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'Belém sem projetos e enganada por gestores'

O professor universitário, arquiteto e urbanista e Paulo Cal é uma das mais respeitadas vozes quando o assunto é a cidade de Belém. No aniversário de 398 anos da capital, ele considera que a cidade não tem tanto a comemorar e denuncia: a população está se

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O professor universitário, arquiteto e urbanista e Paulo Cal é uma das mais respeitadas vozes quando o assunto é a cidade de Belém. No aniversário de 398 anos da capital, ele considera que a cidade não tem tanto a comemorar e denuncia: a população está sendo enganada diariamente pelos governantes. Apaixonado pela Metrópole da Amazônia, Cal foi convidado a participar esta semana do programa Argumento, da RBATV. Na conversa com o jornalista Mauro Bonna, ele fez duras críticas ao poder público pelo momento que passa a capital paraense - e especialmente frente aos problemas estruturais que enfrenta rumo aos seus 400 anos. Confira aqui um resumo dos melhores momentos dessa entrevista:

P: Você sempre foi um fiscal competente da cidade. Qual é sua impressão de Belém hoje?

R: Nós vivemos todos nesta cidade maravilhosa, cheirosa, que o povo é receptivo e que todos nós amamos! Mas é uma cidade azarada.

P: Azarada do ponto de vista administrativo...

R: Claro! É uma cidade muito mal administrada. Nos últimos 20 anos, foi administrada de ofício. Não se faz mais um planejamento com uma visão de futuro. Ou seja, é um “fazejamento” em função desses programas que o governo que esse país tem, como o Minha Casa Minha Vida, PAC 1, PAC2. E de ofício se faz o BRT.

P: Você não acha que são coisas novas? O BRT e a orla no rio Guamá, por exemplo...

R: Isso precisava ser organizado e planejado. Ter projeto. O que fizemos na nossa cidade nestes últimos três anos? Não se pode mais andar na cidade. Veja a avenida Almirante Barroso, por exemplo. É terrível você viver numa cidade em que o eixo principal está atulhado de projetos que não têm projetos. De projetos que não se sabe como vão ficar no futuro, os problemas que irá enfrentar e como poderá se remediar.

P: Do BRT, vai ser inaugurada só uma parte do elevado. Virá o período de chuvas e os ônibus não vão circular como o programado de início...

R: E é desta forma que nós iremos completar 398 anos de fundação da cidade. Isto é uma vergonha e não temos a quem apelar. No Rio de Janeiro, [o BRT] foi bem mais barato. Isso foi para enganar a população, para roubar. Nós fomos enganados pelos nossos administradores, que na época da informática não têm a coragem de dizer pelo menos o que eles pretendem fazer da cidade. Nenhum projeto arquitetônico dessa prefeitura é aprovado. Nenhum projeto da prefeitura é aprovado, colocado para o público. Nós já tivemos quantos secretários de Saúde nesta cidade? O que nós vemos é que tem alguém com um dedão que assina nos gabinetes. Não é possível! Gente séria se comprometeu a ser secretário e não conseguiu ser! O que está acontecendo com esta cidade? Nós estamos a dois anos de completar 400 anos e não tratamos esta cidade de uma forma clara. É colocar na internet: ‘O nosso programa é isso, nós estamos a dois anos de completar 400 anos e temos a seguinte proposta e nós queremos que a população participe’. O custo é nada. É ainda o pensamento de governos passados: ou seja, tudo é decidido nos fundos escuros do gabinete, de forma não clara simplesmente para enganar.

P: É uma cidade carente de recursos. A gente compara com Manaus e já perde a corrida. A diferença de orçamento é grande, não é?

