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Câncer já desponta como mal do novo século

No mês em que se comemorou o Dia Mundial do Câncer (em 4 de fevereiro), o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou levantamento com dados sobre a prevalência da doença no Brasil: serão cerca de um milhão de novos casos, sendo pouco mais de oito mil de

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No mês em que se comemorou o Dia Mundial do Câncer (em 4 de fevereiro), o Instituto Nacional do Câncer (Inca) divulgou levantamento com dados sobre a prevalência da doença no Brasil: serão cerca de um milhão de novos casos, sendo pouco mais de oito mil deles só no Pará, incluindo mil novos diagnósticos de câncer de próstata e mais de 1.600 entre colo de útero e mama.

Se o mal do século XX foi a Aids, o mal do século XXI deve ser o câncer, dado o aumento de sua incidência nas mais diferentes formas em todo o mundo: é o que afirma o médico oncologista clínico e coordenador da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB), Williams Barra. Pesquisador no Núcleo de Pesquisas em Oncologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), ele admite as fragilidades do sistema de saúde do Estado em combater o mal, tal qual acontece no resto do país.

O oncologista esclarece que não há intervenções médicas capazes de evitar o surgimento do câncer. Porém, garante que a preocupação com o futuro - traduzindo em manutenção de vida saudável e rastreamento precoce da neoplasia quando há essa possibilidade, como é o caso dos três tipos mencionados acima -, aumenta as chances de o paciente atravessar a condição com tratamentos menos agressivos e boas chances de recuperação.

“A nossa expectativa é de que pelo menos isso se torne um problema pontual, uma doença que se enfrenta e continua a viver”, avalia o especialista do Barros Barreto. Confira entrevista cedida ao DIÁRIO:

P: De um modo geral, o câncer é um mal muito frequente no Estado?

R: Não era. Eu diria que está se tornando cada vez mais. Relativamente, na comparação com outras doenças, nos últimos anos, não só no Pará, não só no Brasil, mas no mundo, é uma doença que ganha importância cada vez maior. As estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram o câncer como a segunda causa de morte por doença crônica degenerativa - deixando de lado mortes por acidentes, homicídios, etc. Só perde para as doenças cardiovasculares. O Canadá é um país que já tem o câncer como a principal causa de mortes em geral. Creio que isso deve se repetir no Brasil daqui a mais uma década, lá pelo ano 2025.

P: Isso é resultado de uma falta de atenção por parte de quem promove a saúde pública?

R: Não só isso. A população agora vive mais tempo. A longevidade do brasileiro aumentou e então é natural que ele esteja mais sujeito a doenças crônico-degenerativas como o câncer.

P: Então as pessoas mais velhas são as mais afetadas?

R: Elas são afetadas também. A longevidade é um dos fatores. As mudanças de hábitos de vida das pessoas também têm a ver com isso. Elas estão mais sedentárias...

P: Mas nós não somos a geração fitness?

R: Se você comparar a população brasileira e mundial de hoje com a de 20 anos atrás, vai confirmar que hoje as pessoas estão mais acima do peso do que antes. A parte fitness é algo muito midiático, no geral não é assim. E obesidade é fator de risco para neoplasia, junto com fatores biológicos e estilo de vida: hoje se come menos fibra, mais comida industrializada, menos comida in natura.

P: O câncer de colo de útero ainda é um problema grave no Pará?

R: Continua sendo, por diversos fatores. É o início da atividade sexual precoce, muitos parceiros, falta de proteção aliada à falta de orientação educacional, dificuldade de acesso ao sistema de rastreamento da doença, e depois do diagnóstico ainda há demora, uma burocracia a ser enfrentada para se obter de fato o tratamento efetivo. A educação é muito importante no nosso cenário, porque se a gente ensinar hoje para a estudante que ela precisa do preservativo na hora da relação sexual, em dez, 15 anos, haverá uma diferença para melhor. Há um programa do Ministério da Saúde que irá disponibilizar a vacina contra o HPV no calendário oficial de vacinação, o que também deve fazer a diferença. No Estado, entre mulheres, o câncer de colo de útero é o primeiro em incidência, enquanto que, para o homem, o mais frequente é o de próstata. De um modo geral, afetando ambos os sexos, o câncer de pele é o campeão.

P: É possível então evitar esses dois tipos de câncer se houver uma preocupação em buscar o atendimento médico com frequência?

