Basta um olhar mais atento para perceber. A decoração que antes enfeitava janelas e ruas já não estão mais lá. Em alguns pontos da cidade, bandeirinhas, bolas e fitinhas foram arrancadas sem pena e se tornaram lixo acumulado. A Copa do Mundo, para muitos, já acabou. A derrota do Brasil para a Alemanha na última terça-feira (8) foi o principal assunto de ontem, na imprensa ou nas rodas de conversa. Entre lamentos, julgamentos e decepções, sobrou o bom humor de quem compreende que, no final das contas, uma partida de futebol é apenas uma partida de futebol.
Foi há 64 anos, com os ouvidos colados no rádio, que seu Helito Modesto teve a primeira grande frustração de sua vida. “Eu lembro ‘bemzinho’. Ouvi o jogo no colo do meu pai. Era certo que a gente ia ganhar aquela Copa, mas o Uruguai acabou com a gente”, relembra. O menino de oito anos não imaginava o que senhor, com a maturidade de mais de sete décadas vividas, iria passar. Em cores e em tempo real, 64 anos depois, seu Helito viu a seleção brasileira ser humilhada, de novo, no próprio país. “Foi o cúmulo do absurdo. Eu me senti revoltado. Isso aí a gente só vai esquecer quando for para o túmulo!”, brinca.
A tacacazeira Sandra Rodrigues, 52 anos, foi às compras ainda com a camisa do Brasil. “Pra tu ver como a ficha ainda não caiu, nem a camiseta tirei!”, disse. Sorridente, Sandra confessa que parou de assistir o jogo depois do primeiro tempo e foi chorar escondida. “Cinco a zero foi demais pra mim, não aguentei! Depois que vi que saíram mais dois gols é que chorei mesmo”, fala entre risadas. Para a tacacazeira, o momento agora é de respirar e seguir com a vida. “Não é o fim do mundo, ninguém morreu, Copa tem de quatro em quatro anos”, comenta.
Na barraca de roupas de Francisco Barbosa, 48 anos, as tradicionais camisas amarelas faziam um monte atrás do balcão. “Agora só nas Olimpíadas em 2016! Vou guardar tudo porque o que tinha pra eu vender, eu já vendi, agora é só saldo”, diz. Para Francisco, será difícil esquecer a goleada germânica, mas isso não é motivo para tristeza. “A gente aprende com os nossos erros. O futebol brasileiro tá muito decadente e precisava de um vexame desses pra ver se acorda”, fala.
Na banca de seu Antônio Almeida, 65 anos, as amarelinhas estavam escondidas, mas ainda à disposição dos torcedores que não perderam a empolgação. Para Antônio, um dos culpados do placar assustador do jogo de terça foi o descontrole emocional dos jogadores. “Eu nunca vi tanto homem chorando junto! Tem que ter sangue frio pra aguentar a pressão de jogar em casa e tava todo mundo descontrolado”, observa. Na opinião do vendedor, o Brasil perdeu a Copa, mas não vai perder a piada. “Agora vai sair muita camisa da Alemanha e da Argentina, o pessoal vai comprar só de raiva!”, completa rindo.
(Diário do Pará)
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