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TCU mostra o motivo do caos na saúde do Pará

A falta de gestão na saúde pública do Pará e consequente ausência de políticas de valorização e organização do quadro de servidores da área, priorização nas contratações de funcionários e na estruturação dos hospitais públicos são as principais causas que

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A falta de gestão na saúde pública do Pará e consequente ausência de políticas de valorização e organização do quadro de servidores da área, priorização nas contratações de funcionários e na estruturação dos hospitais públicos são as principais causas que estão levando incontáveis cidadãos paraenses ao óbito nos últimos anos. Um amplo relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), baseado em auditorias realizadas nas 27 unidades federativas do Brasil mostrou um quadro de abandono e desleixo principalmente nos sistemas de saúde pública do Norte e do Nordeste do Brasil.

Chama a atenção no caso do Pará o fato de o Estado estar sempre entre os piores desempenhos dentre os avaliados pelo TCU e ser, entre as unidades federativas comparadas, o de maior arrecadação, sobretudo recurso gerado dos royalties de mineração. Somente no ano passado foram mais de R$ 800 milhões que caíram nos cofres do Estado gerados pelo setor mineral, o que grosso modo, apenas à título de comparação, poderia significar cerca de R$ 11 mil por habitante.

O TCU analisou 116 unidades hospitalares em todos os estados e Distrito Federal. No caso do Pará, foram avaliados os principais hospitais regionais. O trabalho mostrou que 81% das unidades hospitalares analisadas apresentavam déficit no quadro de profissionais. O TCU mostra que a deficiência, por sua vez, é apontada como o principal motivo para o bloqueio de leitos.

O Tribunal verificou a quantidade de leitos hospitalares disponíveis. Tanto o Pará quanto os demais estados da região Norte não obedecem aos parâmetros estipulados pela Portaria GM/MS nº 1.101/2002, do Ministério da Saúde, que estabeleceu de 2,5 a 3 leitos hospitalares totais para cada mil habitantes. No Pará, os leitos disponibilizados não chegam a 2,07 por cada mil habitantes. Em 2013, segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, havia no mundo 2,7 leitos para cada mil habitantes. Nas Américas, essa média caía para 2,4 e na Europa subia para 6,0.

SEM LEITOS E MÉDICOS

Sobre a quantidade de leitos existentes e de leitos indisponíveis (bloqueados), em diversas categorias (leitos cirúrgicos, clínicos, crônicos, de cuidados intermediários, pediátricos, obstétricos, UTI adulto, UTI pediátrica e UTI neonatal), o Tribunal constatou que o maior problema está nos estados da região Norte, com 15% de leitos indisponíveis. Roraima, Pará e Amapá apontaram que o maior percentual de leitos indisponíveis está nas unidades de terapia intensiva (UTIs), tanto de adultos (15%) quanto nas UTIs pediátricas (28%) e ainda leitos pediátricos comuns (23%).

Roraima, Pará, Amapá, Maranhão, Piauí e Bahia – nessa ordem – não conseguem ofertar a quantidade mínima de leitos de UTI estipulada pelo Ministério da Saúde, que varia entre 4% a 10% dos leitos hospitalares, segundo a mesma Portaria GM/MS nº 1.101/2002. O Pará e os demais estados ofertaram menos de 4% de leitos de UTI em relação ao total de leitos, considerando apenas os leitos disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os hospitais auditados pelo TCU informaram que o principal motivo da indisponibilidade de leitos é a carência de profissionais: 12% desses leitos estavam bloqueados por falta de médicos, 16% devido à ausência de enfermeiros e 18% em decorrência da inexistência de algum outro profissional. Problemas de manutenção ou estrutura predial foram o segundo motivo apontado (18%). Em seguida, foram citadas questões relacionadas a equipamentos (falta 11% e manutenção 7%).

A unidade técnica do Tribunal de Contas da União considerou relevante o fato de que a não utilização de leitos hospitalares decorra da falta de profissionais. “Cumpre ressaltar que os motivos “falta de enfermeiros” e “falta de outros profissionais” foram citados com mais frequência que a “falta de médicos””, revelou o relatório do TCU.

NÚMEROS AFRICANOS

No quesito “falta de médicos”, o Pará só perde para o Maranhão, cuja relação é de 1 médico para cada 1,260 habitantes. No Pará, essa relação é de 1 médico para cada 1.094 pessoas, semelhante, segundo o TCU aos países da África. Já no Distrito Federal, o número sobe para 4,09, um índice comparável ao da Noruega, aponta o tribunal.

