O Brasil tem como desafio da saúde pública, ao longo de 2014, baixar as taxas de câncer de colo de útero na região Norte, que tem a mais alta taxa de prevalência no país, de 35 casos para 100 mil habitantes, na comparação com a média nacional, de 23,5 casos. Ontem, quando se comemorou o Dia Mundial de Combate ao Câncer, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou levantamento com dados sobre a prevalência da doença em suas diversas formas no Brasil. Segundo o Inca, cerca de 1 milhão de novos casos devem ser diagnosticados neste ano e no próximo, O instituto confirmou, porém, que a prevenção e a detecção precoce fazem cair a incidência de câncer de pulmão e de colo de útero nas demais regiões.
De acordo com o documento “Estimativa 2014”, no Pará serão 8.630 novos casos de câncer em 2014, sendo que a maior prevalência será do câncer de próstata, com 1.000 novos casos. Na população feminina, empatam as duas maiores incidências: os novos casos de câncer de mama e de colo de útero são os que aumentam em 2014 entre a população paraense, cerca de 830 cada. O total de mulheres que poderão apresentar novos casos de tipos diversos da doença é 4.520. Os homens serão 4.110.
Em todo o Brasil, estimam-se 68.800 casos novos de câncer de próstata em 2014. Esses números correspondem a um risco estimado de 70,42 casos novos a cada 100 mil homens.
Sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer de próstata é o mais incidente entre os homens em todas as regiões do país, com 91,24/ 100 mil no Sul, 88,06/ 100 mil no Sudeste, 62,55/ 100 mil no Centro-Oeste, 47,46/ 100 mil no Nordeste e 30,16/ 100 mil no Norte.
Para o Brasil, em 2014, são esperados 57.120 casos novos de câncer de mama, com um risco estimado de 56,09 casos a cada 100 mil mulheres. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, esse tipo de câncer é o mais frequente nas mulheres das regiões Sudeste (71,18/ 100 mil), Sul (70,98/ 100 mil), Centro-Oeste (51,30/ 100 mil) e Nordeste (36,74/ 100 mil). Na região Norte, é o segundo tumor mais incidente (21,29/ 100 mil).
O câncer de pulmão, que está diretamente relacionado ao tabagismo – cerca de 80% dos casos –, é o tipo mais frequente e letal na população mundial. No Brasil, no entanto, as taxas de incidência vêm se reduzindo – para este ano, estão previstos cerca de 27 mil novos casos. No Pará, serão 260 novos casos em homens e 160 em mulheres.
De acordo com o diretor de Prevenção e Vigilância do Inca, Cláudio Noronha, a experiência brasileira no controle do tabagismo mostra a redução da prevalência do fumo nos últimos 20 anos, que caiu pela metade. “Isso modificou a ocorrência da doença”, acrescentou Noronha, que citou dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a existência de cerca de 2 milhões de casos de câncer de pulmão no mundo.
Com mais acesso a exames preventivos, as taxas de câncer de colo de útero também caíram no Brasil, passando para risco de 15 casos em cada 100 mil habitantes. Com isso, essa variedade da doença deixa de ser a segunda mais prevalente entre as mulheres e troca de posição com o câncer colorretal, antes no terceiro lugar. Permanece como o mais frequente o câncer de mama.
Na região Norte, o desafio, segundo o diretor, é baixar as taxas de câncer de colo de útero. “Quando se identifica e se trata a lesão do HPV, é possível evitar que o câncer venha ocorrer na mulher, mas no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste, têm grande importância as características das condições de saúde associadas à alta prevalência da infecção, decorrentes da prática da atividade sexual precoce não protegida e da falta de acesso a informações”, destacou o médico.
Entre os homens, por região, o Inca destaca a frequência do câncer de próstata, o primeiro em número de casos, depois do câncer de pele e do de estômago, principalmente no Norte e no Nordeste. A doença, segundo Noronha, está ligada às condições de conservação precária de alimentos, como a “salga agressiva”, além de infecções causadas por falta de saneamento.
O especialista informa que 70% dos casos de câncer são decorrentes de maus hábitos, como o fumo, a falta de exercícios físicos, a alimentação e o excesso de bebida alcoólicas. Para mudar de vida, ele recomenda que os pacientes procurem imediatamente um médico de sua preferência.
