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Vestibular reúne histórias de superação

Diante do fato de que o sistema de Ensino Superior no Brasil oferece, desde sempre, um número de vagas insuficiente e que não atende a demanda anual, passar no vestibular é, por si só, naturalmente difícil. Exige sacrifícios, reforço nos estudos e outras

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Diante do fato de que o sistema de Ensino Superior no Brasil oferece, desde sempre, um número de vagas insuficiente e que não atende a demanda anual, passar no vestibular é, por si só, naturalmente difícil. Exige sacrifícios, reforço nos estudos e outras abdicações, tudo em prol do merecimento do ingresso na universidade. Quando somado a isso há restrições físicas, como deficiências e outros impedimentos, o nível de dificuldade ganha uma amplitude maior, de modo que muitos desistem no meio do caminho, ou nem mesmo tentam. Mas há também quem tope o desafio e drible os percalços para chegar lá, mostrando que querer pode, sim, significar poder.

O ano de 2013 nem de longe foi tranquilo para a estudante Talita Mendonça, de 17 anos. Portadora de uma condição chamada osteogênese imperfeita, popularmente chamada de “osso de vidro”, ela só passou dois meses frequentando a escola normalmente no ano passado. Ao realizar um alongamento dos ossos das pernas, por recomendação médica, acabou sofrendo várias fraturas no membro inferior esquerdo.

“Uma dessas fraturas foi tão grave que, em março, ela ficou na sala de cirurgia entre sete da noite e três da manhã, e quando saiu, foi direto para a UTI. Achei que fosse perder a minha filha”, lembra Vera do Nascimento, mãe da jovem, que não desistiu dos estudos mesmo com todas as dificuldades.

O sacrifício trouxe não uma, mas três recompensas: a aprovação em Arquitetura na Universidade da Amazônia (Unama) e na Universidade Federal do Pará (UFPA), e ainda em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

“A sensação é de alívio”, relata Talita. “No início eu até pensei em desistir, chamei minha mãe e disse que não tentaria esse ano, mas depois mudei de ideia, porque eu gosto muito de estudar”, conta a jovem. “Na verdade, a Talita, pelo problema nos ossos, nunca foi de brincar na rua. Ela sempre ficou mais em casa, e acabou criando o apego pelos livros. Eu não poderia estar mais orgulhosa, a minha filha é uma vencedora”, derrete-se Vera.

Em meio à felicidade das aprovações - que ela garante que foram celebradas uma a uma, com festa e tudo, em especial pela UFPA -, a caloura lembra das dificuldades que teve em fazer praticamente tudo sozinha. “Os professores da escola onde estudo mandavam as avaliações para que eu fizesse em casa e só. Não vieram ajudar. E fiquei sabendo agora que querem colocar minha foto para fazer propaganda, porque só eu e outros três alunos passaram”, avisa.

A escolha de Talita já foi feita, ela vai cursar Arquitetura na UFPA, mas essa não é a escolha final da estudante, que quer mesmo é cursar Medicina. “Não fiz esse ano porque sabia que para isso eu não estava preparada, é um curso muito concorrido e que exige muito mais dedicação do que eu tive esse ano. Mas minha recuperação termina esse ano e eu vou tentar Medicina, sim”, garante.

Deficiente visual quebra tabu

O professor de Química Luiz Carlos de Oliveira integrou a equipe que acompanhou a jovem Regiane Abadessa, de 25 anos, a se tornar a primeira caloura deficiente visual da UFPA oriunda da Ilha de Mosqueiro, distrito de Belém.

A estudante, que foi aprovada no curso de Serviço Social, tem a visão tomada por completo pela deficiência e recebeu atendimento especial durante o ano para conseguir apreender todo o conteúdo programático exigido pela Federal. Além de não enxergar, a caloura também sofre de problemas de locomoção, o que significa que ela precisa estar sempre com alguém para poder andar de um local para o outro.

“Em sala de aula, ou ela era acompanhada por alguém designado pela coordenação para auxiliá-la ou os próprios professores, depois de explicarem o conteúdo para a turma, iam até a Regiane para explicar mais uma vez, individualmente”, conta o educador.

“Estamos todos muito felizes e orgulhosos dela, que deixa uma mensagem muito forte de superação, de que é possível conseguir o que se quer quando realmente se quer”.

(Diário do Pará)

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