Publicada recentemente na revista internacional Conservation Biology, pesquisa aponta que 47 espécies de aves podem ter desaparecido na região metropolitana de Belém nos últimos 200 anos.
Os últimos registros destes animais foram antes de 1980. Este é um dos grupos que sofreram perdas dentro da Área de Endemismo Belém, a mais ameaçada da Amazônia, com apenas 28% de floresta original. A pesquisa foi realizada pelo INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia e a Rede Amazônia Sustentável (RAS).
A pesquisa é liderada pelos ornitólogos Nárgila Moura, Alexander Lees e Alexandre Aleixo, todos vinculados ao Museu Emílio Goeldi (MPEG).A partir de uma análise de coleções científicas e de documentos históricos, como os relatos de naturalistas do século XIX, os pesquisadores puderam identificar 329 espécies de aves de terra firme que ocorriam na região metropolitana. Destas, 14% não foram mais vistas, o que pode significar uma perda de 0,28 espécies por ano.
COMPARAÇÃO
Os dados históricos foram comparados aos inventários de biodiversidade de Paragominas (PA), um dos locais de estudo do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia e da Rede Amazônia Sustentável. O município é o que possui a maior extensão de florestas na área de endemismo Belém.
Os pesquisadores identificaram que as espécies que desapareceram têm ocorrência restrita às áreas de floresta intactas em Paragominas. A hipótese da extinção local está relacionada à suscetibilidade destas aves à perda de habitat e à caça.Treze espécies registradas antes de 1900 possuem massa superior a 1 Kg. São aves de caça, aves de rapina e psitacídeos de alto valor comercial, como o jacamim-de-costas-escuras (Psophia obscura), gavião-real (Harpia harpyja) e ararajuba (Guarouba guarouba), respectivamente.
A explicação que os pesquisadores dão é a de que as extinções destes animais maiores ocorreram devido à caça para alimentação, além da perseguição de aves que atacavam criações de animais e do comércio ilegal.Outras causas prováveis estão relacionadas às perdas e aos distúrbios florestais, associados à construção da estrada de ferro Belém-Bragança, de 1883 a 1908, e o consequente aumento da população e número de assentamentos na década de 1960.
Segundo Dr. Alexander Lees (Museu Goeldi), que já estuda aves na Amazônia há mais de 10 anos, “a extinção de aves pode significar a perda de serviços ecossistêmicos e de espécies que regulam a população de outros animais. Assim, o ambiente fica em desequilíbrio, o que pode gerar um efeito em cascata”. As aves são um dos grupos de animais mais bem estudados no mundo e a perda delas serve também como um sinal para a provável perda de outros vertebrados, plantas e insetos nos remanescentes florestais da Amazônia.
Para a autora principal do estudo, Dra. Nárgila Moura (Museu Goeldi), a pesquisa é de grande importância para a proteção da biodiversidade local. “A região de Belém ainda possui floresta dentro e ao redor, unidades de conservação que estão sendo desmatadas e degradadas a cada ano. O nosso trabalho serve de alerta para que essas áreas sejam protegidas com mais rigor e que políticas de recuperação florestal sejam implementadas para garantir a proteção das espécies que ainda persistem na região”.
PARA A SOCIEDADE
A coordenadora do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, Ima Vieira (Museu Goeldi), aponta a necessidade de aproximar informações como esta, geradas pela ciência, da sociedade em geral. “Os processos educativos atuais, por exemplo, são muito fragmentados, não permitindo que os estudantes construam uma noção equilibrada a respeito dos problemas socioambientais em seu contexto amazônico. Por isso, a implantação de políticas públicas que visam mudanças de comportamento em relação ao meio ambiente e à Amazônia, em particular, devem envolver planejamento e metas de longo prazo com vistas a construir novos padrões de relações entre ciência, tecnologia e sociedade”.
Sete espécies extintas ainda podem ser vistas no Museu
Das 47 espécies listadas no artigo, sete ainda podem ser vistas no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG): urubu-rei (Sarcoramphus papa), gavião-real (Harpia harpyja), arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus), ararajuba (Guarouba guarouba), arara-piranga (Ara macao), mutum-cavalo (Pauxi tuberosa) e arara-vermelha-grande (Ara chloropterus).
Durante o mês de junho, a Escola da Biodiversidade Amazônia (Ebio) do INCT Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia, educadores, biólogos e veterinários do Museu Goeldi desenvolverão atividades de educação chamando atenção para o trabalho realizado pelo Parque Zoobotânico no abrigo de espécies de aves ameaçadas na região.
(Diário do Pará com informações da assessoria do Museu Emílio Goeldi)
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