É uma sangria impressionante em um estado onde as unidades de saúde às vezes não possuem nem mesmo um comprimido pra dor de cabeça. Até o fim de sua administração o governador Simão Jatene deverá gastar pelo menos R$ 150 milhões em propaganda. É quase cinco vezes o que foi investido na construção do Hospital Metropolitano. É mais que o dobro do ICMS repassado pelo mesmíssimo governo, no ano passado, para o município de Ananindeua, com quase meio milhão de habitantes.
Pior: esses R$ 150 milhões que serão gastos em propaganda equivalem a 63 anos de ICMS do município de Melgaço, que possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) do Brasil e onde a população, de quase 26 mil pessoas, que não tem nem saúde nem saneamento, ainda amarga inacreditáveis 50% de
analfabetismo.
NÃO É PARA VOCÊ
Na verdade, esses R$ 150 milhões destinados à propaganda de Jatene representam uma enormidade de dinheiro para todas as cidades do Pará. Dos 144 municípios paraenses, só Belém e Parauapebas receberam mais de ICMS. Para Marabá, com mais de 251 mil habitantes e uma das locomotivas do sul e sudeste, os R$ 150 milhões representam quase o dobro de todo o ICMS que ela recebeu no ano passado. No caso de Santarém, com mais de 288 mil habitantes e outro dos maiores municípios do Estado, são quase cinco anos de ICMS. Mais: o valor de R$ 150 milhões corresponde a quase 40% de todas as despesas empenhadas, no ano passado, pela Prefeitura de Santarém.
O levantamento do DIÁRIO sobre a milionária propaganda de Jatene inclui apenas os gastos do Executivo e os números oficiais. Ou seja, ficaram de fora rubricas (classificações contábeis) nas quais o governador costuma camuflar despesas com propaganda. É o caso de “Serviços Gráficos”, rubrica na qual ele gastou, só em 2012, quase
R$ 13,5 milhões.
Nos cálculos também não entraram cerca de dez órgãos da administração indireta, cujos gastos com propaganda não aparecem nos balanços gerais do Estado (que registram todas as receitas e despesas do governo). Entre essas instituições está o Banpará, com um contrato de publicidade que, em 2013, superava R$ 3 milhões por ano. Em outras palavras: o levantamento do DIÁRIO é apenas a ponta do véu de uma gastança que é muito, mas muito maior.
Mas nem sempre foi assim. Segundo o Balanço Geral do Estado mais antigo disponível no site da Secretaria da Fazenda (Sefa), os gastos do Executivo com a “publicidade oficial” somaram, em 1996, R$ 6,4 milhões. E foi em 1997, no terceiro ano de governos tucanos, que veio o primeiro grande salto: só a “divulgação oficial” do Executivo consumiu mais de R$ 10,3 milhões, num crescimento superior a 60%.
CRESCEM OS GASTOS
Mas, como desgraça pouca é bobagem, de lá para cá a montanha de dinheiro torrada em propaganda nunca mais parou de crescer. Para 2014, a previsão oficial (a do Plano Plurianual, PPA) é que os gastos do governo do Estado com milhares de anúncios autoelogiosos em jornais, revistas, rádio e TV fiquem em mais de R$ 40,167 milhões - um aumento superior a 527%, em relação a 1996.
É uma contradição escandalosa, porque, enquanto crescia a propaganda, ao longo dessas quase duas décadas, o Pará verdadeiro, sem maquiagem, rolava ladeira abaixo em todos os indicadores sociais. Em 2000, por exemplo, já havia caído do 17 para o 19 lugar no ranking do IDHM do Brasil. Em 2010, despencara para o 24º lugar, empatado com o Piauí e à frente apenas do Maranhão e de Alagoas, o eterno lanterninha nacional.
Isso aconteceu porque o crescimento do IDHM do Pará, que foi de 56,41% entre 1991 e 2010, foi o quarto menor entre os 16 estados do Norte e Nordeste, as regiões mais pobres do País. Naquele período, nessas duas regiões, só Amapá, Roraima e Pernambuco cresceram menos que o Pará. Mas esses três estados sempre estiveram à frente do Pará, em termos de IDHM. E, se não conseguiu subir, mesmo crescendo mais do que esses três estados, é porque o Pará real, verdadeiro, não soube aproveitar o crescimento brasileiro para tirar o atraso, como fizeram vários estados outrora mais miseráveis do que ele.
É uma pena: se o IDHM tivesse crescido tanto quanto a propaganda, hoje o Pará seria campeão de desenvolvimento humano do Brasil. Não seria, como de fato é, o “vice-campeão” nacional de homicídios (só perde para Alagoas) nem viveria pagando mico nas reportagens das grandes redes de televisão. Melhor: seria admirado como um exemplo de sucesso em todo o Brasil, em vez de ser homenageado apenas por escolas de samba ligadas a bicheiros flagrados em milionárias negociatas com o governo estadual.
Leia mais informações no Diário do Pará:
Sob outras rubricas, gasto é de R$ 175 mi
(Diário do Pará)
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