Se quem passa todos os dias pelo Entroncamento de ônibus, automóvel, motocicleta ou bicicleta fosse seguir a propaganda da prefeitura de Belém sobre o BRT, pintando o melhor dos mundos possíveis, estaria diante dos nossos olhos -como aquele descrito sarcasticamente pelo filósofo Voltaire, sob o olhar obsequioso do personagem Cândido (no conto “Cândido, ou o otimismo”, de 1759) - e não haveria nenhum motivo para reclamações. Fora da maquiagem televisiva, porém, o que acontece naquela área, e ao longo da própria avenida Almirante Barroso, está mais próximo do inferno retratado na obra “Divina Comédia”, do poeta Italiano Dante Alighieri. Na busca para sair do inferno, alcançar o purgatório e chegar ao paraíso descrito pelo poeta, as almas belenenses precisam sofrer tormentos, privações e ainda agir com a paciência de monge tibetano.
A desinformação é marca do projeto da obra do BRT e os engarrafamentos antes, dentro e fora dos viadutos inaugurados no dia 12 pelo prefeito Zenaldo Coutinho. O mundo cor de rosa do marketing oficial e da planta dos engenheiros que projetaram o BRT e os elevados, nem de longe é o mesmo mundo de quem precisa diariamente ir para o trabalho, escola ou outros afazeres cotidianos.
FALÁCIAS
O prefeito, inicialmente, prometeu que os viadutos seriam inaugurados no dia 12, para coincidir com os 398 anos de Belém. No mesmo dia, as pistas do BRT também seriam liberadas, para que nelas trafegassem as chamadas linhas expressas – ônibus procedentes da BR-316, Ananindeua, bairros da região, além de Icoaraci e dos superpovoados bairros localizados às margens da rodovia Augusto Montenegro.
Abertos os viadutos e as pistas do BRT, o trânsito iria fluir com tranquilidade no percurso de seis quilômetros até São Brás. Zenaldo nem precisava desenhar o que dizia. A promessa, ainda que insegura, era impulsionada pelo discurso triunfalista típico de um alcaide de primeira viagem. Os engarrafamentos colossais e esquizofrênicos tinham dia e hora para que, se não acabassem, pelo menos fossem minimizados, com amplo sucesso.
A falácia marqueteira do prefeito era uma, mas as realidades do tempo escasso e das obras atrasadas, outras. Ainda assim, a propaganda oficial dissimula a falta de transparência e segue sem dar satisfações à população.
À medida em que o aniversário da cidade foi se aproximando e o prefeito percebeu que as promessas de entregar os viadutos e as pistas liberadas do BRT não poderiam ser cumpridas, o discurso mudou rapidamente. Os viadutos seriam liberados, corrigiu a si mesmo Zenaldo Coutinho, mas as pistas do BRT seriam entregues só no final deste mês.
Já há quem duvide que isso possa ocorrer, apesar do corre-corre da empresa responsável pela obra. O discurso da obra completa, sem mais transtornos para a população – que é o que, na verdade, todo mundo deseja – desmoronou com as chuvas agressivas e prolongadas que caíram na manhã do domingo passado.
Já na segunda-feira, os engarrafamentos tomaram conta do Entroncamento e de toda a Almirante Barroso, como de hábito.
Pedestres e ciclistas são ignorados Da segunda, 12, em diante, além dos problemas corriqueiros – guardas de trânsito perdidos, gesticulando nervosamente para motoristas que vão do nada para lugar nenhum -, veio à tona o que a população já tinha percebido, menos a prefeitura: não há espaços, na área do Entroncamento, para pedestres e ciclistas. Os viadutos foram projetados apenas para veículos, numa verdadeira conspiração arquitetônica contra quem utiliza duas pernas ou duas rodas para se locomover de um lado para outro. Sem passarelas e ciclovias, o local torna-se perigosíssimo para pedestres e ciclistas, que arriscam suas vidas diante da indiferença dos guardas de trânsito e dos planejadores da obra. Segundo a Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (SeMOB), no caso dos ciclistas, o ponto de interseção principal fica na ponta da ciclofaixa da Almirante Barroso com a Tavares Bastos, quando se tem duas opções de rota. Para seguir até a BR-316, o acesso é pela pista lateral à direta da Almirante Barroso, que segue em sentido reto até a rodovia. Se o objetivo for acessar a Augusto Montenegro, o caminho é seguir pela avenida Tavares Bastos, entrar na Pedro Álvares Cabral à direita até a esquina da avenida Dalva, quando é preciso trocar de faixa para o outro lado da Pedro Álvares Cabral antes de acessar a Augusto Montenegro. Caso o foco seja a Almirante Barroso, antes de chegar na entrada do Entroncamento é preciso acessar a lateral esquerda da BR-316 e seguir até a esquina da Tavares Bastos, onde é possível acessar a ciclofaixa central da Almirante Barroso. Essa explicação da SeMOB desinforma mais que orienta o ciclista, porque não há demarcação de ciclofaixas em nenhum dos locais indicados, principalmente na Almirante Barroso. “A demarcação está prejudicada pela chuva nas últimas semanas, visto que a pintura só pode ser feita de madrugada, para não prejudicar o trânsito, e com a pista seca”, alega a SeMOB. O ciclista, como se vê, terá de dar seu jeito para não ser atropelado. Perigo segue sem previsão para passarelas Para os pedestres, a situação ficou ainda pior do que antes da abertura dos viadutos. Os pontos de travessia foram deslocados para “zonas mais seguras, também longe do fluxo de veículos”, segundo a SeMOB. Com o intenso tráfego de quem vai da BR-316 rumo à Augusto Montenegro, onde há uma curva e, agora, a saída de um dos elevados, a travessia habitual próximo à esquina foi proibida e os pedestres deslocados à esquina da Augusto Montenegro com a Rua Péricles Guedes. Quem estava acostumado a fazer a travessia em frente ao conjunto Costa e Silva, agora terá de fazer isso em frente dos Correios. Na BR-316, o ponto de travessia continua sendo o pórtico de entrada da cidade, onde há uma passarela, e na Pedro Álvares Cabral também se mantém na esquina da avenida Dalva, onde há um semáforo. Para os pedestres aflitos com tantas dificuldades, a prefeitura acena com uma nova promessas, a ser cumprida não se sabe quando: duas passarelas estão previstas, na Augusto Montenegro e na Pedro Álvares Cabral, “mas ambas serão localizadas nos pontos atuais de previsão de travessia”. Ao pedestre, enquanto as passarelas não surgem, resta criar coragem e fazer a travessia. Naturalmente olhando para todos os lados e, também, para o alto, pedindo a Deus para chegar são e salvo ao destino. (Diário do Pará) |
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