Antes de o céu clarear por completo, a primeira fila do dia inicia do lado de fora, estendida ao longo do portão ainda fechado. Às 6h30, cerca de uma hora e meia antes do horário de funcionamento, cada pessoa que chega conta com a dedução para início ao que acreditam ser a garantia de atendimento. “É essa a fila? É aqui mesmo?”.
Sem que qualquer movimentação seja percebida do lado de dentro do prédio do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) ainda fechado, é do lado de fora que a população inicia a corrida pelos serviços disponibilizados no local. Com demandas diferentes na fila, que por volta das 7h30 já duplica de tamanho retornando no sentindo contrário, cada pessoa conhece a necessidade de se dirigir para o local antes do horário comercial. “Se não vier esse horário, não consegue sair daqui tão cedo, não”.
Passada a abertura dos portões, às 8h, do lado de dentro, apesar da seleção dos serviços, a primeira fila de espera continua em pé. Já direcionadas pelos servidores que assumem seus postos, são necessários menos do que cinco minutos após o início do atendimento para que os corredores do Detran já estejam cheios, tomados por filas que se entrecruzam. Com os papéis necessários em mãos, o primeiro passo é receber a orientação que, enfim, organiza a ordem de chegada.
Retirada a senha, quando finalmente é possível sentar, há que se escolher entre as cadeiras em condições de assento - livrando as que, já quebradas, só mantêm a parte de ferro. “Qual é a tua senha? Tem alguém guardando lugar pra ti na fila do banco? Ih, agora é que vai vir o pior”, adianta o desconhecido que também já se preocupa.
Com 13 guichês disponíveis – dez em funcionamento no início do dia -, o atendimento referente à carteira de habilitação é um dos mais demandados. Sem que haja distinção, o local converge a recepção tanto para quem já deu início ao processo de retirada da primeira habilitação quanto para quem pretende mudar de categoria e solicitar segunda via da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
Para quem busca a realização do exame teórico obrigatório para a retirada da carteira, como adiantado pelo desconhecido na fila, a ida ao banco é inevitável. Sem que o boleto referente à taxa de R$ 158 seja disponibilizado por outro meio, toda a espera até às 9h serve para receber o papel que possibilita o pagamento.
BANCO
Chegada a espera na agência do Banpará instalada na parte externa do prédio do Detran, a segunda fila enfrentada é ainda maior. Com o clima já quente do lado de fora, aguarda-se novamente em pé. Sem que pare de chegar quem necessite dos serviços, encaminhado pelo Detran ou não, quem chega um pouco mais tarde se assusta. “Essa é a fila pro banco? Não tem outro lugar aqui perto? Não acredito!”.
Ainda na tentativa de entrar na agência bancária, passada a primeira meia hora de espera, o corpo já começa a pesar sobre o calcanhar. Sem condições de sentar em qualquer momento, já que a maior parte da fila se estende do lado de fora, na calçada, o que resta é apoiar a lateral do corpo na grade. “A gente vem pro Detran e fica mais na rua do que lá dentro”, constata o senhor já impaciente com a permanência, por vários minutos, no mesmo lugar.
Na ausência de qualquer conforto a quem pretende pagar pelo serviço, é depois de muita espera que começa a indignação. Na direção da entrada da agência, à frente, só o que se percebe é uma pequena discussão entre servidor e os que aguardam. “O senhor acha certo a gente pagar uma taxa cara dessa para ainda ficar todo esse tempo aqui nesse sol? Me diz, é certo?”, se exalta o rapaz, que começou a busca pelo atendimento também no início da manhã, ainda às 6h.
VENDA
Como se não bastasse a demora proporcionada pela grande demanda, outra movimentação chama a atenção de quem espera. Tendo, conforme determinação legal, uma fila diferenciada para os que têm prioridade, a ida frequente de três idosos em busca do mesmo serviço chama a atenção. Retornando sempre com boletos iguais, mas com nomes diferentes em cada nova entrada na fila, o serviço clandestino fica aparente. Os que aguardam não se contêm: “O senhor tem muito carro, né, tio? Já é a terceira vez na fila para pagar boleto igual”.
A poucos metros da fileira que no meio da manhã já triplicou de tamanho, o que era dedução se torna certeza. Com uma quantia considerável de dinheiro em mãos, o senhor questionado minutos antes conta as cédulas recebidas. São necessários R$ 10 para que o pagamento do boleto seja feito pelo idoso na fila de prioridades, se livrando da longa espera na fila convencional.
Feita a discussão pelos que percebem a irregularidade, a fila segue mais rápido, mas a entrada na agência após duas horas de espera não é garantia de atendimento imediato. Do lado de dentro, a fila persiste.
PROVA
Vencida a dificuldade para pagar o boleto, o objetivo da ida de centenas de pessoas ao órgão também só consegue ser vencido após uma última espera. Para realizar o exame – organizado em grupos de acordo com a disponibilidade dos computadores, a senha disponível é a de número 220, ainda longe da última entregue até por volta das 13h. Sem cadeiras suficientes para todos que esperam, é preciso controlar também a sede. O bebedouro é até disponibilizado na sala de espera, porém o garrafão permanece vazio.
Com o corpo já tomado pelo cansaço das filas anteriores, a prova pode ser realizada em cerca de 20 minutos depois de mais três horas de espera. Tendo a chegada cronometrada desde as 6h30, a saída do órgão com o resultado do exame só é conquistada por volta das 14h30, oito horas depois.
SERVIDORES: PROBLEMAS EXISTEM HÁ TEMPOS
Sem que a demora no atendimento seja o único problema, servidores do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) apontam que as dificuldades enfrentadas no órgão também dizem respeito à falta de infraestrutura de atendimento.
Servidora do Detran, Elizabeth Carvalho aponta que não é de hoje que os problemas vêm sendo denunciados. “Já fizemos até um relatório e entregamos na audiência pública que foi realizada na Assembleia Legislativa”, recorda. “Em média, são arrecadados R$1 milhão por mês no Detran e o que a gente percebe é a falta de estrutura. O Detran está sucateado. Pagam-se taxas altíssimas e não se vê um serviço público de qualidade”, critica.
Segundo a servidora, faltam centrais de ar, maquinário e tecnologia para o desenvolvimento do trabalho. “Falta concurso público para que se possa atender a essa grande demanda. Não há investimento na modernização e infraestrutura do Detran”, aponta. “As autoescolas já fizeram ‘n’ manifestações para que se dê infraestrutura para os espaços de realização de exames. Mas os locais de provas estão sucateados, abandonados durante esses quatro anos”.
Reforçando as afirmações da servidora, o DIÁRIO recebeu denúncias de um instrutor de autoescola sobre as condições da pista onde são realizados os exames práticos de direção no Detran.
Nas imagens, é possível perceber a presença de uma grande quantidade de buracos na pista. É assim que os testes acontecem.
(Diário do Pará)
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