As manifestações de rua em junho de 2013 levantaram para o debate público a questão do preço das tarifas de ônibus e transportes públicos. Acuado pela pressão popular, o governo federal apresentou algumas medidas imediatas para redução, ao mesmo tempo que solicitou ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que realizasse estudo para esclarecer os principais desafios do transporte público. Passados quatro meses, o Ipea apresentou um relatório onde destacava uma categoria até então pouco lembrada nas discussões sobre a mobilidade urbana – os excluídos do transporte. Essa categoria de cidadãos engloba pessoas cujo acesso ao transporte público é muito difícil pela dificuldade em pagar as tarifas e pelo isolamento dos principais corredores e vias.
O destaque para a categoria dos excluídos do transporte ajuda a jogar luz para uma realidade bem próxima em nosso Estado. “O sistema de trânsito em Belém é muito deficiente. Você paga uma tarifa integral independente da distância que pretenda percorrer, e isso acaba afastando algumas pessoas com menor poder aquisitivo. Além do mais, temos poucos corredores de tráfego e muitas áreas com abrangência pequena de ônibus. A partir de determinada hora você não encontra praticamente ônibus nas ruas”, explica Rafael Cristo, pedagogo e especialista em trânsito.
O NÓ DAS POLÍTICAS
Rafael aponta a falta de políticas públicas como um dos principais motivadores desse processo de exclusão do trânsito. “As empresas levam também em consideração a falta de segurança e outros fatores quando determinam seus itinerários e horários, mas pensar num transporte que integre a cidade passa por estímulos e incentivos da gestão pública. Essa falta de políticas gera algumas situações extremas, como é o caso do sistema de trânsito de Marituba”, aponta Rafael.
Marituba, cidade com a terceira maior densidade de moradores por quilômetro quadrado da Região Metropolitana de Belém, tem seu sistema de transporte comandado por apenas três cooperativas, cujos itinerários, basicamente, fazem trajetos longos entre alguns setores da cidade e o centro de Belém. “Não se vê, praticamente, ônibus integrando Marituba com Ananindeua e Benevides. Isso torna a locomoção truncada. Você precisa pegar muitos ônibus para chegar a locais próximos, o que encarece o processo. Isso se reflete em muitos ônibus transitando pelas mesmas vias, tornando o trânsito lento, além de obrigar os moradores não abrangidos pelo transporte público a investir em transportes privados, como a compra de motos”, explica Rafael, explicando que esse é um fenômeno comum a todas as regiões com exclusão no trânsito.
Rafael acredita que uma saída para enfrentar esse problema passa pela substituição do atual sistema por um sistema integrado ou troncal de transporte urbano, além da adoção de medidas tarifárias diferentes, como o bilhete único, que já vigora em outros centros urbanos.
“Se trabalhássemos com terminais de integração e redes de ônibus ligando os bairros a esses terminais, reduziríamos o tempo das viagens e a demora no trânsito. Mas esse sistema precisa ser aliado de um sistema integrado de passagem, onde a pessoa pague uma tarifa diferenciada para viagens de menor distância. De toda forma, é fundamental que esse planejamento de trânsito se dê de forma integrada por região. Na Região Metropolitana de Belém, por exemplo, temos cerca de 2,1 milhões de pessoas utilizando o transporte público. Então uma solução para trânsito precisa pensar em todo esse contingente”, diz o especialista.
COOPERAR É A REGRA
A ilha de Mosqueiro, situada a 70 quilômetros de Belém, por si só já é uma região que apresenta dificuldades na área de transportes. Porém, dentro dos seus limites, há uma comunidade que exemplifica como poucas o sentido da exclusão. Atravessando a BL-13, estrada de areia batida que sai da longa Estrada da Baía do Sol, encontramos o assentamento Mártires de Abril, um agrovila construída por camponeses ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, há aproximadamente 15 anos. Para ter acesso a ônibus e carros que levam ao centro da cidade, é preciso atravessar a estrada: os únicos veículos motorizados que eventualmente atravessam o assentamento são as motos dos moradores. De dentro do acampamento, além das casas humildes, o que se vê são árvores e plantas compondo a paisagem.
Leia a matéria na íntegra na Edição eletrônica do Diário do Pará
(Diário do Pará)
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