Fazendo as contas na ponta do lápis, a professora Joana D’arc Freitas tem a certeza. O dinheiro gasto para atravessar seu carro do porto de Icoaraci, em Belém, para o Porto de Camará, em Salvaterra, possibilitaria o conforto de uma viagem de avião para outro Estado, contando com a sorte das tradicionais promoções. “Somando tudo do transporte eu acabo gastando R$400 pra vir pra cá com o meu carro”.
Filha de nativos e ainda moradores da Ilha do Marajó, a ida da professora à Salvaterra é constante. Na intenção de aproveitar o feriado de Corpus Christi, porém, a estadia foi prolongada pelo impedimento de embarque e desembarque de qualquer veículo na balsa que faz o traslado pelo porto desde o dia 21 de junho – e suspenso no dia 25 após negociação com representantes da Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos do Pará (Arcon). Impedimento que, apesar do atraso, não incomodou Joana D’arc.
“Estou aqui desde segunda-feira (23 de junho) tentando voltar pra casa e não consigo porque o pessoal interditou, mas eu apoio o movimento.
Tem que fazer isso mesmo!”, solidariza-se, ao evidenciar os motivos do apoio. “O valor da passagem pro meu carro tá R$216, fora a passagem dos passageiros, o combustível que a gente tem que gastar... Pegando uma promoção de avião, a gente vai pra outro Estado com a quantia que a gente gasta pra se locomover dentro do nosso próprio Estado”.
Longe de ser o único problema, apesar de ter servido como estopim para a organização popular, o alto preço da passagem é aliado à falta de estrutura e conforto durante a travessia. Não é necessário muito esforço para recordar os momentos difíceis. “Não tem conforto nenhum nessas balsas. Os bancos são duros, desconfortáveis e sem falar que uma pessoa obesa não consegue sentar neles porque são muito estreitos. Eles ainda cobram mais caro por uma área VIP que o máximo que oferece é uma cadeira acolchoada, mas que nem reclina também”, se queixa. “É um absurdo deixarem o monopólio de uma empresa que nem informatizada é, que não aceita sequer cartão para o pagamento dessa passagem caríssima. Só querem saber de lucro mesmo”.
Quando em funcionamento, a professora também já foi prejudicada pela lentidão no transporte que, segundo ela, teria condições de fazer o traslado em menos tempo. “Às vezes ela (balsa) sai daqui trabalhando só com um motor, ao invés dos dois. A viagem que era pra ser de 2h se transforma em 4h. Além dos banheiros que são sujos, da lanchonete que além de não oferecer um bom lanche, ainda é caríssima também”, pontua Joana D’arc. “É preciso quebrar esse monopólio, abrir uma livre concorrência pra gente ver se consegue ter algo melhor porque desse jeito quem mais sofre são os moradores daqui”.
Abastecidos em 90% pelos caminhões que chegam na balsa pelo porto de Camará, moradores dos municípios da região de Soure sentem cada aumento no preço do transporte ainda que não precisem se deslocar. Segundo a população, o preço do gás de cozinha já atinge o valor de R$58, enquanto na Região Metropolitana de Belém (RMB) o produto valha em média R$44. Custando R$10, o garrafão de água também é encarecido pelo transporte, assim como a gasolina, hortigranjeiros e demais produtos alimentícios.
Aumento do frete foi suspenso por 10 dias
Diretamente atingidos com o aumento de 18% proporcionado pela empresa que administra o transporte de forma terceirizada, moradores, caminhoneiros, donos de vans e integrantes do Movimento Acorda Marajó interditaram o local de chegada da balsa por cinco dias. A liberação do embarque chegou ao mesmo tempo da notícia de suspensão do aumento pelo período de dez dias, até que se chegue a uma definição.
Apesar do reestabelecimento imediato da rotina, a incerteza permanece. “Se depois desse prazo eles resolverem aumentar de novo, vamos fechar de novo a balsa e o navio”, garante a integrante do Movimento Acorda Marajó, Márcia Silvana. “Tentamos negociar antes (com a empresa), mas isso chegou a acontecer porque não nos ouviram”.
Responsável por transportar cargas em seu caminhão de Belém à região de Soure há 26 anos, o caminhoneiro Ricardo Miranda viu o preço da passagem para o seu caminhão subir de R$291 para R$346. “Tá muito caro! A gente vive disso, de frete. A gente chega a fazer duas viagens por semana. Essa balsa é do governo e é só terceirizada pra empresa”, destaca, ao informar que 38 caminhões que fazem o traslado de mercadorias pela balsa são cadastrados pela cooperativa. “A balsa não oferece condições. Já saímos daqui com essa balsa furada, metendo água nos porões. Já fiz viagem aqui de 4h30, sendo que dava pra fazer em 2h”.
“O que estamos fazendo é garantir nossos direitos porque pagamos um absurdo por um transporte que não tem segurança”, reforça Tiago Amador, também integrante do movimento. “Já ficamos à deriva aí nessa balsa. Precisamos de um transporte de qualidade”.
NAVIO
Com a interdição do porto executada apenas com o estacionamento de caminhões na saída do local onde desembarcam os veículos vindos de balsa, o transporte de passageiros se manteve como de costume em Camará. Ainda que livre do foco das manifestações neste momento, os problemas também são evidentes no momento do desembarque do navio.
No momento da chegada ao porto em Salvaterra, basta que o navio encoste em terra para que comece a agitação. Sem que a rampa de desembarque seja atracada, crianças, idosos e adultos se arriscam saindo pela janela, ignorando o risco oferecido pela considerável fresta entre a embarcação e a plataforma.
Atitude que, além de corriqueira, evidencia que a ausência de segurança no porto não se limita às balsas de transporte de veículos.
(Diário do Pará)
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