Segundo o TCU, os menores índices de postos de trabalho público ocupados por médicos estão Pará (0,89), Maranhão (0,98) e Mato Grosso (1,18). Em contrapartida, os maiores estão no Rio de Janeiro (3,63), em São Paulo (3,04) e no Distrito Federal (2,79).
Na região Norte, a média é de 10 médicos para cada 10 mil pessoas, abaixo da média nacional de países como Trinidad e Tobago, Tunísia, Tuvalu, Vietnã, Guatemala, El Salvador ou Albânia.

APENAS 15 MINUTOS PARA CADA PACIENTE

De acordo com o TCU, além de contar com poucos médicos para atender sua imensa população, no Pará, assim como em outros estados, é comum a existência de arranjos que desvinculam o profissional de sua jornada e do quantitativo de horas para o qual foi contratado. Nesses casos, o regime de trabalho é estabelecido em função do número de pacientes atendidos ou procedimentos realizados. “Exemplo dessa situação foi verificada no Pará, onde médicos que deveriam cumprir uma jornada de quatro horas atendiam dezesseis pacientes por dia, alegando estarem obrigados a atender um paciente a cada quinze minutos”, revela o relatório.

O relatório apurou número insuficiente de técnicos de enfermagem nas unidades visitadas pela auditoria, o que implicaria na falta de leitos ofertados. Foi destacada a carência de fisioterapeutas, patologistas, psicólogos, assistentes sociais e assistentes administrativos e, no caso do Pará, também de profissionais do setor de limpeza e para os refeitórios.

“O resultado dessa pesquisa desperta atenção pelo fato de o déficit de médicos – atual epicentro de notícias, debates, análises e políticas públicas – ter sido apontado como menos impactante para a existência de leitos bloqueados que a insuficiência de profissionais de enfermagem, o que pode demonstrar a necessidade de uma discussão mais ampla acerca da situação do quadro de pessoal que atua na saúde pública do Brasil” revelam os técnicos do TCU.

Outra causa apontada para a carência de recursos humanos, segundo o relatório, foi uma “suposta inadequação da política de recursos humanos adotada pelos entes contratantes, devido à ausência de ações direcionadas para fortalecer a carreira dos profissionais de saúde”.
O Tribunal de Contas concluiu que, “a ausência de políticas consistentes de recursos humanos tem prejudicado a permanência de profissionais nas unidades para as quais foram designados. A saída desses profissionais tem ocasionando o não cumprimento de jornada de trabalho e os pagamentos excessivos de horas extras ou plantões”.

SUPERLOTAÇÃO DE PACIENTES EM HOSPITAIS

A superlotação foi registrada pelos auditores do TCU. Pelo menos 47% dos gestores dos 116 hospitais afirmaram que muitas vezes ou sempre há pacientes alocados nos corredores da unidade (pacientes acomodados em cadeiras, macas ou colchões nos corredores por falta de leitos). A existência de quartos com quantidade de pacientes acima da capacidade máxima planejada foi apontada por 47 das 116 unidades, sendo que em 18% esse fato ocorre poucas vezes, em 12% sempre ocorre e 10% acontecem muitas vezes.

O maior problema foi constatado nas unidades de emergência onde, segundo o Tribunal, “a perda da qualidade na prestação do atendimento, a sobrecarga dos profissionais das emergências, a tensão na equipe assistencial e o consequente aumento da mortalidade podem ser listados como alguns dos efeitos da superlotação das emergências hospitalares no Brasil”.

A dificuldade para transferir pacientes para outras unidades, principalmente para UTIs, contribui para a superlotação e evidencia dificuldades na regulação e gestão dos leitos, foi confirmada por 78% das 116 unidades visitadas.

Durante as entrevistas, as equipes do TCU solicitaram aos gestores dos hospitais públicos que elencassem os principais motivos que ocasionaram a falta ou insuficiência de insumos e medicamentos, conforme constatado. A maioria dos gestores, 59% da amostra, apontou falhas nos processos de licitação e compras, centralizados nas secretarias de saúde. 18% indicaram falhas no gerenciamento do estoque central, que está sob a responsabilidade da Secretaria de Saúde.

No caso do Pará, o que chamou mais a atenção dos fiscais foi a ausência de sistemas informatizados para controlar os medicamentos. “Cabe frisar que o gestor de um hospital visitado no Pará relatou uma alta ocorrência de desvio de medicamentos do estoque, o que é facilitado pelo controle deficiente dos fármacos. A consequência mais óbvia e imediata da insuficiência de medicamentos e insumos é a restrição à realização de procedimentos”, revela o relatório.

Nesse sentido, a equipe do TCU no Pará ressaltou que: “Foram relatados casos de não realização de cirurgias por falta de anestésico inalatório no centro cirúrgico e fio para cirurgia vascular. Por sua vez, uma das unidades informou que sofre restrições na realização de procedimentos em razão de falta de antibióticos, placas e parafusos para cirurgias ortopédicas”.

(Diário do Pará)

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