Mais do que nunca se afigura verdadeira, na conjuntura atual, a velha máxima criada pela sabedoria popular ao tucupi, que diz ser o Pará não um problema para o Brasil, mas uma solução para os problemas brasileiros. Se não é a salvação da lavoura, como se costuma dizer, o Pará foi, sim – e continua sendo –, parte da salvação do orçamento cambial brasileiro em 2013, contribuindo decisivamente para a acumulação de reservas e para o resultado positivo, ainda, da balança comercial.
Mas é em outro campo – o setor elétrico – que o Pará realmente se apresenta no momento atual, aí sim, como verdadeiro salvador da pátria, evitando um severo racionamento de energia, que de outra forma seria inevitável, e literalmente livrando a cara do governo em pleno ano eleitoral. Sem isso seriam, portanto, dois vexames: um apagão no setor elétrico e déficit no saldo do comércio exterior.
Sobre a crise do setor elétrico, um prestigiado técnico paraense, fazendo coro aos seguidos alertas emitidos por especialistas do setor em todo o país, classificou ontem como “crítica” a situação e advertiu que, tecnicamente, o governo já deveria decretar um “racionamento suave” como forma de minimizar possíveis danos futuros.
“Ele (o governo) não vai fazer isso para não se fragilizar politicamente e para não assumir preventivamente os riscos eleitorais contidos na decisão”, completou. Segundo o especialista, a situação hoje vigente no tocante à capacidade de geração das principais hidrelétricas brasileiras – excetuando-se as da Região Norte – pouco difere daquela que, nos idos de 2001, obrigou o então presidente Fernando Henrique Cardoso a se render à necessidade do racionamento.
E a coisa só não está pior, segundo ele, exatamente por causa das medidas emergenciais adotadas naquela época pelo Ministério de Minas e Energia. Como forma de reduzir os riscos decorrentes das condições climáticas e das oscilações do regime de águas nas principais bacias hidrográficas do país, onde se concentram as grandes hidrelétricas que alimentam o sistema interligado nacional, o governo FHC determinou, na época, a construção de várias termelétricas. “São essas usinas, movidas a diesel ou gás, que estão ajudando a manter o precário equilíbrio do sistema elétrico”, completou.
Ele observou que, recentemente, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) assumiu publicamente a gravidade do problema. De acordo com o ONS, o nível dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por 70% da capacidade instalada do sistema interligado nacional, estava em 34,6%. Este é praticamente o mesmo patamar da média registrada em março de 2001, que era na época de 34,5% - exatamente quando o governo decidiu adotar o racionamento.
E o pior, segundo ele, é que as perspectivas para as duas regiões não são nada animadoras em relação ao corrente mês de março, visto que a previsão é de que as chuvas continuarão fracas e insuficientes para elevar os níveis dos reservatórios. Tanto no Sudeste quanto no Centro-Oeste, está sendo esperada pelos centros de estudos meteorológicos uma quantidade de chuvas não superior a 67% da média histórica. Em termos absolutos, uma ligeira melhora sobre a situação de janeiro e fevereiro, mas muito longe de poder tranquilizar o governo e dar segurança aos grandes consumidores brasileiros.
ENERGIA
Muito diferente é a situação no Pará, onde a hidrelétrica de Tucuruí, a maior genuinamente brasileira, vem operando a plena carga desde a segunda quinzena de janeiro. Ou seja, ela vem gerando ininterruptamente um volume de energia equivalente a 8.370 megawatts (MW), dos quais mais de três quintos são injetados diretamente no sistema interligado nacional. “Se não fosse por isso, o Brasil já estaria sob racionamento de energia elétrica”, afirma o técnico paraense, um alto executivo do setor.
A dramática situação atual ajuda a explicar também o empenho do governo em levar adiante, ignorando todo tipo de questionamentos, as obras de construção da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, cuja potência instalada será de 11.333 MW. Superior, em termos nominais, à de Tucuruí, mas ambas equivalentes no tocante ao volume de energia firme, estimada em torno de 4.500 MW. Considerando o regime de chuvas nas diferentes regiões do país, a usina de Belo Monte, a exemplo do que acontece com Tucuruí, vai desempenhar um papel estratégico na manutenção do equilíbrio do sistema elétrico brasileiro.
No caso de Tucuruí, a expectativa é de que a hidrelétrica possa continuar funcionando com sua capacidade máxima até o fim de abril, pelo menos. Hoje, ela opera a plena carga e ainda continua vertendo água, o que, no jargão do setor, significa desperdício de energia.
Esse período de bonança varia de acordo com a intensidade das chuvas na região, mas já houve ano em que a hidrelétrica de Tucuruí se manteve operando com sua capacidade máxima até o mês de junho.
Com ligeiras variações, é o que deverá acontecer também, no mesmo período do ano, com a hidrelétrica de Belo Monte. Recentemente, por exemplo, o rio Xingu, na região de Altamira, alcançou a cota 97,60, ultrapassando em 60 centímetros aquela que será sua cota máxima quando for fechada a barragem. E o nível das águas deverá continuar subindo. Há dois anos, ele chegou a 98,4. Mas foi 25 anos atrás, no nos idos de 1988, que ele registrou a maior enchente do século, praticamente atingindo a cota 100.
Com esse regime de águas nos rios da Amazônia, as hidrelétricas do Pará vão fazer bombar de energia o sistema interligado nacional em seus momentos mais críticos, exatamente quando baixam os níveis dos reservatórios nas regiões que ainda são – e só por enquanto - as maiores geradoras do Brasil.
(Diário do Pará)
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