Mulheres têm que fazer a mamografia cedo
Criado em 2008, o dia nacional da Mamografia comemorado hoje (5), objetiva incentivar mulheres entre 40 e 70 anos, para que realizem com a frequência correta o exame. A data foi escolhida por ser o dia dedicado à Santa Ágata, considerada protetora contra as doenças da mama e padroeira dos mastologistas.
De acordo com especialistas, o método de rastreamento para o diagnóstico em estágio inicial das doenças que acometem a mama é o “padrão ouro” do Ministério da Saúde, para aumentar as chances de cura na maioria dos casos. “Nossa campanha é sempre pela conscientização entre as mulheres para que façam periodicamente o exame e ainda para que os médicos solicitem a mamografia para suas pacientes. Assim, poderemos reduzir esse índice assustador onde no Brasil, 90% dos casos de câncer de mama são detectados já em estágio avançado, acarretando um índice de mortalidade de 30%”, defendeu o Dr. Ewaldo Oliveira, ginecologista mastologista e membro da Sociedade Brasileira de Mastologia.
O médico explicou que nódulos sentidos através do toque feito pela própria mulher, o conhecido autoexame, já representam tumores de pelo menos 1,5 cm, e isso significa que este está com ela há pelo menos sete anos. Por isso a importância da realização da mamografia, que é a única capaz de detectar lesões ainda muito pequenas em que o tumor não é palpável.
Mesmo diante de tamanha importância, pouco interesse e a deficiência nos números de mamógrafos no país acabam sendo um grave problema. Dados recentes da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), revelam que mais de 50% dos cerca de cinco mil municípios brasileiros com até 50 mil habitantes estão sem os aparelhos. Para piorar, ainda segundo a SBM, em alguns estados até 67% da população desconhece o valor do exame para a detecção precoce e cura do câncer de mama.
No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, cerca de 50% das mulheres sequer conhecem a mastologia e 54,6% nunca fizeram o exame. Das pessoas que já consultaram um mastologista, 44,3% estiveram com o médico pela última vez há três anos. De acordo com o mastologista Dr. Ewaldo, em 2011, apenas 12% das mulheres entre 40 e 70 anos realizavam a mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Os índices de mulheres que não estão buscando o rastreamento precoce desse tipo de doença preocupa. “Desde o nascimento da mama existem cuidados que devem ser tomados. Em adolescentes os casos são raros, mas não há mal em realizar desde essa idade o autoexame da mama, para o conhecimento do próprio corpo. Assim, a mulher vai tendo conhecimento do que é normal (glândulas mamárias) e o que é estranho. Mulheres com histórico familiar são as que devem ficar mais atentas”, alertou o mastologista.
No Pará
No Pará, o exame da Mamografia é gerido pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), e executado pelo município. Conceição Oliveira, coordenadora da Saúde da Mulher da Sespa, explica que mulheres entre 50 a 69 devem procurar as Unidades Básicas de Saúde municipais para solicitar o exame. Dentro dessa faixa etária, a coordenadora explica que qualquer profissional de saúde, desde o clínico geral até uma enfermeira, pode solicitar o exame. Daí então ela será encaminhada para o setor de regulação do Estado para a liberação do exame, que deve ser feito nas clínicas conveniadas ao SUS.
Há uma atenção especial ao grupo de risco, classificado pela Sespa dentro do consenso do Ministério da Saúde, que são aquelas mulheres com histórico familiar. “Independente da idade que sentirem alguma alteração na mama, devem solicitar ao médico uma consulta especializada, onde este deve encaminhá-la para o profissional ginecologista que tenha a especialização em mastologia. Daí então é dado todo o amparo para a detecção do tipo de nódulo encontrado na paciente, e se necessário, também todo o tratamento para a cura custeado pelo SUS”, explicou Conceição.
Para as mulheres que realizam corretamente a mamografia, um alerta da coordenadora. “Pedimos que as mulheres que realizam o exame, guardem essa documentação. Se a paciente vier ao longo do tempo desenvolver a doença, é possível fazer a comparação dos exames feitos ao longo de sua vida, para melhor entender a trajetória do câncer e buscar sua cura”, alertou.
(Diário do Pará)
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