Quanto o sistema de BRT (Bus Rapid Transit) tem custado aos moradores da Região Metropolitana de Belém além do estresse, engarrafamento e outros problemas que as obras colocaram na vida da população desde que começaram em 2012? O valor do investimento vem sendo alvo de muitas críticas de especialistas.
No último dia 12 de janeiro, o Diário publicou uma entrevista com o professor, arquiteto e urbanista Paulo Cal, onde ele diz que o BRT do Rio de Janeiro foi mais barato que o de Belém. Outra especialista em trânsito, a professora Patrícia Neves, conta que, em uma comparação das cidades, o quilômetro do BRT de Belém é muito mais caro que o de Curitiba, por exemplo.
A reportagem do Diário resolveu fazer a comparação, procurando população, extensão do BRT (em km) e preço do quilômetro. Os resultados foram, no mínimo, inusitados. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Recife, capital do Pernambuco, está girando em torno de 1 milhão e 500 mil habitantes. O projeto do BRT de Recife faz parte das obras de infraestrutura de mobilidade urbana para a Copa do Mundo deste ano. A obra tem 51,4 quilômetros e custou, no total, R$ 219,6 milhões. As duas etapas do projeto estão descritas em diversos relatórios oficiais. Um quilômetro do BRT de Recife, portanto, custou em torno de R$ 4,2 milhões.
Belém tem 1.393 milhão de habitantes, segundo o IBGE. O ex-prefeito Duciomar Costa solicitou R$ 100 milhões do Orçamento Geral da União para a obra. O empréstimo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) feito pela gestão atual para o BRT é de R$ 314 milhões. De contrapartida da Prefeitura, são R$ 82,8 milhões. No total, o BRT de Belém sai, por enquanto, por R$496,8 milhões.
Tirando o gasto que trouxe para os cofres públicos (dez meses de obras paradas custaram R$ 10 milhões), o BRT já está nos custando mais que o dobro do BRT de Recife. O corredor de Belém, por sua vez, é menor: terá 46 km, incluindo as obras previstas para o centro da cidade e do distrito de Icoaraci, que ainda não foram sequer iniciadas. O quilômetro do BRT de Belém sairá, portanto, por R$ 10,8 milhões, por enquanto.
O valor do BRT de Belém e a própria licitação do projeto durante a gestão de Duciomar Costa já é alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de autoria da vereadora Sandra Batista na Câmara Municipal de Belém. O valor do BRT em si é questionável para a vereadora: “Acho caro para poucas intervenções, até por que não acredito que vão conseguir expandir o BRT além disso que está planejado. Se fosse para mexer mesmo com a mobilidade, acho que deveria ser um investimento pesado como o metrô de superfície, mas não sei se Belém teria essa capacidade de endividamento”.
A especialista e professora de Engenharia Civil da Universidade Federal do Pará (UFPA) Patrícia Neves acredita que uma opção viável para Belém seria o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT). “Não tenho como dizer se o BRT é suficiente para o trânsito da Região Metropolitana, mas tenho minhas dúvidas”, esclarece.
A Associação Nacional de Empresas de Transporte Urbano (NTU), monitora todos os anos os BRTs do país através de um relatório técnico.
FALTA INFORMAÇÃO
O mais recente foi publicado em outubro de 2013 e o BRT de Belém ainda não estava incluso. Na verdade, o BRT de Belém aparece poucas vezes em relatórios e sites que monitoram o sistema no país.
“Acontece que é dado a entender que o processo é transparente, mas não há prestação de contas. A CMB sequer é escutada, falta informação. O projeto do BRT não está claro na cabeça da população”, explica Sandra Batista.
Já Patrícia Neves acredita que a reconstrução da imagem do BRT é mais um dos desafios a serem encarados: “Um dos grandes desafios do prefeito é fazer os ajustes do que já havia sido implantado de forma errada e o obstáculo muito maior de construir uma imagem boa do BRT, pois no imaginário da população ele não funciona”.
Quanto aos projetos das cidades de Curitiba e Rio de Janeiro, é preciso observar as dimensões. De acordo com o último relatório da NTU, a capital carioca possui mais de 6,3 milhões de habitantes, o projeto total do BRT tem 153 quilômetros e o custo é de R$ 2,3 bilhões.
Já Curitiba é pioneira na implantação do sistema de BRT no Brasil. O censo do IBGE estima 1,7 milhão de habitantes só na capital paranaense. O primeiro projeto de BRT começou a ser implantado no início da década de 70 e hoje atende 2 milhões de passageiros, tendo 1.980 ônibus divididos em 396 linhas, segundo o relatório da NTU. A eficiência do projeto em Curitiba levou a uma extensão para a Copa do Mundo, já concluída em 2013. Essa última etapa teve apenas 3 km de extensão e custou R$ 18,8 milhões.
(Diário do Pará)
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