Hanseníase e Aids. A mistura, aparentemente improvável, é a ameaça silenciosa que vem se alastrando no Pará. Em oito anos foram registrados no estado 70 casos envolvendo o cruzamento dos dois males. “É uma das maiores casuísticas do país”, diz a médica Marília Brasil Xavier, especialista na hanseníase.
As causas desse coquetel explosivo ainda não são de todo conhecidas, mas serão objeto de uma pesquisa de doutorado da médica Helena Brígido, sob orientação de Marília Xavier. “Em 2008, por exemplo, de 545 pacientes que atendi com hanseníase, 37 eram portadores do HIV. É uma taxa estatística de 67 por 100 mil. No Brasil, a taxa é de 20 por 100 mil”, diz Marília Xavier.
A união entre uma doença de origem que remonta ao próprio Velho Testamento bíblico cristão a uma das doenças mais emblemáticas do fim do século 20 não deixa de ser irônica, mas resume a situação do Estado em relação a políticas públicas de saúde. “As doenças se entrelaçam”, resume Helena Brígido.
CEDO DEMAIS
A hanseníase é emblemática no Pará. Só em 2012 foram 3.912 casos, segundo o Sistema Nacional de Notificação de Agravos (Sinan). Desses, 373 eram menores de 12 anos. “O Pará tem uma das mais altas taxas de crianças adoecendo com hanseníase”, atesta Marília Xavier. Segundo ela, há um raciocínio perverso nesses números. “Se tem criança adoecendo é porque tem muito bacilo circulando e como o período de incubação costuma ser longo, significa que as crianças estão tendo contato cedo com o bacilo. Em casa e nas escolas, onde as taxas também costumam ser altas”, diz ela.
No Pará, os municípios de migração são os que mais apresentam casos da doença, na avaliação da especialista. “Parauapebas, Rondon do Pará, Xinguara, por exemplo, onde a ocupação das terras foi muito externa, há sempre um grande número de casos”, diz. “E como o estado possui proporções quase continentais e com locais de difícil acesso, corre-se o risco de termos uma subnotificação dos casos”, preocupa-se.
Outro problema pouco visível é em relação às antigas colônias de hansenianos, os mal disfarçados campos de concentração que isolavam os pacientes do resto da sociedade. Segundo Marília Xavier, onde houve colônia se encontra hanseníase resistente às drogas que são utilizadas no tratamento da doença. “As famílias continuam adoecendo”, afirma a médica.
No Pará as duas colônias mais conhecidas foram a do Prata, em Igarapé-Açu e a de Marituba. Antes houve a do Tucunduba, local que atualmente abriga a Universidade Federal do Pará. É de lá que Osvaldo Barradas, 93 anos, saiu para ser levado até a Colônia do Prata. Barradas chegou ao Prata de trem, no dia 8 de junho de 1938. Nunca mais saiu. A doença levou-lhe as pernas, as mãos, a visão.
Ainda hoje a doença é um problema social. O Brasil está em 2° lugar no ranking mundial em número de pessoas atingidas pela hanseníase e o Estado do Pará está sempre entre os cinco primeiros em números de caso, sendo considerado hiperendêmico em hanseníase.
PROVIDÊNCIA DIVINA OU NÃO...
Emanuel Mecias de Souza, 62 anos, descobriu que tinha hanseníase em 2007, depois de cinco anos tomando medicação para quase tudo, menos para a doença verdadeira que tinha. “Quando comecei a sentir dor fui no posto de saúde. Me deram um remédio chamado premedizona, mas quando eu parava de tomar, inchava e doía no corpo, mas eu não tinha marcas, por isso não sabia o que era”.
Sem posição para dormir de tanta dor que sentia, Mecias lamenta que o corticoide que tomava para amenizar as dores, mascarou a doença. O aposentado, morador do Tenoné, decidiu que com dores não dava para suportar a vida.
Mecias - que enfatiza o nome com a letra c -, de tanto padecer, rumou uma manhã até a Santa Casa, mas nada foi constatado também. “Pensei: Deus não criou a gente pra ter tanta doença. Foi então que decidi fazer exame de hanseníase”.
Providência divina ou não, Emanuel Mecias bateu de novo na porta do posto de saúde. “Pois foi só o que deu”, lembra. O medo bateu forte. Mecias tinha medo de ficar perto dos netos. “Me encaminharam pra Marituba e fiquei dois anos me consultando lá. Fiquei um ano tomando medicação. Controlei, mas ainda faço o acompanhamento. Pior que agora descobri que tenho diabetes”, conforma-se.
O governo federal admite o problema, mas diz que no final de 2013, foram disponibilizados R$ 15,6 milhões a 40 municípios prioritários para o combate à hanseníase e esquistossomose. Segundo o MS, essas cidades detêm cerca de 24% dos casos novos de hanseníase diagnosticados no país. “Os recursos serão aplicados em iniciativas inovadoras, aprovadas pela Secretaria de Vigilância em Saúde, com foco no diagnóstico precoce e no tratamento oportuno dessas doenças”, promete o Ministério da Saúde.
(Diário do Pará)
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