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Entroncamento: às pressas e inacabado

A obra que a Prefeitura de Belém inaugura nesse domingo, na área do Entroncamento, nada tem a ver com o BRT, o chamado ônibus de trânsito rápido, que na prática sequer ainda existe. A não ser, como é sabido por todos os moradores da cidade, as inúmeras ir

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A obra que a Prefeitura de Belém inaugura nesse domingo, na área do Entroncamento, nada tem a ver com o BRT, o chamado ônibus de trânsito rápido, que na prática sequer ainda existe. A não ser, como é sabido por todos os moradores da cidade, as inúmeras irregularidades e fraudes no projeto que acabaram denunciadas pelos Ministérios Público Federal e Estadual e cujas ações tramitam no Judiciário. O que está construído no Entroncamento são três viadutos tardios que há muito deveriam ter sido erguidos para desafogar o caótico trânsito diário naquele local.

O que se vê hoje ali, na entrada e saída da cidade, na verdade deveria envergonhar qualquer administrador público que se pretenda sintonizado com as aspirações de seu povo. Quem não lembra, por exemplo, dos quase cinco meses consumidos apenas para remover do trajeto de um dos viadutos uma antiga adutora da Cosanpa, construída na época em que a Almirante Barroso era a avenida Tito Franco?

No teatro político de má qualidade encenado pelo ex-prefeito Duciomar Costa, velho aliado do mesmo PSDB do atual prefeito Zenaldo Coutinho, a obra dos viadutos arrastou-se sofregamente por quase dois anos, prazo contido no próprio projeto para a inauguração do BRT no trecho entre Icoaraci e São Brás. Na pressa da inauguração, porém, quem passa pela área vê que ainda faltam arremates, inclusive nas laterais das pistas. Embaixo do concreto, restos da obra e materiais de pouca utilidade que não tiveram tempo de ser removidos.

A especialista e pesquisadora em trânsito da Universidade Federal do Pará (UFPA), Patrícia Bittencourt Neves, acredita que a “implantação” do BRT, que abre foguetório hoje apenas sobre o Entroncamento, já começou falhando. Ela ressalta o que quase todo belenense já sabe e a prefeitura finge não saber: é necessário que o sistema todo funcione de fato com eficiência na cidade.

“Nós falhamos em Belém na implantação do BRT. E chegamos aqui basicamente devido à falta de planejamento, de investimento no setor”, ressalta a professora do curso de Engenharia Civil da UFPA. “Praticamente, o último investimento pesado que tivemos no setor foi na época dos bondes. Nós tiramos os bondes e vieram os primeiros ônibus que faziam o trajeto dos bondes, aí o que aconteceu?”, questiona.

E o dia seguinte?

O atraso de pelo menos 20 anos de uma obra evidentemente necessária para a mobilidade urbana da única grande capital do país que só possui uma entrada e saída – pela BR-316 - deveria, junto com os fogos da comemoração, trazer também um pedido de desculpas aos moradores da cidade. “Eu espero que o sufoco aqui no Entroncamento e na Almirante Barroso acabe de uma vez, porque ninguém aguenta mais”, afirma o motorista Cleidson Bastos Oliveira.

Como a maioria dos que trafegam diariamente pela avenida de entrada e saída da cidade desde o começo de 2012, quando a obra do BRT começou, Oliveira faz o trajeto da Cidade Nova (Ananindeua) até o centro de Belém em cerca de duas horas. Ele, porém, quer saber o que vai acontecer quando seu veículo descer de um dos viadutos pela Almirante Barroso.

Ele, como outros motoristas, terão que ingressar no mesmo funil de tráfego de todos os dias, porque as pistas preparadas para o BRT, que deveriam ser inauguradas junto com os viadutos - como havia antecipado o prefeito Zenaldo Coutinho –, somente estarão prontas se estiverem, no fim deste mês, de acordo com nova promessa do tucano. A realidade é que nem o prefeito nem a Superintendência de Mobilidade Urbana de Belém (Semob) podem garantir que os colossais engarrafamentos deixarão de existir nas próximas semanas.

É previsível até, diante da bagunça institucionalizada que é o trânsito da cidade, sem orientação ou fiscalização da própria Semob e do Detran – agora liberado pelo governador Simão Jatene para dar força à gestão compartilhada do governo tucano -, que na segunda-feira pela manhã, dia 13, se vejam engarrafamentos de veículos na subida e descida dos viadutos. Isto, evidentemente, é o que ninguém deseja, daí o desafio aos agentes de trânsito para que não permitam que isso aconteça. Seria carimbar o caos com a marca da própria incompetência. O melhor é torcer e rezar para que tudo dê certo. Afinal, ninguém merece prolongar tanto sofrimento urbano.

A Semob, aliás, há três dias vêm distribuindo panfletos com orientações aos motoristas sobre a melhor maneira de acessar os viadutos. Se os guardas postados em locais estratégicos onde há risco de engarrafamento souberem agir, tudo correrá bem e ninguém terá o que reclamar.

No ar, fica apenas uma inquietante pergunta: se as pistas do BRT ainda estarão fechadas ao tráfego dos ônibus das chamadas linhas expressas – aquelas que procedem da BR-316, de Icoaraci e bairros da rodovia Augusto Montenegro -, e somente serão liberadas - se forem - no fim do mês, por que então não se aguardou mais um pouco para liberar os viadutos e as pistas de uma só vez? Responda quem souber. Ou puder.

(Diário do Pará)

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