Com a bagagem rente ao corpo franzino, as mãos cruzadas atrás das costas são o único apoio junto à grade da Unidade Municipal de Saúde da Marambaia, em Belém. Em meio ao espaço iluminado apenas pela lua cheia ainda imponente no céu escuro, é cochilando em pé que o agricultor aposentado Adriano Menezes aguarda, aos 70 anos de idade, pelo resultado de um exame. “Cheguei aqui 4h30, vim do Moju pra pegar o resultado de uma chapa que eu fiz do pulmão. Pra lá essas coisas de médico custa chegar”.
Certo de que na capital o acesso à saúde pública é mais “fácil” – em suas palavras - do que no município de origem, Adriano deu início à busca pelo atendimento no domingo, dia anterior à entrega do resultado. Enfrentada a viagem de três horas de ônibus até Belém, a bagagem carregada no trajeto quase não foi utilizada. Do terminal, o senhor seguiu direto para unidade de saúde, da onde deveria retornar para embarcar no ônibus de volta. “Só vou pegar o resultado e já vou pro Moju de novo. Eu espero que já esteja pronto, né?”.

Foto: Alzyr Quaresma
Ainda que considerada mais “fácil”, diante da precariedade ainda maior do atendimento de saúde no seu município, a situação enfrentada por Adriano na madrugada da última segunda-feira se repete por vários postos de saúde antes mesmo do nascer do sol. Sem que haja senha de atendimento suficiente para todos que precisam, a única saída é sair de casa ainda de madrugada.
Sensibilizada com a história do idoso que aguardava, frágil, pela abertura dos portões, a dona de casa Marcilene da Cruz não deixava de se indignar com a própria. “Estou com uma vizinha muito doente e a filha dela já veio nesse posto cinco vezes tentar pegar uma ficha e não consegui. Resolvi madrugar pra ver se finalmente ela consegue ser atendida... Hoje ela vai ter que se consultar!”, exigia, como se alguém no posto de atendimento vazio a pudesse escutar. “A gente tem que sair de casa 4h, se arriscando... Cheguei por aqui lá pelas 5h porque a gente vem andando devagar, com medo de fazerem alguma coisa com a gente na rua”.
Acomodada improvisadamente na rampa de acesso ao prédio da unidade, a preocupação com a segurança está longe de ser dissipada com a chegada. Sem que qualquer segurança controlasse o portão externo da unidade, escancarado desde a noite, a intenção de cada nova pessoa que entrava era vista com certa desconfiança. “A gente fica aqui sem luz, sem segurança, sem nada. A gente vem pra cá no limite, enfrentar essa espera correndo o risco de qualquer ladrão entrar aí e assaltar a gente tudo”, temia. “Agora me diz como uma senhora doente de 80 anos ia poder enfrentar isso aqui? Eu resolvi me arriscar e vir pra ver se ela consegue pelo menos se consultar”.
(Diário do Pará)
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