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Idesp mapeia a geração de renda no Estado

Percorrendo seis regiões de integração do Pará – Baixo Amazonas, Guamá, Rio Caeté, Xingu, Marajó e Tocantins – em busca de informações consistentes sobre os sistemas de extração e comercialização dos produtos florestais não madeireiros (PFNM), o Instituto

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Percorrendo seis regiões de integração do Pará – Baixo Amazonas, Guamá, Rio Caeté, Xingu, Marajó e Tocantins – em busca de informações consistentes sobre os sistemas de extração e comercialização dos produtos florestais não madeireiros (PFNM), o Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp) identificou a presença de uma chamada economia invisível que gira em torno da extração dos produtos das regiões de floresta que compõem o Estado. Concluída em 2010 e publicada em 2012, a pesquisa voltou a ser discutida na segunda quinzena de março, na primeira edição do ano da série de seminários “Diálogos sobre Desenvolvimento”.

Ainda que com grande movimentação de mão de obra e geração de renda, a economista e pesquisadora, Ellen Claudine Cardoso Castro aponta a falta de informação como limitador da geração de cadeias de comercialização próprias do Estado. “O objetivo é mostrar as cadeias de comercialização existentes para o Estado subsidiar políticas públicas. A maioria desses produtos gera uma economia invisível para o Estado do Pará, que não é contabilizada”, aponta. “Ela existe, gera renda, mas é invisível para muitos atores no meio político”.

Sobre os desafios e os resultados encontrados durante a realização das entrevistas no período de 2008 a 2010, em conjunto com a pesquisadora e engenheira agrônoma Ana Cristina Parente, Ellen Claudine conversou com os repórteres Frank Siqueira e Cintia Magno. Confira:

P: O estudo aponta que alguns produtos despertam grande interesse internacional e são pouco conhecidos aqui. Quais são esses produtos que despertam maior interesse?
R: No [na região do] Tocantins, encontramos o pracaxi que não é comercializado no Estado do Pará, mas é comercializado internacionalmente para a Europa. Ela é uma oleaginosa que tem um poder de reconstituição da pele muito grande, tem um alto poder de cicatrização e é muito utilizado para celulites e estrias. No Guamá, encontramos outros produtos também na área de cosmética com muito potencial como a priprioca, o estoraque e o murumuru, que têm suas cadeias de comercialização aqui, onde existem duas empresas que beneficiam esses produtos e passam para indústrias maiores de cosmética no Brasil. No Baixo Amazonas, o cumaru tem grande potencial e tem sua cadeia de produção, mas que vai toda para o Japão e, por isso, não conseguimos concluí-la. O cumaru é um aromático, na verdade, utilizado por vários produtos e com uma aplicação em cosméticos, indústrias de panificação... Na região de integração do Caeté, destacamos o murumuru, que é uma oleaginosa muito utilizada na cosmética, que detém certa tecnologia para a retirada do óleo, mas a maior vai para fora do Brasil.

P: No caso de alguns produtos, ficou identificada uma possível aplicação na indústria farmacêutica?
R: Identificamos em campo que existe sim uma aplicação, mas que o Estado do Pará não tem tecnologia para retirada da porcentagem do óleo aqui. Identificamos somente duas indústrias que têm a tecnologia para a retirada. As cooperativas locais fazem, mas muito rudimentar ainda. Então, eles acabam perdendo a matéria prima por não deterem a tecnologia adequada.

P: O Idesp pretende buscar, a partir desse estudo, uma aproximação com instituições para aprofundar essa pesquisa e, talvez, desenvolver algum tipo de mecanismo para permitir que esse conhecimento, ainda empírico, possa chegar até a utilização prática na indústria? Como é que vocês vão trabalhar com esses resultados?
R: No início, o projeto teve uma grande preocupação, que era identificar quais são esses produtos que existem no Estado do Pará com um grande potencial, onde eles estão e para que eles servem. Quando chegamos na segunda região de integração, tivemos uma parceria com o Ideflor (Instituto de Desenvolvimento Florestal do Estado do Pará), que teve essa visão, pegou esses relatórios e começou a mapear para começar a trabalhar. Mas o nosso objetivo maior é mostrar, para o Estado subsidiar políticas públicas, as cadeias de comercialização existentes porque a maioria desses produtos gera uma economia invisível para o Estado do Pará que não é contabilizada. Ela existe, gera renda, mas é invisível para muitos atores no meio político.

P: Vocês conseguiram identificar o que tem limitado, hoje, o desenvolvimento da produção desses produtos no Estado?
R: Sim, chegamos a comunidades que têm, por exemplo, muita andiroba, mas que ninguém compra; que têm muito murumuru, mas que não sabem como extraí-lo e ele acaba sendo dado para os animais comerem. Então, eles acabam perdendo produção por falta de informação e por não conhecerem a cadeia de comercialização deles. Se eles tiverem essa informação, vão saber para quem vender, como vender e a que preço vender. E isso eles não têm conhecimento.

P: É um potencial que está sendo um pouco perdido, então?
R: Bastante. Algumas vezes nós identificamos, com essa pesquisa, produções belíssimas, mas que ficam perdidas. Tem gente que deixa a pupunha cair porque não tem para quem comercializar, não tem escoamento, não sabe para quem vender. Eles têm uma boa produção, mas está faltando um elo ali na cadeia para poder fechar. Falta até uma atuação do Estado para poder indicar essas setas da cadeia de comercialização.

