Assim que chegou ao prédio novo da Fundação Santa Casa de Misericórdia, às 3h de ontem, Hérica Loureiro Nascimento, 23, grávida de uma menina, foi atendida e examinada. Depois que foi encaminhada à sala de cirurgia, veio o desespero. “Fui para a sala de acompanhantes e, ao conversar com os outros que aguardavam, descobri que tinha gente aguardando há três dias para conseguir leito. Comecei a ficar desesperado”, conta o marido da paciente, Eduardo Braga.
Desde 6h, quando Hérica entrou na sala de cirurgia, nenhuma informação foi repassada à família. “Já vi umas dez pessoas no corredor da sala de cirurgia, por falta de leito na Santa Casa, e me falaram que a minha vez só chegaria depois da deles, sendo que eles já esperavam faz dias”. Quando conseguiu ver a mulher, ela estava em uma maca, também no corredor, e o lençol estava sujo de sangue. “Pedi pra darem um banho nela, fiquei com medo de uma infecção hospitalar”.
A última consulta do pré-natal de Hérica foi realizada na sexta- feira (31) e, por recomendações médicas, assim que ela sentiu dor, procurou atendimento hospitalar. “Quando eu pedi explicações, me falaram que a Santa Casa não tinha leito suficiente para tanta mulher e que a culpa é do governo, do secretário de saúde, mas também da mídia, que divulga que aqui tem muito leito”.
Desesperado, o motorista começou a fazer fotos e vídeos para denunciar a situação. “Os seguranças subiram e tentaram me impedir”, conta. Depois da intervenção de uma psicóloga e de uma assistente social, foi disponibilizado leito para Hérica Loureiro, por volta das 14h de ontem.
“De imediato, assim que conseguiram o leito, as pessoas que acompanhavam os outros pacientes, que estavam aguardando há mais tempo, ficaram revoltadas. Eu consegui o leito pela misericórdia de Deus e pela minha atitude. Eu poderia ter ficado lá, mas sabendo o que aconteceu, o descaso com os pacientes, resolvi denunciar”. A filha do casal passa bem e está com a mãe na enfermaria.
Infecção
O medo de Eduardo é justificável. Ontem, a família de Crislaine Conceição Silva, 25, que na sexta- feira (24) teve duas meninas, denuncia negligência no tratamento da dona de casa. “Na quinta- feira (30) ela começou a sangrar. Quando foi hoje (ontem) ela fez uma operação”, dizia a tia da paciente, Fabrícia Elaine, sem entender ao certo o que aconteceu.
“Quando ela saiu da primeira cirurgia, que teve as gêmeas, encharcou três lençóis de tanto sangue”, afirma a familiar da paciente que veio do município marajoara de Soure em busca de atendimento especializado no hospital de referência do Estado.
Uma das crianças está na incubadora e a outra, na enfermaria. A mãe, por conta de uma infecção hospitalar, encontra-se na ala de isolamento. “Eles não falam nada, não tem nenhuma informação. Tiraram o útero e os ovários dela e agora ela tá em observação”, lamenta o pescador Fábio Leal da Conceição, marido de Crislaine.
Resposta
Em nota, a Fundação Santa Casa do Pará informou que Crislaine Conceição Silva tem um quadro estável. “Ela teve complicações cirúrgicas pós cesariana, o que é passível de ocorrer em um ambiente hospitalar. Crislaine foi submetida a uma cirurgia para conter focos de infecção”, destacou a nota.
Sobre o caso de Hérica Loureiro Nascimento, a Fundação informou que mesmo contando com uma capacidade de 406 leitos, distribuídos em UTI neonatal (62), UCI neonatal (80), Maternidade (157), Pediatria (71), UTI Materna (10), UTI Pediátrica (10) e Ginecologia (16), “a Santa Casa não consegue atender à grande demanda vinda de todo o Estado”, informou a nota. “A procura pelos serviços é alta, o que gera uma sobrecarga no hospital que é referência em atendimento materno-infantil”, finalizou.
(Diário do Pará)
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