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Insegurança não muda velhos hábitos

Sentado sob a árvore plantada na calçada em frente à moradia, o motorista Wlasemie José de Souza resiste. Ainda que as notícias de assaltos praticados a poucos metros de sua casa, na travessa 09 de Janeiro, sejam constantes, sempre que tem vontade, o senh

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Sentado sob a árvore plantada na calçada em frente à moradia, o motorista Wlasemie José de Souza resiste. Ainda que as notícias de assaltos praticados a poucos metros de sua casa, na travessa 09 de Janeiro, sejam constantes, sempre que tem vontade, o senhor instala a cadeira de plástico na porta de casa e acompanha o movimento.
No início do dia e com o clima ameno de uma manhã sem muito sol, ele usufrui o que poucos têm coragem. “São bem poucos os vizinhos que continuam fazendo isso. A bandidagem está demais”.

As notícias estampadas diariamente nos jornais não deixam dúvida, Belém está longe de oferecer uma sensação de total segurança aos que nela vivem. Independente do risco e sempre com a atenção redobrada, Wlasemie não abre mão do hábito praticado há tanto tempo.

“A gente tem receio, mas temos que enfrentar a vida. Tanto faz estar dentro de casa ou fora, não tem mais hora pra ter assalto aqui no bairro da Cremação”, acredita, sem esconder a impressão deixada pelos vizinhos que já não saem às portas. “A população toda tem essa vontade, mas os nossos governantes não fazem nada pra melhorar a nossa vida. Eu não me deixo intimidar e venho pra cá pra porta quase todo dia de manhã, de tarde”.

PASSEIO

Sem que a coragem tenha lhe servido por um longo período, a técnica de enfermagem Ana Lúcia se viu obrigada a enfrentar o medo, ainda que ele continue lhe acompanhando na saída com as filhas. Diante da felicidade proporcionada à filha Maria Luiza, de oito anos, pelo passeio de bicicleta, ela se certifica de que não é a sua família quem deve ficar presa.

“Há muito tempo que elas (filhas) não andavam de bicicleta, já tinham até desaprendido. Eu via que elas ficavam muito em casa, só na frente do computador e decidi que elas iam voltar a ter lazer”, informa, sem esconder a preocupação com os problemas de saúde causados pela permanência exagerada dentro de casa.

“A gente fica o tempo todo trancado em casa, vi que milha filha mais nova já estava engordando e fiquei preocupada. O perigo está muito grande e a gente é que acaba ficando preso, mas não tem mais como isso ficar assim. Vou trazer elas na praça pra brincarem que isso faz bem”.

Das lembranças da própria infância, o cenário não poderia ser mais familiar. Enquanto as filhas de Ana Lúcia utilizam o espaço da Praça Dalcídio Jurandir para andar de bicicleta, ao fundo, outras crianças aproveitam a grama para jogar futebol e se pendurar nos brinquedos de ferro.
“Na minha época a gente brincava muito na rua, com os vizinhos e hoje todo mundo fica com medo”, lembra o encanador Odeonado Francisco, diante da alegria dos filhos e sobrinhos. Apesar da movimentação tão tranquila, o aviso dos guardas municipais que fazem a segurança não deixa esquecer o motivo da prática já ser tão incomum atualmente. “Aqui é uma região um pouco perigosa. Qualquer coisa, estamos por aqui”.

Mais seguro com a presença dos guardas e sem que a intimidação constante da insegurança existente em toda a cidade lhe atinja, Odeonado tenta dar aos filhos a mesma oportunidade tida por ele tempos atrás. “Eu trago meus dois filhos e os sobrinhos umas três vezes na semana e no final de semana. Eles gostam muito de jogar bola, brincar na rua”, explica. “Medo da violência todo mundo tem, ainda mais aqui (na Praça Dalcídio Jurandir) que de vez em quando acontece uma ‘arte’. Mas eu tento manter isso (lazer ao ar livre) vivo”.

(Diário do Pará)

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