O procurador da República em Santarém, Camões Boaventura, pediu à Polícia Federal que abra inquérito para apurar os fatos ocorridos no último dia 13 de maio, em Jacareacanga, no oeste paraense, quando vinte índios mundurukus foram agredidos por cerca de 500 pessoas. Dois indígenas, Rosalvo Kaba Munduruku e Francineide Koru Munduruku, saíram feridos nas pernas por disparos de rojões no momento em que deixavam a cidade depois de terem participado da ocupação da sede da prefeitura do município para protestar contra a demissão de 70 professores, todos da etnia, cujo contratos não foram renovados pela Secretaria de Educação.
Boaventura enviou ofício ao comando da Polícia Militar em Jacareacanga, cobrando “efetiva atuação” para controlar os ânimos na cidade e “preservar a integridade física de todos os envolvidos”. À Policia Federal, o procurador pediu que seja enviado reforço policial para o município. A preocupação de Boaventura é com a integridade física da população, principalmente dos índios, que formam mais de um terço dos moradores de Jacareacanga. Parte dos 9 mil índios vive nas aldeias ao longo do Rio Tapajós e seus afluentes. O clima na região ainda é tenso.
MANIFESTO
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) relatou ao Ministério Público Federal (MPF) de Santarém que, entre os agressores, havia garimpeiros que exploram ilegalmente ouro nas terras indígenas, comerciantes e até funcionários da prefeitura. O fim do contrato dos educadores indígenas para que eles continuassem lecionando nas aldeias já havia provocado, anteriormente, a ocupação pelos mundurukus dos prédios da Câmara Municipal e da Secretaria de Educação. Em nota, 140 entidades enviaram ao DIÁRIO um manifesto, rebatendo as argumentações apresentadas pela prefeitura para a não renovação dos contratos dos educadores.
Em novembro de 2012, uma operação desencadeada pelo Exército brasileiro, Força Nacional e Polícia Federal, denominada “Operação Eldorado”, cujo objetivo seria o de retirar garimpeiros ilegais das terras Mundurukus, teve como resultado a invasão de aldeias, “agressões morais e físicas contra idosos, mulheres e até mesmo crianças indígenas”, culminando com a morte de um índio, Adenilson Krixi, assassinado com um tiro na cabeça desferido pelo delegado da Polícia Federal Antonio Carlos Muriel Sanchez, comandante da operação. O crime, segundo as 140 entidades que assinam o manifesto, até hoje permanece impune.
“Escondido na cortina de fumaça jogada por esta operação estava o real objetivo de intimidar os índios mundurukus, que em junho do mesmo ano haviam participado do evento chamado Xingu+23, ocasião em que realizaram uma ação nos escritórios da Norte Energia, empresa que está construindo a UHE Belo Monte, posicionando-se diretamente contra esta obra, contra a construção de sete hidrelétricas na Bacia do Tapajós e contra as outras dezenas de usinas hidrelétricas previstas para os rios da Amazônia brasileira”, diz a nota.
DESRESPEITO
A prefeitura alega que os educadores que atuam nas aldeias não possuem nível superior e, por este motivo, não poderiam continuar lecionando. Para as entidades que assinam o manifesto, apenas os professores indígenas foram demitidos, enquanto os não-indígenas na mesma situação continuarão dando aulas. Também afirmam que os novos professores não dominam as disciplinas, principalmente as de artes, língua materna, cultura indígena, e muitas vezes não sabem falar munduruku, deixando vários alunos sem entender as aulas.
“Achamos isso um desrespeito aos direitos dos povos indígenas. Queremos o retorno imediato dos professores para as aulas”, afirma Paigomuyatpu Manhuary, ex-professor do 4º ano de ensino geral na aldeia Caroçal Rio das Tropas. Outro líder indígena, Kabaiwun Kaba, membro do Movimento Munduruku Ipereg Ayu, assinala que é a primeira vez, desde 2007, que as demissões acontecem. “A gente quer que eles recontratem os professores. Reunimos, reunimos e não definiram nada”.
Leia mais informações:
Demissões seriam perseguições políticas
(Diário do Pará)
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