R: Não se trata de evitar, até porque isso não é possível, mas são doenças rastreáveis. Ou seja, mesmo que o paciente não tenha qualquer sintoma, é possível identificar o câncer, e em estágios bastante iniciais, o que aumenta a chance de cura e diminui a probabilidade da necessidade de um tratamento agressivo e com sequelas. O mesmo acontece com o câncer intestinal, que pode ser identificado desde o início pelo exame de colonoscopia.

P: O senhor comenta que a incidência de câncer no Estado só aumenta. E a saúde do Estado está preparada para isso, no seu entendimento?

R: Essa é a uma pergunta para a Sespa [Secretaria de Estado de Saúde Pública] responder. Mas, como profissional que atua na área, posso dizer que hoje nós não temos um sistema padrão, com capacidade para resolver todos os casos ao mesmo tempo. No entanto, nos últimos dois anos, houve várias iniciativas por parte do governo do Estado no intento de melhorar a situação do paciente oncológico. A própria Unacon, Unidade de Alta Complexidade em Oncologia, que funciona aqui dentro do Hospital Barros Barreto, que é universitário e federal, funciona graças ao suporte da Sespa. Outra mudança positiva foi a descentralização desse atendimento especializado, que antes só era feito no Hospital Ofir Loyola e agora se faz no próprio Barros Barreto, no Hospital Regional de Santarém, em um centro de oncologia, uma tendência que deve se repetir também no Hospital Regional de Tucuruí em breve. Assim como em todo o Brasil, a rede de atendimento no Pará enfrenta muitas dificuldades. Até o financiamento do tratamento, que é dispendioso, é um problema. Tem o atendimento que é padrão, mas que o Sistema Único de Saúde (SUS) não oferece, porque, se oferecer para um, não tem como oferecer para outros 50. Os recursos são limitados e limitam a terapia.

P: Existe uma faixa etária padrão no Estado para os cânceres de colo de útero, de próstata e outros?

R: Consideramos para próstata a partir dos 50 anos, principalmente a partir dos 60. Tanto que recomenda-se o exame nesses períodos, a não ser que haja um histórico na família, o que significa que o paciente deve buscar mais cedo o exame. As mulheres já fazem a mamografia, por exemplo, aos 40, mas também seguindo a regra de que, havendo histórico, antecipa-se essa investigação. De um modo geral, o que precisa ser feito mesmo é o investimento em educação, orientação. Se o paciente não pensar no futuro, entender que, se não controlar o peso, se fumar, se consumir álcool em excesso, haverá problemas no futuro. Políticas públicas de saúde adotadas agora vão reduzir os índices em 15, 30 anos, então tem que educar desde agora para a vida mais saudável, com a prática de atividades físicas, e também em rede de rastreamento e de tratamento apropriada para, se for o caso, diagnosticar e tratar o paciente.

P: Qual é o padrão do paciente que busca o atendimento oncológico? Ele está mais no início da doença ou em estágio avançado?

R: Nós não temos dados locais sobre isso. Falando subjetivamente, pela minha percepção de médico, prevalece o paciente com a doença em estado avançado. É possível que tenhamos dados sobre isso no próximo ano e que eles sirvam para propormos às autoridades competentes planos e novas políticas que ajudem a mudar essa situação.

P: O câncer gástrico continua sendo um grande inimigo por aqui?

R: Belém continua a capital brasileira com maior incidência de mortalidade por esse tipo de câncer - embora não seja esse o câncer mais frequente, como já falei. Há, sim, uma ligação direta da doença com a alimentação. O ribeirinho, por exemplo, e digo isso porque sou um, mesmo tendo refrigerador, costuma passar o peixe na água salgada, deixar no sol antes de ir ao congelador. Já foi comprovada que essa prática favorece a criação de compostos que têm poder carcinógeno. A nossa maniçoba é uma comida que deixamos queimando por sete dias! O assado na brasa, que vem com a fuligem do carvão... O paraense adora essas coisas. É cultural.

P: Disseram que a Aids era o mal do século...

R: Do século passado. O câncer com certeza hoje já tem uma importância muito grande e daqui a uma década terá importância muito maior. Estatísticas americanas dizem que um em cada dois homens e uma em cada três mulheres devem desenvolver algum tipo de câncer ao longo da vida. A nossa expectativa é de que pelo menos isso se torne um problema pontual, uma doença que se enfrenta e continua a viver. E isso depende, e muito, do diagnóstico precoce. Se eu conseguir impedir o crescimento de tumores em duas mil pessoas, é uma economia em vários sentidos: para o Estado, para o paciente, para o mercado de trabalho, que não perde o seu profissional, porque ele vai continuar trabalhando.

(Diário do Pará)

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