As placas de obras espalhadas em Ponta de Pedra, na Ilha do Marajó, não condizem com a realidade vivida pelos habitantes do município. Vários projetos em situação de abandono, sem sinal de início ou término, aumentam as expectativas da população que aguarda por melhorias. A pavimentação da PA-396, que liga a zona urbana à praia de Mangabeira, é uma das mais esperadas desde que o governador do Estado Simão Jatene prometeu, ainda em fevereiro, que a mesma estaria pronta até o mês de julho, época do alto verão.
Já estamos no segundo domingo das férias de julho, porém, e a “buraqueira” ao longo da rodovia de apenas dez quilômetros - que ligam o centro do município até a área turística, passando por diversas comunidades rurais que dependem da via para escoar as produções- ainda é a única realidade. Apesar de a placa no alto da ponte Arapimã avisar que ali está sendo feito o trabalho de “recuperação e pavimentação das vias urbanas”, a poeira, buracos e lama ainda são os obstáculos encontrados no horizonte de três mil pessoas que circulam pela pista diariamente.
Mesmo que a licitação da obra de pavimentação tenha sido vencida no mês de abril pela empresa Cabano, dois meses após a promessa do governador, somente no dia 20 de junho o maquinário – incluindo tratores do município - começou a ser visto pela população na rodovia. Até o momento a obra parece só piorar a situação, já que os tratores estão numa fase inicial de retirada do asfalto antigo, revirando toda a terra da PA-396, aumentando os buracos e o lamaçal.
O que era para ser uma melhoria se tornou uma verdadeira dor de cabeça aos moradores. O trajeto até a Praia de Mangabeira, antes feito em vinte minutos, hoje leva quase uma hora para ser realizado. “Nossos carros estão destruídos. Sem contar nos inúmeros acidentes que ocorrem nesses buracos. Não temos a mínima condição de usar essa estrada e, se eu posso evitar, eu evito trafegar nela”, disse o motorista de táxi, Cláudio Gomes.
“Esse é o pior mês de julho que eu já vi aqui. Ninguém quer vir para cá”, completou o motorista, que lamenta os prejuízos dessa época do ano, que deveria ser de grande faturamento.
O mototaxista Gilvano dos Santos também está insatisfeito com o lucro neste início de julho. Segundo ele, que normalmente realizava cerca de 14 corridas por domingo, faturando o equivalente a R$ 800 por fim de semana, até agora o rendimento caiu pela metade. “Nosso lucro é todo para consertar a moto. A rodovia está completamente esburacada e o movimento diminuiu bastante”, avalia.
Fátima Tavares, produtora rural da comunidade Cajueiro, que fica num ramal ao longo da PA-396, reclama que os buracos na estrada também desgastam muito o corpo para quem precisa trafegar nela diariamente. “A gente sai daqui com nossos produtos para vender na feira e volta muito cansado, com o corpo todo dolorido de tanto balançar no carro com esses buracos”, reclama.
ORLA DETERIORADA
Depois de enfrentar a estrada, os problemas continuam. Basta se aproximar da praia de Mangabeira para ver parte da estrada que leva até a orla está sofrendo um violento processo de erosão, o que também oferece perigo para quem chega. “Aqui não tem nenhum muro de arrimo que preste. Tá tudo abandonado”, diz o motorista Marcus Barbosa.
Ao chegar à orla, o visitante já se depara com uma nova placa. Desta vez, anunciando a construção de uma orla na praia de Mangabeira. Porém, a única paisagem vista é a de calçadas quebradas.
Dos 200 metros de calçada, apenas oito estão prontos. A obra do município, orçada em R$ 125.876,00, prevista para ficar pronta em 76 dias, ainda é um sonho para quem visita a praia em busca de lazer.
“Essa obra era para ter iniciado antes. Não sei por que resolveram começar no mês das férias, quando era para estar tudo pronto”, questiona a aposentada Claudina Santos.
Francisco Barbosa, vendedor de camarão assado na brasa, trabalha na orla há 43 anos e aguarda que a obra fique pronta para melhorar o faturamento do mês.
“Esperamos que isso melhore a nossa vida aqui, que fique bonito, para que as pessoas venham mais para a praia”, torce.
A banhista Suelem dos Santos ficou decepcionada ao encontrar a orla inacabada. “Nos apresentaram um projeto de uma orla linda, completa, com quiosques, bares padronizados, mas quando cheguei encontrei apenas uma obra de calçada. É a única diversão que a gente de Ponta de Pedras tem e ainda fazem isso com a gente”, reclama.
Máquinas do município em obra licitada
De acordo com a prefeita do município, Consuelo Castro (PSDB), as obras da orla iniciaram no mês de abril, mas sofreram um processo de embargo pelo Ministério Público do Estado por questões ambientais. “O projeto teve que ser reformulado em cima da hora.Tivemos que adaptar, o que acabou atrasando”.
A prefeita também diz que a PA-396 está atrasada em razão das fortes chuvas que incidem em Ponta de Pedra nos meses anteriores a julho.”Somente agora puderam trabalhar na estrada”, afirmou. Sobre os maquinários da prefeitura do município vistos pela equipe da reportagem trabalhando na obra licitada pelo Estado, Consuelo explicou que faz parte de um acordo com a empresa para que as benfeitorias se estendam até a área urbana do município. “Emprestamos as máquinas e, caso a gente precise de uma operação tapa-buraco no centro, eles vão lá e estendem o serviço para uma outra área que não estava prevista no projeto da rodovia”, disse.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Transportes do Estado do Pará (Setran) para obter respostas em relação ao andamento das obras da PA-396 às 17h da última sexta-feira, porém o expediente já estava encerrado. A assessoria explicou que o secretário está viajando, mas que pode esclarecer as dúvidas a partir de hoje.
DELEGACIA
A população também aguarda as obras de construção da Delegacia do Município. As placas sinalizam que as obras estão em pleno vapor, mas moradores reclamam que não veem homens trabalhando no projeto há mais de três meses. A placa em tom de propaganda também não informa quando nem quanto a obra irá custar aos cofres públicos.
“Anunciaram a construção da delegacia, colocaram placa e tudo e dez dias depois não se via mais ninguém trabalhando aí. Estamos aguardando que comece e que fique logo pronta porque todos precisamos”, disse Lucio Mauro Ferreira, motorista.
(Diário do Pará)
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