado passado aconteça de novo. Uma simples gota d’água, para se ter ideia da instabilidade que existe ali, é o suficiente para provocar outro desastre”, analisa.
“Por isso que, de antemão, da última linha de ruptura para trás, eu diria que deveria haver um isolamento de cerca de 40 metros. É um milagre que ninguém tenha morrido ali”, afirma Charone.
Mais uma vez, a omissão das autoridades podem ter tido participação direta no triste cenário que arrasou a comunidade em Abaetetuba. “Aquilo, sem dúvida nenhuma, é fruto de uma leniência da municipalidade, da Prefeitura, algo que vem se acumulando há várias gestões. É ela quem define em quais ruas é possível ou não haver construção e o tipo delas. Além do mais, de tempo em tempo, as ruas por ali recebiam piçarra, algo que, em cima da argila orgânica, chega a pesar 800 quilos por metro. E as pessoas, em vez de construírem casas de madeira, o que não é garantia de que o terreno se manteria estável, mas pelo menos são mais leves, construíam em alvenaria. Havia casas de três andares a poucos metros do trecho que desmoronou”, comenta. “Não é que não se pudesse construir casas em alvenaria de mais de um andar, mas o tipo de fundação exigido é diferenciado”, detalha.
De qualquer forma, ele não recomenda novas construções na área. “Quem o fizer, vai jogar dinheiro fora, é mole demais, instável demais”, confirma.
Ontem a Prefeitura Municipal de Abaetetuba solicitou declaração de Estado de Emergência, mas nem a prefeita Francineti Carvalho (PSDB) e nem a secretária Municipal de Assistência Social, Rita Abreu, ambas procuradas pelo DIÁRIO por telefone para falar sobre o assunto, atenderam às ligações.
Doações podem ser feitas em quatro cidades
Todo o Pará está comovido com a tragédia ocorrida no último sábado(4), em Abaetetuba, onde dezenas de casas e estabelecimentos comerciais foram destruídos após uma erosão fluvial ter castigado o bairro São João, no município do Nordeste do Pará.
Milhares de produtos e alimentos estão sendo doados às vítimas que permanecem abrigadas no ginásio municipal no centro da cidade. Em Belém e municípios vizinhos, desde ontem (7), até a próxima sexta-feira (10), a Universidade do Estado do Pará (Uepa), disponibilizou quatro pontos de arrecadação de donativos para as famílias desabrigadas.
Em nota, a Uepa explicou que por ser uma instituição interiorizada, possuir vários alunos abaetetubenses em seus diversos cursos na capital e interior, sobretudo no Campus de Moju, e pelo compromisso com movimentos sócio-humanitários, não poderia deixar de prestar solidariedade e apoio às vítimas neste momento tão trágico.
A responsabilidade em abraçar a causa torna-se ainda maior pelo fato de o reitor da instituição, professor doutor Juarez Quaresma, ter raízes na cidade e como tal, ser conhecedor da realidade do povo e de como o conhecimento científico produzido na Universidade pode ser capaz de mudar o cenário social. “Assim se fortalecem o vínculo e o papel da Universidade com a Sociedade”, afirma a nota.
Na segunda-feira(6), foi decretado estado de emergência no município. De acordo com a Defesa Civil, até o momento, foram 13 casas destruídas, 23 imóveis desalojados, 78 famílias atingidas e 106 pessoas desabrigadas. O órgão também estuda duas possibilidades para explicar as causas do desabamento: a erosão da margem do rio ou a variedade do aterro existente no local (caroço de açaí, madeira e argila), aliado ao peso dos imóveis na área.
Serviço
Quem quiser ajudar as famílias atingidas pela tragédia que continuam abrigadas no ginásio municipal de Abaetetuba, pode se dirigir até um dos pontos de arrecadação cedidos pela Uepa, de 8h às 12h e de 14h às 18h, nos endereços:
- Em Belém: Campus II/CCBS (Travessa Perebebuí, 2623 – Marco); Prédio da Reitoria (Rua do Una, 156 – Telégrafo);
- Em Moju: (Avenida das Palmeiras, 485 – Aviação);
- Em Barcarena: (Rua Tomás Lourenço Fernandes, Quadra 356, Lote 01 - Vila dos Cabanos).
Os interessados podem contribuir com doação de utensílios domésticos, alimentos não perecíveis, material de higiene e limpeza e água mineral.
(Diário do Pará)
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