Um dos momentos mais aguardados de uma feira é o encontro com escritores. Mais do que a comercialização do livro em si, o espaço para a troca de informações, de carinho, o autógrafo recebido, tudo isso faz com que o livro ganhe vida, cara, rosto, sentimento, revelado pelo autor por trás da obra.
Não por acaso, em qualquer lugar do mundo, auditórios lotam para ouvir o que os mestres da palavra escrita têm a dizer. E dentro da programação Feira Pan-Amazônica do Livro não é diferente.
Para este ano, diversos encontros são aguardados. Um em especial: Milton Hatoum, escritor nascido em Manaus, vencedor de dois prêmios Jabuti de melhor romance - em 1989, com o romance de estreia “Relato de um Certo Oriente”; e, em 2006, com “Cinzas do Norte”. Amazonense de nascimento e com o Pará no coração, foi aqui que no ano passado ele participou das filmagens de “Órfãos do Eldorado”, seu primeiro livro adaptado ao cinema, tendo o ator Daniel de Oliveira como protagonista. E é do fotógrafo paraense Luiz Braga a capa da maioria de suas obras.
Antecipando o que esse encontro reserva, o Você conversou com exclusividade com Milton Hatoum. No bate-papo a seguir ele fala de sua amizade com o paraense Benedito Nunes, revela bastidores da vida de escritor e dá conselhos aos jovens aspirantes ao oficio.
Como é ser escritor?
É um trabalho estranho e solitário numa sociedade ou num mundo voltado quase exclusivamente para o mercado, para o consumo de bens materiais. A literatura não tem uma utilidade prática, mas pode ser uma forma de conhecimento dos outros e de nós mesmos
Um romance ou poema é um caminho de aprendizagem do ser humano. Nosso tempo desprezou a arte e optou pela banalidade. Mas é um erro grave apostar na baixaria e na trivialidade, como fazem muitos programas de tevê. A literatura vai num sentido oposto a tudo isso.
Como escritor você já passou por romances, contos, crônicas, poesias, diversos ensaios e críticas. Aventurou-se até pelo universo infanto-juvenil. Como se dá essa passagem por tantos gêneros? Elas refletem um mesmo Milton ou diversos?
Os gêneros literários são convenções. Mesmo assim, eles resistiram ao tempo, embora haja romances de alta qualidade poética em que é difícil separar a prosa da poesia. Em todos os meus textos de ficção há alguma coisa da minha experiência de vida e de leitura. Até certo ponto, eu sou um pouco dos personagens que invento. Felizmente não temos uma identidade fixa. O desdobramento de personalidades é uma das invenções da literatura, do teatro, da arte.
Em parceria com Benedito Nunes, você publicou “Crônica de Duas Cidades: Belém e Manaus”. Como é sua relação com a literatura paraense? O que te agrada, o que desgosta? E como foi publicar este livro reunindo as duas capitais?
É impossível conhecer tudo. Admiro a obra de vários poetas e escritores paraenses: Max Martins, Haroldo Maranhão, Dalcídio Jurandir, Vicente Cecim, João de Jesus Paes Loureiro. No ano passado, tive o prazer de conhecer a obra de dois poetas mais jovens: Marcílio Costa e Antônio Moura. Gosto muito dos contos de Maria Lúcia Medeiros. Lucinha e Benedito Nunes foram amigos muito queridos.
Escrever um livro em parceria com Benedito foi uma verdadeira aprendizagem. “Crônica de Duas Cidades” foi, na verdade, uma ideia do Bené, um dos nossos maiores críticos e pensadores. Reli as novas edições das obras dele, que ganhei de Maria Sylvia. O livro sobre Guimarães Rosa (“A Rosa o Que É de Rosa”) reúne alguns dos melhores ensaios já escritos sobre este grande escritor mineiro.
Desde seu primeiro livro você soube ser um escritor do Norte sem ser regionalista. Aborda o universo amazônico e ainda assim consegue concretizar histórias universais. Você trabalha isto de alguma forma ou foi um processo natural?
Não, não foi natural. Foi algo muito pensado e trabalhado. Demorei uns seis anos para escrever meu primeiro romance (“Relato de um Certo Oriente”), que agora faz 25 anos. Aliás, Benedito Nunes foi um dos primeiros a falar sobre essa questão: ser do Norte, sem ser regionalista. Ao Bené devo também um belo ensaio sobre o “Dois irmãos”, publicado no livro “A Clave do Poético”.
Quem foram seus mestres na literatura?
A vida. E, claro, e a leitura dos clássicos brasileiros e estrangeiros. Vida e leitura são atividades inseparáveis.
Feiras de literatura costumam reunir muitos jovens. Alguns deles, interessados em um dia escrever seus próprios livros. O que dizer aos jovens escritores?
É preciso ler livros de qualidade e nunca pensar em escrever um best-seller. É preciso dar tempo ao tempo de formação, da vida e da leitura. E, se não for pedir muito, leiam “O Tempo na Narrativa”, de Benedito Nunes. Nesse livro incrível, além da análise literária e filosófica sobre o “tempo” na ficção, há dezenas de referências de grandes romances. Quando eu era professor, usava esse livro, e os alunos o admiravam muito.
(Diário do Pará)
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