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Deputado quer MPF no caso

Para o deputado estadual Edmilson Rodrigues (PSol), o Ministério Público Federal (MPF) não pode deixar passar em branco a denúncia feita pelo DIÁRIO no último domingo sobre o eventual apoio de bicheiros ao então candidato à prefeitura de Belém Zenaldo

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Para o deputado estadual Edmilson Rodrigues (PSol), o Ministério Público Federal (MPF) não pode deixar passar em branco a denúncia feita pelo DIÁRIO no último domingo sobre o eventual apoio de bicheiros ao então candidato à prefeitura de Belém Zenaldo Coutinho (PSDB) nas últimas eleições.

Os diálogos revelados nos grampos telefônicos feitos pela Polícia Civil sugerem que havia fortes ligações entre pessoas ligadas ao jogo do bicho e o comando municipal dos tucanos naquela campanha.

O parlamentar, que concorreu ao pleito com Zenaldo há pouco menos de dois anos e ficou em segundo lugar, promete solicitar ao MPF informações sobre alguma investigação nessa linha.

“Eu, como deputado, não posso fazer muito além disso. É o Ministério Público quem deve provocar a Justiça, e com toda a credibilidade que o órgão possui, eu acredito que é isso o que deve acontecer. Eu me recordo que, em 2012, a dois, três dias do segundo turno das eleições, ruas que estavam ‘vermelhas’ acabaram ‘amarelando’ da noite para o dia. E em bairros onde eu sabia que tinha um eleitorado forte, como Guamá, Terra Firme. Ou seja, já havia uma percepção de que muito dinheiro havia aparecido em muito pouco tempo e bem perto do dia da votação”, analisa Edmilson.

“Eu inclusive denunciei isso várias vezes na tribuna, à época. Nessa mudança de lado, imagino ter perdido pelo menos 50 mil votos, 100 mil se algo do tipo também tiver ocorrido no primeiro turno”, avalia.

Na edição de ontem, o DIÁRIO transcreve trechos de conversas que teriam acontecido entre o empresário João Monteiro Vidal, mais conhecido como “Jango”, que seria, segundo a polícia, comandante da central de apostas do Parazão, e vários interlocutores, dentre eles o presidente do diretório municipal do PSDB de Belém, Fabrício Gama.

Nas conversas, ele pede votos para Zenaldo, aparenta comandar propaganda de rua em favor do tucano e, junto com Fabrício, comemora a eleição do novo prefeito. O grampo da polícia fez parte de uma das atuações da operação Efeito Dominó, realizada no final do ano passado. Quase 50 pessoas foram presas durante a operação, entre elas “Jango” e outros chefes do jogo do bicho no estado.

PADRINHO

Os diálogos grampeados pela polícia, os quais o DIÁRIO teve acesso, revelam uma relação bem íntima entre “Jango” e Fabrício, que chega a tratar “Jango” como “meu padrinho”.

Em uma ocasião, Fabrício tenta tranquilizar “Jango”, afirmando que não era verdadeira uma pesquisa que apontava o psolista Edmilson Rodrigues à frente de Zenaldo Coutinho, na disputa pela Prefeitura de Belém. Em outra ocasião, enquanto comemora a eleição de Zenaldo por 100 mil votos de diferença, “Jango” diz a Fabrício possuir um galpão que serviria para “algum tipo de projeto”, possivelmente, da prefeitura.

Em mais um telefonema, quando Fabrício se encontrava, segundo ele, “em uma inauguração com o governador”, Jango e um amigo dele garantem que o bairro do Jurunas vai eleger Fabrício deputado estadual. E há também um diálogo para deixar qualquer um de orelha em pé. Nele, “Jango”, já impaciente, chega a dar ordens a Fabrício: “vem logo aqui agora, agora! É pra vires pra cá agora, agora!”. E afirma: “Eu tô esperando vocês aqui já, com o negócio”. O “aqui” era a casa de “Jango”. E o “negócio”, qual seria?

As conversas deixam a impressão de que aquela não foi a única visita de Fabrício à casa de “Jango”. Pelo contrário, aparentemente, foram vários os encontros entre os dois – um deles, logo depois de Fabrício deixar a companhia de Zenaldo e Jatene, que haviam acabado de jantar. Além disso, pelas conversas de “Jango” com outros interlocutores, até mesmo Zenaldo e Jatene deram uma passadinha na casa do suposto bicheiro, que os aguardava ansiosamente, durante a campanha eleitoral.

“O Zenaldo vai estar aqui na frente de casa daqui a 20 minutos”, diz “Jango” a um interlocutor, a quem pede que mande pelo menos “quatro do pessoal” para a frente da casa, a fim de recepcionar o candidato. O interlocutor acabara de mandar o “pessoal” almoçar, “porque a polícia tava pegando muito em cima da gente”. Daí que é possível que o “pessoal” fossem trabalhadores de campanha de rua, as chamadas “bandeiretes”, contratados por “Jango” para a ocasião.

CABO ELEITORAL

Outros diálogos mostram “Jango” pedindo votos para Zenaldo, trabalhando como cabo eleitoral. Uma delas é com um cidadão de nome “Nelson” ou “Relson” – possivelmente, Relson Lima Souza, que, segundo a polícia, era quem entregava aos comandantes do Parazão o dinheiro lucrado com a jogatina, que era dividido em percentuais correspondentes às cotas de cada qual no “empreendimento”.

Na conversa, “Jango” pergunta se Relson está trabalhando “pesadamente” na campanha de Zenaldo. Relson responde que sim e torce pela eleição do tucano. “Se Deus quiser, a porrada vai ser grande mesmo”, diz ele.

Outro telefonema revela que pessoas sob o comando de “Jango” até ajudaram a “amarelar” as ruas de Belém, durante a campanha de 2012. “Pegue um carro e vá lá na Caripunas, que o senhor vai ver o maior espetáculo que o senhor já viu. Nós deixamos a Caripunas amarela, mas tudinho”, conta um interlocutor, que chama “Jango” de “chefe”.

E acrescenta, rindo: “E o senhor sabe quantas bandeiras nós pegamos de um carro aí, do PT? Duzentas e poucas”. Ao final, o homem diz a “Jango” que, naquele momento, estava “trabalhando” também na Pariquis. Em telefonema a uma mulher, “Jango” pede votos para Zenaldo e explica: “Nós tamos na política, num embate pra ajudar o nosso candidato aqui. É nosso interesse, é nossa amizade. É o Zenaldo”.

Procurado pelo DIÁRIO no último sábado, Jango informou, por telefone conhecer Fabrício apenas pelo fato dele ser presidente da Liga das Escolas de Samba de Belém. “Fora isso, nunca tratei com ele sobre política ou campanha política”, afirmou o presidente de uma das mais tradicionais escolas de samba da capital paraense, Rancho Não Posso Me Amofiná.
Já o número de Fabrício Gama obtido pela reportagem consta como “programado para não receber ligações” durante o final de semana.

(Diário do Pará)

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