R: Exatamente, porque não tivemos governos que tivessem a visão de mudar pelo menos dois panoramas que são fundamentais. O primeiro é panorama social. Nós somos uma cidade pobre, estabelecida num pleno baixo de um alagadiço profundo, onde as obras de saneamento são caríssimas. Portanto, a população reclama disso. Segundo, nós tivemos péssimos administradores e as verbas de educação e saúde não foram vinculadas corretamente, tanto que não foram aplicadas corretamente. Porque é lá que estão aplicados todos os ganho da viuvez, da safadeza e da distribuição da verba pública. Ou seja, nós fomos enganados por estes últimos administradores. Todos saem ricos da prefeitura e a cidade não tem nada. Nós não temos uma escolha de toda uma visão de reorganização econômica dessa cidade. Somos uma cidade terciária. A Federação das Indústrias [Fiepa] faz o que? Agrega sindicato em seu enorme prédio. Quer dizer, a função da indústria é simplesmente alimentar um processo de sindicalismo burro que não leva a nada. Cadê a verticalização da indústria? Cadê a nossa energia? Nós mandamos uma única linha para Belém e mandamos duas agora para Manaus. Quer dizer, nós somos infelizes do ponto de vista vivente desta cidade, deste Estado. E somos mais infelizes ainda do ponto de vista de lidar com administrações que deveriam ser mais sérias. Colocaram no governo gente nova. Gente que eu conheço, gente que foi meu aluno, gente que trabalhou comigo. Mas os vícios são os mesmos: sempre alguém que vai indicar o que deve ser feito com o dedão de cima... Todo mundo sabe quem é, mas eu não vou dizer o nome. Os secretários não se sujeitam a estas coisas e preferem sair e não dizer a verdade: que é uma administração caduca, horrorosa, autoritária e que não é séria. Não é séria esta administração. Portanto, a cidade reclama disso. A cidade fica refém desta administração horrorosa que ela está sofrendo. E que não tem clareza. Como é que ela vai participar para que a gente possa reverter esse processo social, econômico e de comunicação?

P: Como é que você vê a questão da orla do Guamá? A forma que foi feita, como está e por que parou o projeto?

R: Eu vou te dar um caso muito simples. Em 1970, foi criada a Codem [Companhia de Desenvolvimento da Área Metropolitana de Belém]. Em 1972, ela fez um diagnóstico da área metropolitana. Em 1976, foi publicado o programa das baixadas Belém. Em 1978, foi publicado um projeto da estrutura básica da maior baixada de Belém, que era a baixada do Una. Em 1983, o governo Almir Gabriel fez a baixada do Una e foi um marco na história. A partir daí, passou-se a fazer projetos de ofícios. Hoje, qual é o projeto que tem para a Estrada Nova? Você conhece? Alguém conhece nessa cidade o projeto da Bacia da Estrada Nova? Mas que projeto é esse? São fazejamentos que estão seguindo em ordem de se fazer um ofício, ganhar recursos e se aplicar ou roubar a metade, como foi feito no governo passado, e que parece que tá sendo seguido na mesma linhagem. E nós, a população, não temos controle sobre estas obras porque nós não conhecemos os projetos.

P: Mas nós , a população, também somos muito ocupados. Não fazemos as cobranças e as denúncias. Você não acha?

R: Exatamente. Administração pública a gente vê a partir das verbas vinculadas. A maior carapaça que existe hoje nos governos do Brasil, sobretudo nos governos municipais, chama-se as verbas vinculadas à saúde. Quantos secretários o governo passado teve nos oito anos? Teve até uma arquiteta como secretária de Saúde, porque ela assinava onde mandavam assinar. Quantos secretários de Saúde nós tivemos em um ano nesta atual gestão? Por que essas pessoas saíram? Por que quando elas saíram não disseram: “Eu saí porque não concordo em assinar aonde querem que eu assine e eu não assinava”? Quer dizer, a culpa é do administrador, que está aí e pensa que está nos enganando. Senhor prefeito, o senhor não está enganando ninguém. Todo mundo está vendo. Todo mundo nessa cidade sabe. Todos os projetos de capital imobiliário estão parados. Parados por quê?

