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Rolezinhos, jogos de mídia e visibilidade social

Belém teve há uma semana o primeiro “rolezinho” da capital, seguindo a moda que tomou conta de outras cidades, como São Paulo. Muitas lojas fecharam as portas enquanto os jovens circulavam pelos corredores de um shopping da avenida Doca de Souza Franco, s

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Belém teve há uma semana o primeiro “rolezinho” da capital, seguindo a moda que tomou conta de outras cidades, como São Paulo. Muitas lojas fecharam as portas enquanto os jovens circulavam pelos corredores de um shopping da avenida Doca de Souza Franco, sem apresentar indícios de violência. Entretanto, outras metrópoles já tiveram problemas com os atos marcados pelas redes sociais como o Facebook. Para debater o fenômeno polêmico, o DIÁRIO ouviu a jornalista e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) Rosaly Brito, que atualmente escreve tese de doutorado abordando o universo jovem. Em entrevista cedida aos repórteres Ismael Machado e Iaci Gomes, ela comentou a replicação dos rolezinhos pelo Brasil e também suas relações com os protestos de junho do ano passado. Confira:

P: Após as jornadas de junho no ano passado, agora temos os “rolezinhos” nos shoppings. Para uns é uma manifestação legítima e para outros, uma invasão de espaços privados com toques de violência. Como você vê esse movimento?

R: Há vários aspectos. Esse fenômeno que explodiu em São Paulo pode suscitar vários tipos de questionamentos. O primeiro e mais elementar é justamente a questão da segregação dos espaços nas grandes metrópoles, o que não é propriamente um fenômeno novo, porque as metrópoles que se constituíram nesse processo no início da industrialização foram desde sempre segregadas espacialmente. Desde que as cidades se tornaram metrópoles, elas passaram a ter essa segregação de espaços. Quer dizer, nem todos, apesar de supostamente o espaço ser de todos, poderiam circular tão à vontade. Há desde aí uma demarcação. Esse trânsito não é tão livre como faz crer o próprio princípio da livre circulação, que é um princípio do ideário liberal: a ideia de que todos podem circular livremente por todos os espaços. Essa segregação espacial é uma metáfora da distância social que existe. Ou seja, há diferentes territórios sociais e simbólicos nas cidades. Voltando à questão do rolezinho, ele é uma expressão máxima dessa segregação no seguinte sentido: os shoppings centers são espaços privados e verdadeiros templos de consumo. E alguns são catedrais das mercadorias frequentadas especialmente pela classe média e elites. Sabemos que há shoppings populares em toda cidade, como em Belém, por exemplo. Mas a verdade é que se você considerar os shoppings das regiões centrais das cidades, eles não são lugares de trânsito livre para os jovens da periferia com certas características, em especial a cor da pele, a forma de se vestir, de se apresentar. Então a transposição da soleira do shopping acaba se transformando num escândalo, e a classe média e os frequentadores se veem escandalizados com a mera presença dos jovens. É interessante notar que a proposta dos rolezinhos não é de violência, inicialmente. É uma proposta de ocupar esse lugar, esse espaço que é até certo ponto interditado. Não é interditado do ponto de vista da regra escrita, mas do ponto de vista da regra social. Para pessoas frequentadoras de um shopping mais elitizado, é um choque de repente se defrontar com outras pessoas, com características diferentes, por que existem os marcadores sociais.

P: E existe também algo em relação ao comportamento adequado a um local?

R: Tem a questão do comportamento, sem dúvida, e certas formas de se comportar desses jovens são mesmo provocativas. Elas são mesmo para provocar uma reação no sentido deles serem percebidos. Acho que a questão dos rolezinhos fala muito a respeito dessa necessidade de se tornar visível socialmente. Por que esses segmentos de jovens, a juventude que está nas periferias das grandes cidades brasileiras, está invisível na cena urbana, exceto pela sua identificação em geral como uma ameaça. O cenário das metrópoles é de extrema violência. Isso é inegável. Nós estamos vivendo uma situação de completo descontrole na questão da violência urbana, e isso afeta a todos, inclusive os que moram na periferia. Mas é verdade que a classe média, que está na região mais central da cidade, se fecha nos seus prédios, nos seus condomínios e se protege nos seus carros peliculados como pode. Não estou negando a questão da falta de controle da violência urbana. Mas ela não é causa de nada. É um sintoma social exatamente desse processo de segregação e exclusão social que assumiu índices alarmantes no Brasil. O Brasil é um país que, a despeito de todas as políticas de inclusão que vêm sendo implementadas há mais de uma década, tem uma sociedade profundamente excludente e racista. As próprias políticas sociais são vistas de forma preconceituosa. Então, a despeito da ideia da democracia racial, que é uma ideia também antiga no Brasil, e a despeito da própria questão do racismo ter se tornado um crime, a gente sabe que a prática social no dia a dia das grandes cidades, a maneira de se relacionar como o outro sendo ele negro, a mudança da cor da pele, interfere profundamente nessa forma como se vê o outro. Há uma intolerância muito grande na sociedade brasileira em relação a esse outro e a cor da pele tem muito a ver com isso, mas isso por que em geral esses fatores vêm combinados: a pobreza com a cor da pele no Brasil, uma sociedade muito miscigenada. E acontece um fenômeno que eu acho que é um dos mais gritantes e mais perversos na sociedade brasileira, que é a questão da chamada criminalização da pobreza. Eu acho que essa reação nesse tom estridente que se deu em relação aos rolezinhos tem a ver exatamente com isso, com a ideia de que o fato do cara ser pobre, morar na periferia e ser negro como um “agravante”, está associado a ideia do crime. Em 2012 foi lançado um programa chamado Juventude Viva, justamente para combater a morte de pessoas jovens e negras. Por ocasião do lançamento desse programa em 2012, foi lançado o último mapa da violência no Brasil, que monitora as mortes por causas violentas, em especial homicídios que acontecem em todo país. Esse último mapa que pega um curtíssimo espaço de oito anos (2002 a 2010) mostra que em 2010 morreram no Brasil três vezes mais jovens negros do que brancos. Esse aumento descontrolado da violência urbana e isso tudo faz com que se viva hoje uma situação de pânico social e de intolerância que mais se agrava em relação ao outro que é o diferente, que é o pobre, é o negro, é o gay. Isso agrava a questão da segregação.

