Apesar da longa explicação sobre os projetos desenvolvidos pra atender aos que trabalham no lixão do Aurá, a apresentação realizada em sessão especial na manhã de ontem não satisfez os catadores que chegaram à Câmara Municipal de Belém (CMB) em três ônibus. Preocupados com a aproximação do prazo para se fechar o lixão - dois de agosto desse ano-, as cerca de duas mil famílias que sobrevivem da prática cobraram definições do poder público municipal.
O diretor de resíduos sólidos da Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan), Janari Pinheiro, apresentou dois projetos desenvolvidos pela prefeitura para atender às pessoas que trabalham no lixão. Principal dos impasses, a quantidade de catadores previstos para fazerem parte do projeto desagradou à categoria. “São dois programas que vão atender a 500 catadores para continuarem na cadeia produtiva e os outros 400 cadastrados já informaram que querem seguir para outros setores”, afirmou.
O primeiro dos projetos prevê o investimento de R$2,5 milhões para a implantação de um Centro de Triagem, onde 360 catadores trabalhariam. Já o segundo prevê a implantação de um sistema de coleta seletiva que ‘alimentaria’ o Centro de Triagem e que envolveria 140 catadores. Para o projeto de coleta seletiva, a proposta é que os catadores sejam contratados pela empresa vencedora do processo licitatório. “O complexo de triagem já está sendo construído”, pontuou. “São 500 beneficiados com o Centro de Triagem e com a coleta seletiva, que são os que optaram por continuar trabalhando com isso”.
CRÍTICAS
Iniciando seu pronunciamento com a informação de que 1.800 catadores foram cadastrados e que mais de 260 não conseguiram ser incluídos, a presidente da Associação dos Catadores do Aurá, Ana Lúcia Moraes deixou claro que a categoria não concorda com a forma como o projeto está sendo realizado. “No dia 2 de agosto, em cima do Aurá vai ser um massacre. Esse galpão que falam tá previsto pra ficar pronto em um ano e seis meses e o que a gente vai fazer durante esse um ano e seis meses?”, questionou, sob os aplausos dos demais catadores que lotaram o plenário. “Dia dois esse lixão não pode fechar. O Congresso aprovou uma política nacional de resíduos sólidos e, mesmo assim, não temos perspectiva de nada”.
Ana Lúcia destacou as exigências da categoria e a preocupação com a falta de perspectiva. “Vão colocar 300 catadores num galpão... não vamos conseguir sobreviver assim”, criticou. “Queremos uma indenização pelos nossos trabalhos porque se forem buscar, conseguem indenização pro catador. Queremos que criem uma comissão de meio ambiente e direitos humanos, que criem meios jurídicos pra não deixar tirar os catadores no dia dois de agosto e uma moção de apoio aos catadores pra aumentar esse prazo. O dia 2 de agosto tá na porta e nada tá acontecendo”.
O promotor de Justiça Bruno Beckembauer reconheceu, em plenário, a luta dos catadores. “Enquanto representante do Ministério Público, queria dizer que estamos dando a atenção devida a vocês”. “O que podemos perceber aqui é que o município não ouviu os catadores. Não houve essa equação de interesses entre catadores e município porque há esse desencontro dos discursos”, avaliou o defensor- chefe da Defensoria Pública da União no Pará, Cláudio Luiz Santos.
Também participaram da sessão os vereadores Orlando Reis e Sandra Batista. Com a sessão encerrada antes da liberação da fala para o plenário repleto de catadores, os trabalhadores saíram da CMB revoltados.
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