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Belém contra as águas

Vendido como novo cartão postal de Belém, o Portal Amazônia, obra não inteiramente concluída pelo então prefeito Duciomar Costa, não previu um projeto adequado para a reutilização de portos existentes em áreas afetadas pela reurbanização do espaço. Com is

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Vendido como novo cartão postal de Belém, o Portal Amazônia, obra não inteiramente concluída pelo então prefeito Duciomar Costa, não previu um projeto adequado para a reutilização de portos existentes em áreas afetadas pela reurbanização do espaço. Com isso, os portos remanescentes lutam para sobreviver em meio a decadência.

“Aqui ficou seco depois que aterraram ali”, diz Joelson Silva, enquanto aponta para o Portal da Amazônia. No porto Mundurucus, como é conhecido informalmente o trapiche no Jurunas, Joelson examina as cargas que serão despachadas para o Amapá e para Breves. São produtos alimentícios, papel higiênico, bebidas. “Só dois barcos continuam fazendo o transporte. O resto tudo mudou de lugar”, diz ele.

“Quando não tava seco tinha barco que saía em qualquer horário”, diz Damasceno, um carregador que há uma década faz o trabalho de transportar sacas de produtos para os barcos que atracam no porto.

O porto Mundurucus é atualmente o retrato do abandono. É um trapiche mal cuidado, que balança ao fluxo de pessoas, carroças e cargas. Há vários buracos na madeira podre. Quase todos os boxes, antes cheios, estão fechados. “Só a gente tá aguentando aqui, não sei por quanto tempo”, diz Joelson.

Cenário semelhante é visto no Porto São Benedito, alguns metros mais adiante. Local onde antes havia um intenso fluxo de passageiros e cargas, atualmente trabalha com uma diminuição de movimento de pelo menos 30%. É o que garante Dona Antônia, como ela quer que a identifiquem.

“Antes os barcos tinham horário. A saída era às 19h e 5h. Agora só quando a maré tá cheia”, diz ela. Isso porque o rio ‘estufou’, como se diz no jargão dos que trabalham em portos. Estufar quer dizer que o aterramento fez com que o nível do rio diminuísse. “Mexeu muito com o meio ambiente isso aqui”, diz Antônia. Ela secretaria o fluxo de cargas no porto há 23 anos. Reclama do atual estado. “Não tem projeto bom para quem vive daqui”, diz.

O porto São Benedito fica no fim de um beco pouco recomendável para circular à noite. O único bar e restaurante que havia fechou as portas devido a ausência de fregueses. “Não aguentou a pressão”, diz Icoaraci Castro, o ‘Guará’, um carregador de mercadorias que trabalha há 22 anos no porto.

“Nem família eu tinha quando comecei a trabalhar aqui”, diz. “Tinha 25 anos, vim do Marajó, trabalhei como vigilante e vendedor até parar aqui. Já criei todos os filhos com o dinheiro que consigo aqui no porto”.

Ter criado os filhos é um orgulho para Guará. O mais velho se formou pela Universidade Federal Rural da Amazônia e mora atualmente na Austrália, graças ao programa Ciências Sem Fronteiras. O outro filho de Guará tem 18 anos e é portador de necessidades especiais. “Vai iniciar a faculdade”, diz o carregador, ele próprio um homem de pouco estudo. “Fiz só até a quinta-série”.

Icoaraci Castro lembra que antes do projeto Portal Amazônia trabalhava com até 14 barcos por dia. Atualmente, quando consegue seis já comemora. “Antes eu nem almoçava, comia”, brinca.

RIOS MORTOS

Quando iniciou o projeto do Portal da Amazônia, a prefeitura de Belém contabilizou 28 portos. A intenção seria a de revitalizar pelo menos a maioria deles. O projeto previa ‘a abertura da orla até a Universidade Federal do Pará, com seis pistas, de 70 metros de largura, com área de passeio, estacionamento e ciclovia. Parte do espaço deveria ser reservado para área de lazer, incluindo quadras de esporte, áreas com equipamentos de ginástica, restaurantes e quiosques, nos moldes das orlas construídas nos grandes centros, como Recife e Rio de Janeiro’. A realidade se mostrou diferente.

“No geral, as soluções empregadas, tanto de 2007 como a mais recente, que está em execução, partem de técnicas que não favoreceram a característica ambiental dos cursos d’água. Ao contrário, foram medidas que eliminaram as características de rios urbanos, eliminando leitos naturais e vegetações, optando-se a canalizações subterrâneas ou retificação de canais por peças de concreto. Pontos que estariam em desacordo com o atual debate ambiental de reavaliação das condutas de tratamento de águas urbanas, recuperação ambiental e convívio social com o elemento natural e de certa forma contradizem a pretensão de sustentável que o discurso inicial do projeto apresentava”, escreveu a pesquisadora Monique Bentes Machado Sardo Leão, em estudo sobre o projeto.

Tendo o rio como porta de entrada e saída, Belém – e o Pará - não encontrou a solução adequada para um uso apropriado dos terminais e portos.

“O transporte de cargas e passageiros na região amazônica tem um cunho social de elevada importância, tendo em vista que inúmeras comunidades e localidades não possuem outra opção de transporte para se locomoverem, que não a fluvial”, avaliam os pesquisadores da Universidade Federal do Pará em relatório para a Agência Nacional de Transportes Aquaviários.

É o desafio a ser vencido.

(Diário do Pará)

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