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Renais crônicos ficam até dois anos sem exames

Podendo ser resolvido em, no máximo, três meses, os pacientes renais crônicos chegam a demorar dois anos para conseguir concluir os exames necessários para a realização de transplantes de rim no Hospital Ophir Loyola (HOL). Ainda que crítico, o problema a

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Podendo ser resolvido em, no máximo, três meses, os pacientes renais crônicos chegam a demorar dois anos para conseguir concluir os exames necessários para a realização de transplantes de rim no Hospital Ophir Loyola (HOL). Ainda que crítico, o problema apontado pela Associação dos Renais Crônicos e Transplantados do Pará é apenas um dos enfrentados pelos que dependem do sistema público de saúde para o tratamento renal. Responsável por acolher a maioria da demanda de todo o Estado do Pará, o HOL estaria enfrentando graves problemas estruturais desde o ano passado.

Ciente das dificuldades enfrentadas pelos pacientes no local, a presidente da Associação dos Renais Crônicos, Belina Soares, denuncia a demora excessiva para se conseguir realizar todos os exames necessários. “Fará 15 anos que já é realizado o transplante de rim e não vemos melhora nenhuma. No HOL, enfrentamos um problema com a quantidade de leitos, com a enfermaria interditada, com a falta de medicamentos e, com isso, o transplante não anda”, ressalta. “Hoje temos 950 pessoas inscritas para fazer o transplante de rim, mas só 120 estão aptas. Só 120 já conseguiram fazer todos os exames”.

Ainda de acordo com a presidente da associação, quando o paciente entra em diálise, a clínica tem 90 dias para inscrevê-lo na fila do transplante. Porém, para que ele esteja apto a fazer a cirurgia, precisa fazer mais de 40 exames. Aí estaria a maior dificuldade dos pacientes, hoje, no HOL. “As pessoas acabam demorando até dois anos para conseguir fazer todos esses exames porque o Ophir Loyola e a Sespa (Secretaria de Estado de Saúde Pública) não tomam isso como uma prioridade na saúde. Ainda tem o agravante de praticamente todos os municípios dependerem do Ophir para fazer esses exames porque a dificuldade de acesso ao Hospital Regional de Redenção [único hospital que também realiza transplante de rim além do HOL] é grande para os pacientes”, acredita Belina. “No máximo em três meses essas pessoas poderiam estar com esses exames todos prontos”.

Responsável, juntamente com a Auditoria do SUS Estadual (Denasus) e com os Conselhos Regionais de Enfermagem e Farmácia, por um relatório recente que apontava esses e outros problemas no hospital de referência, o Conselho Estadual de Saúde (CES), em publicação no último dia 30 de dezembro de 2013 no Diário Oficial do Estado, convocou a presidência do Hospital Ophir Loyola para explicar sobre a política interna de atendimento no próximo dia 28 de janeiro, em reunião ordinária.

De acordo com o presidente do CES, José Ribamar Santos de Assis, a vistoria que resultou no relatório foi realizada ainda em setembro do ano passado. “Durante a visita, foi detectada a precariedade do prédio e problemas no fornecimento de medicamentos importantes, mas, de lá para cá, já fizeram melhorias no espaço e no conforto dos pacientes lá. Melhorou a acomodação dos pacientes, mas há uma série de deficiências ainda”, afirma. “Existe uma demanda reprimida que procura o Ophir e acaba sobrecarregando. O pré-operatório tem sido uma das maiores causas de demora. Não há celeridade e então o sistema fica estrangulado”.

Sem que o problema fique restrito ao HOL, o presidente do conselho ainda reforça a necessidade de maior eficiência da atenção básica para que os pacientes não tenham os quadros agravados. “Quando a pessoa chega a fazer uma cirurgia, já está em um estado crítico. O nó crítico do sistema de saúde está na prevenção, na atenção básica”, acredita. “De qualquer maneira, vamos monitorar a implementação das melhorias e a regularização da aquisição dos medicamentos no HOL”.

Idoso morreu à espera de tratamento

O idoso Manoel João Rodrigues, 82, foi mais uma vítima da falta de políticas públicas que garantam o acesso à Saúde no Pará. Há quatro anos diagnosticado com câncer de boca, ele iniciou o tratamento no Hospital Ophir Loyola, onde nos últimos meses não foi tratado com dignidade, segundo a família dele.

Com lágrimas nos olhos a filha, Lindalva Rodrigues, lembra que passou a virada de ano no hospital, ao lado do pai, que recebeu alta logo nas primeiras horas do ano. “Mandaram ele para casa, onde não temos condições de dar todos os medicamentos que ele precisava e nem recursos para mantê-lo aqui”, desabafa. Delibitado e já sem poder andar, o idoso morreu na madrugada do dia 9, enquanto esperava por leito e tratamento.Para a filha, o pai foi vítima de negligência do hospital que praticamente o recusou e o deixou para falecer em casa. “Ele tem cadastro, era paciente do HOL, mas toda vez que passava mal e o levávamos para lá era uma luta para conseguir com que ele fosse atendido”, ressalta Lindalva.

Ela explica que o pai tinha um documento de identificação do hospital intitulado Carteira Branca, que lhe foi dado para identificá-lo como paciente da unidade. Porém, em um acidente doméstico todos os documentos de seu Manoel foram queimados e o hospital cobrava tais documentos para fazer o atendimento. “Não tinha como fazer se ainda não tínhamos conseguido tirar os documentos dele. O hospital não dava uma segunda via!”, exclama.

Na última segunda-feira, 6, o caso do idoso foi divulgado com exclusividade pela RBATV. Seu Manoel estava deitado na cama sem poder se mexer. O corpo apresentava ferimentos devido aos meses que passou deitado. Ele respirava com o auxílio de aparelhos.

Na noite da última quinta-feira, 9, quando o corpo chegou à casa para ser velado, a expressão dos familiares era de dor e revolta. Lindalva acredita que, se o pai tivesse tido atendimento adequado, poderia viver e não teria morrido em situação lastimável. “O Ophir Loyola só o atendia quando a gente ameaçava levar a imprensa lá. Daí mandavam a gente entrar e ele ficava no corredor. Lá dentro era uma nova briga para ele ser atendido”, lembra.

No dia em que a matéria foi ao ar, o HOL respondeu, em nota, que o paciente tinha uma consulta agendada para o dia 16 e que a família deveria procurar a assistência social para atualizar o cadastro. Nada foi comentado sobre uma possível internação e tratamento de seu Manoel.

Atendimento de urgência é um problema

Com a perspectiva de que 40% dos atendimentos de urgência e emergência sejam do serviço de nefrologia, a situação enfrentada pelos pacientes renais crônicos também é caótica nos dois hospitais de pronto-socorro da capital paraense.

Os problemas teriam origem na ausência de funcionamento das máquinas de hemodiálise existentes no Hospital de Pronto-Socorro Municipal Mário Pinotti, na travessa 14 de Março.

Presidente da Associação dos Renais Crônicos e Transplantados do Pará, Belina Soares é enfática ao apontar que a maior demanda dos renais crônicos está na urgência e emergência. “A maior demanda é nos PSMs. Não há atendimento lá, o paciente não consegue transferência para os hospitais de referência e a situação que a gente vê é bastante crítica”, anuncia.

“Tem seis máquinas que estão lá paradas desde 2008. O município ganhou essas máquinas e até hoje elas não foram instaladas, não estão em funcionamento”.

(Diário do Pará)

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