São 10h da manhã na avenida João Paulo II, bairro do Marco. Encostado no ferro de sustentação da parada de ônibus está o aposentado Raimundo Bichara, 72 anos. Raimundo olha para a rua, tomada por carros, motos, barulhos de motores e buzinas, aquela hora da manhã e lembra de outros tempos, quando o cenário era bem diferente. Aquela rua, particularmente, há alguns anos, não tinha o movimento de veículos que possui hoje. “Eu passava por aqui para ir ao trabalho. Demorava meia hora para sair de casa, na Guanabara, para chegar ao emprego, em uma empresa que fabricava móveis, no Guamá. Hoje, demoro meia hora só aqui. Pro centro, é mais de uma hora, com certeza”, calcula, enquanto observa o movimento.
À tarde, a reportagem do Diário percorreu algumas dessas vias como as avenidas José Malcher, Conselheiro Furtado, José Bonifácio e Antônio Barreto. Em todas, o cenário era o mesmo: engarrafamentos, buzinaços e muita paciência para motoristas, ciclistas, passageiros de ônibus e pedestres. Há algumas quadras de onde estava seu Raimundo, na Duque de Caxias, a sensação de quem passa naquele local é a mesma. Outrora uma rua até movimentada, hoje se tornou uma via completamente engarrafada. E a qualquer hora do dia. Um martírio para pedestres e ciclistas, já que não existe uma faixa exclusiva para ciclistas e a faixa de pedestres é um convite ao risco de ser atropelado. “É uma sensação ruim cruzar essa rua. Temos que encarar ônibus e carro com a bicicleta, não tem jeito”, Reclama Carlos Cruz, pedreiro, enquanto continua sua jornada, apressada, sobre duas rodas.
PLANEJAMENTO
Para a professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) e especialista em Transporte Público, Patrícia Bittencourt, há vários fatores que interferem nessa mudança. A primeira, claro, é o crescimento no número de veículos. “O principal motivo é o crescimento da frota. Hoje 50% da população, segundo pesquisas no país e o Pará incluído, possuem carros e motos. E há um crescimento maior no número de motos”, afirma.
E os números comprovam isso. Segundo o site do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a frota de veículos do Pará, saltou de 394 mil veículos, até novembro de 2003, para 1.386.055 em novembro de 2013. Ou seja, a frota praticamente triplicou em dez anos. Principalmente entre os carros, que eram 184 mil naquele ano e agora são 304 mil. Como capital, Belém absorve boa parte desse quantitativo. Há dez anos, havia 112 mil automóveis e 13 mil motos circulando na cidade. Agora, são cerca de 250 mil veículos e o impressionante número de 376 mil motos.
Patrícia cita outra causa importante para essa mudança no fluxo de trânsito em algumas vias, que antes se restringia aos chamados horários de pico (geralmente, no início da manhã, horário de almoço e final da tarde). “O padrão de mobilidade mudou. Antes, por exemplo, o Centro Comercial fechava. Hoje não. E há uma maior intensidade na oferta de comércios e serviços”, exemplifica.
Ou seja, a circulação de pessoas e veículos em determinados locais aumentou pelo excesso de demandas. “Antes, na minha época, a gente vinha da escola ou trabalho para casa. Hoje, as pessoas têm academia, cursos... Além disso, temos mais opções de cultura e lazer”, complementa.
E como esta é uma tendência mundial, muitos países já adotam medidas e planejamentos para trabalhar no chamado “não transporte”. “As cidades não suportam mais o excesso de veículos individuais. É um custo alto do ponto de vista ambiental e de saúde”, alerta a pesquisadora.
Patrícia diz que oferecer um transporte público de qualidade, por exemplo, é fazer um planejamento de transporte integrado com o planejamento urbano. “Temos que pensar a cidade também em termos de proximidade. Oferecer escolas de qualidade próximas de casa. Criar sub centros nos bairros, para oferecer serviços locais como hospitais, espaços de lazer. Hoje temos uma concentração de atividades, em Belém, nos bairros centrais”, diz.
Essa concentração que define, por consequência, o itinerário dos ônibus. “A nossa rede de transporte urbano está defasada. Cerca de 90% das linhas de ônibus vão para o Ver-o-Peso ou a Presidente Vargas. Por isso, o BRT precisa ser pensando como uma obra de longo prazo, que pode dar mais agilidade e conforto aos belenenses. Infelizmente, não sei se isso será possível. Há uma falta de ordenação no trânsito. Ônibus e ciclistas com faixas exclusivas, por exemplo”. Mas, existem sim condições de mudar esse quadro, segundo a professora. “A Lei de mobilidade urbana, de 2012, trouxe políticas e ações para pedestres e ciclistas, que são os não-motorizados”, garante. “Esse arcabouço jurídico deu amparo legal para gestores fazerem projetos de mobilidade com respaldo judicial, com segurança”, completa.
(Diário do Pará)
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