P: Porque os órgãos devidos não dão a licença?

R: E por quê não dão a licença? Não há normas?

P: Tem a legislação...

R: E falta o que, então? Falta seriedade. Falta abertura. Falta a comunicação entre o usuário, o prefeito e a prefeitura, órgão que dirige esta cidade e que é nosso! Nós fazemos parte dessa organização.

P: Há quanto tempo a gente ouve falar em prolongamento da João Paulo II? Prolongamento da Independência e vias que pudessem escoar todo o fluxo da Almirante Barroso...

R: Não tem nada porque nos últimos 20 anos é um fazejamento de ofícios. O último projeto que foi feito – que eu me lembro – foi no governo do Almir Gabriel e isso há vinte e tantos anos. Isso quando se projetou a avenida Independência, se projetou o prolongamento da João Paulo II. E esse projeto ficou aí.

P: Você falou em projeto de 20 anos. O BRT é dessa ordem. Ele estaria ultrapassado e não iria resolver os problemas?

R: Claro que não resolveria. O BRT é um ônibus duplo que vai correr numa faixa exclusiva. Bastava ele pintar uma faixa na via e ele funcionaria. Isto é uma idiotice! O governo passado roubou dessa cidade milhões e milhões com isso. Na Almirante Barroso, fizeram uma placa de concreto onde já tinha uma placa de concreto. Em nenhum lugar do mundo isso é necessário. Aqui foi necessário! Para quê? Para falsear, para roubar, para enganar a população. E nós, usuários desta cidade, temos que ter condições de olhar para quem faz este tipo de coisa e dizer o seguinte: “Companheiro, nós vamos lhe cobrar isso no futuro. Senhor Duciomar, a gente vai lhe cobrar o que você fez com esta cidade”. E o futuro dele está próximo. Ele vai ser candidato a alguma porcaria, porque esses caras não saem do sistema político.

P: E o que fazer?

R: Acho que nessas comemorações pelos 398 anos, que se tenha consciência de que é preciso mudar para que se chegue aos 400 anos da cidade de uma forma respeitável. Que nós cidadãos comuns desta cidade não sejamos enganados por meia dúzia de politicozinhos. Pera lá! Todos nós enxergamos esta cidade. Todos nós amamos esta cidade. Vivenciamos esta cidade mais que muitos políticos.

P: A gente não vê uma manifestação do Crea e de sindicatos de imobiliários...

R: Os estudantes, quando se manifestaram por algumas coisas, foi um bafafá neste país. Na verdade, eles saíram às ruas para reivindicar coisas básicas. Por que toda vez se eleva a passagens de ônibus com planilhas que ninguém sabe como elas são elaboradas? Não se aumentaram as passagens e o ônibus continuou circulando.

P: Não se fala mais disso porque todo mundo ficou com medo?

R: Estavam nos roubando. Toda vez que aumentar, nós devemos ir às ruas, sobretudo a juventude, e dizer para esses governantes safados: “Vocês são ladrões! Vocês estão nos roubando! Vocês não estão administrando em nosso nome”. Eu vou apoiar todos esses movimentos. O Brasil gastou milhões e milhões com a Copa. Vamos pelo menos ter a coragem, a clareza, a delicadeza de não roubar dentro da nossa cidadezinha, de uma administração pobre, de uma cidade pobre, de uma população que quer simplesmente sobreviver. Já chega de enganar a nossa população.

P: O que de bom tem nossa cidade?

R: Belém tem coisas incríveis. É uma cidade que tem cheiro, cor, que tem caráter, identidade. Temos uma gastronomia excelente. O Paulo Martins viajou à Europa para apresentar o Pato no Tucupi sem nenhum tostão de governo nenhum. Vamos dizer que esta gastronomia é nossa! Todos que vêm a Belém ressaltam isso.

(Diário do Pará)

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