P: Desses produtos que vocês trabalharam, quais são aqueles que, ainda que precária, têm uma cadeia de comercialização com uma razoável eficiência? Ou não há essa cadeia?
R: A cadeia do açaí está bem estruturada. O cacau amêndoa também está bem estruturado, mas ele não gera muita renda porque aqui não tem uma agroindústria para chocolate. Falam que o nosso cacau é melhor que o da Bahia por causa da polpa, mas sai tudo in natura daqui. Então, aqui no Estado do Pará, o problema é que eles saem in natura. Eles não são transformados, beneficiados aqui e sim lá fora, a maioria deles.

P: O cacau é uma cadeia, na verdade, industrial, não é?
R: É, aqui não tem. Havia, até então [no período de aplicação do estudo], uma fábrica de chocolates que estava sendo montada. No tempo em que fizemos a pesquisa, ela estava sendo inaugurada, só que não sabemos como está hoje. Mas acredito que ela não tenha capacidade produtiva para suprir a necessidade do Estado.

P: Além do caso do cumaru, comercializado para o Japão, vocês identificaram a existência de alguma instituição ou, até mesmo, investidor estrangeiro atuando aqui na região suprindo essa falta de cadeia produtiva?
R: Em Mocajuba encontramos uma empresa norueguesa e, em conversa com o representante da empresa, ele pegou um compasso e fez um círculo [no mapa] em cima da Região do Tocantins e falou ‘daqui eu vou retirar os produtos florestais não madeireiros (PFNM)’. Ele coloca em um barco não só os PFNM, mas cipós, sementes, tudo... curuatá, cacho de pupunha seca, cacho de açaí seco, semente de açaí, inajá. Ele coloca tudo em um navio, manda embora e a gente não sabe o que ele faz com isso. É muita coisa. Tudo que ele consegue tirar da floresta naquela região do Tocantins, ele leva para a Noruega.

P: O que vocês acreditam que está faltando, então, para que se crie essa cadeia aqui e não deixe apenas sair? Políticas públicas, informação, um trabalho melhor com essa comunidade?
R: Tem que partir dos municípios também porque cada região mostrou um potencial de determinadas cadeias, e o mais legal que percebemos, também, é que muitas regiões importam produtos de outras regiões e beneficiam os produtos para elas. Caeté, por exemplo, quando não tem açaí, pega o açaí de Igarapé-Miri. É uma importação de produtos e isso acontece no Estado do Pará todo. O Marajó tem uma ligação muito forte com o Amapá. Às vezes a gente se confunde, não sabe se o açaí é do Amapá ou se é do Pará, e eles até falam do ABC do açaí, que inclui Afuá, Breves e Chaves, os maiores produtores de açaí. Então, acaba se misturando, mas o legal é que a metodologia [do estudo] consegue identificar qual é a produção local da região e qual é a extra local. Se os municípios reconhecerem isso, tem como se trabalhar melhor a geração de renda dessas cadeias produtivas para esses municípios.

P: A comunidade local também se mostra interessada, caso mostrem a eles como trabalhar com isso?
R: Os contatos com as cooperativas são muito bons. Quando a gente começa a falar nossa proposta de identificação das cadeias de comercialização, elas ficam maravilhadas. Temos até hoje contato com elas porque elas ligam para pedir informação. Então, a falta de informação é o que mais dificulta a comercialização desses produtos.

P: Na região do Xingu, por exemplo, que se acredita que seja a mais preservada, com maior extensão de floresta, que produtos vocês apontariam como de maior potencial?
R: O cacau; o urucum, que sai muito para abastecer indústrias alimentícias; castanha do Brasil; cupuaçu e o artesanato é muito forte. Mas com potencial mesmo para fora é o cacau, o urucum e a castanha do Brasil.

P: Foi possível identificar, em algum momento, a participação de outras instituições de pesquisa e estudo, sobretudo, da área científica, trabalhando também nessa linha de identificação de produtos?
R: No Baixo Amazonas temos a UFOPA [Universidade Federal do Oeste do Pará] que estava trabalhando com óleos aromáticos e que trabalha muito com a indução de produção.

P: Concluída a pesquisa em campo, que continuidade teve o estudo?
R: Essa pesquisa chamou muita atenção no cenário nacional pelo Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada (Ipea) em 2011. O Ipea abriu um edital, nós participamos e fomos multiplicadores da metodologia. Até hoje o Idesp é o único instituto que detém a metodologia para realizar esse estudo. Qualificamos o Estado do Amapá junto com a Unifap [Universidade Federal do Amapá] e a Secretaria de Meio Ambiente do Amapá e o Maranhão com o Instituto de Pesquisa do Maranhão. Ficamos sabendo em 2010 que a metodologia está sendo utilizada na Guatemala também desvendando a economia invisível, então a metodologia está demonstrando resultados muito positivos em relação à economia invisível de geração de emprego e renda. Esse estudo está sendo finalizado esse mês e queremos lançar um livro, juntamente com esses institutos, até o final do ano.

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