P: E as redes sociais?

R: Na verdade tem gente que considera os rolezinhos repiques das jornadas de junho. Acho que são coisas distintas, mas é possível encontrar pontos em comum. De um modo geral, quando aconteceram as jornadas de junho, a mídia brasileira tentou mostrar aqueles movimentos num primeiro momento como uma espécie de irrupção inesperada, como se tivesse tudo aquilo saído do nada. Eu lembro que na época li algumas entrevistas com protagonistas desses movimentos e vi uma declaração importante de um deles. Ele dizia que o movimento tem uma história, que não é uma irrupção inesperada. Nós vivemos numa sociedade que, por esse grau de midiatização, em que as coisas são mostradas de forma estanque, tende a achar que as coisas não se relacionam mais umas com as outras. Essa é uma lógica da mídia televisiva, fragmentada. Na verdade já havia o contexto do movimento do Passe Livre em São Paulo e outras demandas que estavam postas. E aí se transformou naquilo que todos nós já sabemos: o movimento tinha aquela característica de um protagonismo jovem e dessa convocação pelas redes sociais. Elas são sem dúvida um fator a potencializar hoje essas demandas, embora eu não consiga ver as redes sociais, as mídias digitais, como causa de nada. Eu li um cientista social escrever que os rolezinhos não são um movimento social. Realmente não são um movimento social tal qual nós o conhecemos e concebemos, mas são sim movimentos que revelam muito uma necessidade dos jovens de expressão, de ocuparem de alguma forma a cena pública das cidades e por que não, a cena pública dos shoppings, pois embora espaços fechados, eles são públicos, pelo menos em tese. E isso tem a ver com uma questão muito importante que está por trás de tudo isso, que é a chamada crise da democracia representativa. Esses jovens fazem de repente esse movimento das jornadas de junho, por exemplo, em que eles rechaçam inicialmente os partidos organizados. Aí todo mundo diz que é uma despolitização dos jovens. Mas acho que isso tem a ver com a insatisfação e o abismo entre as demandas dessa parcela da população e as representações constituídas, partidárias ou não.

P: As jornadas de junho, embora meio difusas, tinham um foco e os rolezinhos não. Não há a ideia de apenas mais uma farra inconsequente?

R: Acho quem tem essa dimensão também. Desde sempre os jovens, ou ao menos uma parcela deles sempre teve essa dimensão da afronta à ordem, autoridade. Eu vejo que os rolezinhos têm essa dimensão quase lúdica. A própria palavra “rolê” remete a um certo descompromisso no sentido do lazer, da ocupação de um espaço para de divertir com aquilo. Acho que há um julgamento moral como se a diversão fosse algo demoníaco, como se essa diversão em grupo fosse algo muito próximo disso. Então ela por si só é uma afronta à ordem. Mas no momento em que eu digo “eu vou transpor a porta, passar para dentro”, eu acho que acaba tendo sim uma dimensão política embora não planejada e não organizada.

P: Se não fosse replicado midiaticamente, ganharia força?

R: Sem dúvida a repercussão ajuda. Isso vale até para a questão da violência urbana, mais percebida a partir do enquadramento midiático. A mídia sem dúvida potencializa isso.

P: Shoppings têm o direto de impedir entrada de jovens?

R: Dez liminares da justiça de São Paulo para shoppings autorizaram revistas de jovens. Aí entra uma coisa complicada: o que é que determina que este jovem seja revistado e aquele não? São os marcadores sociais da diferença, a cor da pele, a maneira de se vestir... Temos uma constituição que considera racismo um crime. Se valesse a Carta Magna, jamais poderia haver esse tipo de revista na porta de um shopping center. Ao me sentir autorizado a revistar esse jovem e não aquele, eu estou cometendo na verdade um crime de racismo autorizado por uma liminar judicial.

(Diário do Pará)

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