O procurador regional eleitoral, Alan Mansur, requisitou ontem à Justiça Estadual o processo criminal que contém gravações feitas pela Polícia Civil, com autorização judicial, para analisar se houve suposta influência de contraventores do jogo do bicho em Belém na eleição do prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB). Ele vai ouvir todas as conversas grampeadas em 2012 e que resultaram na operação “Efeito Dominó”, realizada em setembro de 2013, para saber se há ou não prova ou indícios de crime eleitoral. O requerimento de Mansur foi encaminhado ao juiz da Vara de Entorpecentes e Combate às Organizações Criminosas, Wagner Soares da Costa.
As gravações mostram abertamente que os contraventores fizeram campanha e podem ter contribuído até financeiramente para o candidato tucano. Há diálogos sem a menor cerimônia entre o empresário João Monteiro Vidal, mais conhecido como “Jango”, e vários interlocutores, entre eles o presidente do diretório municipal do PSDB de Belém, Fabrício Gama. Em uma das conversas, eles debocham da polícia, dizendo que esconderam “coisas” e que agem com esperteza.
A investigação policial revela que “Jango” era um dos comandantes do Parazão, a central de apostas que trabalhava com o grosso do dinheiro arrecadado das mais de 1.200 bancas do jogo do bicho espalhadas por todos os bairros da cidade. Ele pede votos para Zenaldo, demonstra ser o comandante da propaganda de rua e até, em certo trecho de uma das gravações, comemora o resultado que elegeu o tucano.
O promotor do Ministério Público Estadual (MPE), Nélio Caetano Silva, que também atua na área eleitoral, informou pela assessoria do órgão que não havia sido aberto nenhum procedimento com base na lei eleitoral sobre os fatos narrados desde domingo em reportagens do Diário. O caso, restrito a esfera criminal do MPE, é comandado pelo promotor de Justiça Milton Menezes, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
“O foco da investigação foi o combate à exploração ilegal do jogo do bicho, o que configura, além da contravenção penal, crimes contra a ordem econômica, crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha”, declarou Menezes por meio de nota remetida ao Diário. Quanto ao caráter político das conversas gravadas pela polícia, segundo o promotor, “isso não foi o foco da investigação”. A ação judicial já está ajuizada na Vara de Combate às Organizações Criminosas.
Operação mostrou como quadrilha atuava
Na denúncia de Menezes, os acusados respondem ao processo pelos crimes de exploração de jogo do bicho, formação de quadrilha armada, crime contra a economia popular, lavagem de dinheiro, formação de cartel e falsidade ideológica. A arrecadação do jogo alcançava o montante diário de R$ 1 milhão. Durante as prisões, R$ 2 milhões em dinheiro foram apreendidos, além de máquinas caça-níqueis, computadores, documentos e equipamentos eletrônicos usados no esquema. Parte do dinheiro estava em uma mala, enquanto outros valores estavam depositados em conta no Banpará.
O trabalho de investigação apurou que as apostas registradas eram feitas em cima de concursos fraudulentos. O objetivo era aumentar o lucro dos contraventores. Um fato chamou a atenção dos policiais e integrantes do Ministério Público: boa parte do dinheiro da quadrilha era investida em imóveis em Belém, adquiridos em nomes de ‘laranjas’. Os envolvidos tiveram os bens sequestrados, e as contas pessoais, bloqueadas.
(Diário do Pará)
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