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Recuo da Classe C pode vir de fatores pontuais

Fatores pontuais como a Copa do Mundo 2014, o percentual inflacionário e o crédito mais caro podem estar na raiz da recente retração de consumo detectada junto à classe C do país. É o que defende o economista Hélio Santana Mairata Gomes, professor do

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Fatores pontuais como a Copa do Mundo 2014, o percentual inflacionário e o crédito mais caro podem estar na raiz da recente retração de consumo detectada junto à classe C do país. É o que defende o economista Hélio Santana Mairata Gomes, professor do curso de Economia da Universidade Federal do Pará (UFPA) e especialista em Desenvolvimento Regional pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (Numa).

Pesquisa recente divulgada pelo instituto Nielsen apontou o recuo de consumo da classe C em relação às compras em supermercados: pela primeira vez em cinco anos a classes AB superaram a classe C nos gastos com compras, o que chamou a atenção do mercado. Mairata, porém, defende que a perda de dinamismo de consumo da classe C não significa queda, mas apenas que ela cresceu menos do que as classes AB.

Confira entrevista cedida aos repórteres Frank Siqueira e Wal Sarges:

P: A que o senhor atribui essa retração de consumo da classe “C”?

R: Essa perda do dinamismo está baseada em pesquisa realizada de janeiro a abril, período no qual já sabíamos que a seguir haveria a Copa do Mundo e que esse evento traz gastos com deslocamentos para as cidades-sede, ingressos, permanência etc. Mas eu acredito que as pessoas da classe alta não tenham essa preocupação. Elas têm dinheiro para pagar passagens aéreas, hotéis. Até porque as classes altas, A e B, estão concentradas, majoritariamente nas regiões Sudeste e Sul, onde esteve a maioria de sedes da Copa. A classe C, de menor renda, está mais pulverizada no Brasil. Então elas teriam que se deslocar. Minha hipótese é de que elas se programaram para poupar um pouco para esse deslocamento. E essa poupança fez com que elas reduzissem o consumo de alguns produtos, de comprar alimentos congelados, comida pronta, como diz o instituto Nielsen. Contudo, o consumo familiar no país, como um todo, não caiu. Dados do mês de maio do IBGE sobre o comércio varejista mostram que o consumo familiar na somatória de todas as classes continuou crescendo. Na verdade ele caiu nos outros meses do primeiro semestre e teve alta em maio, somente. Basicamente, em referência ao Dia das Mães. De janeiro a maio, o volume de vendas subiu 0,5%, se comparado ao mesmo período do ano passado. Em termos de receita, subiu 1%, acima da inflação. Esses dados se referem a todas as classes, quando houve crescimento de todas, mas pequeno em relação à classe C. Outros dois fatores podem ter interferido na queda de consumo: primeiro foi a própria inflação. Está havendo um aumento de preços, especialmente, dos bens de consumo popular, como carnes, produtos perecíveis etc. E o outro, também, é que o crédito ficou um pouquinho mais caro.

P: Com a elevação de preços há certa retração de consumo. Como o senhor vislumbra o cenário econômico paraense até o final do ano?

R: Especialistas do Banco Central afirmam que a inflação deve continuar alta até setembro, inclusive por fatores sazonais. Mas, a partir de outubro, quando entra toda a safra no mercado, a inflação deve arrefecer um pouco. Não é que a inflação caia, mas a taxa será mais moderada. Nós temos uma meta de inflação no Brasil, que é de 4,5% ao ano, podendo ser dois pontos acima ou abaixo. Por isso é que nas duas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (COPOM) não se aumentou a taxa de juros, porque a ideia é que os fenômenos climáticos colaborem.

P: De que forma uma taxa de inflação de 6,0% ou 6,5% contribuem para desorganizar a economia doméstica?

R: Para os padrões internacionais, que é de 2% está elevada, mas, por exemplo, para a vizinha Argentina que espera uma inflação de 30%, está dentro do nível razoável. O importante é que ela não se afaste em demasia da meta. Mas essas taxas corroem o poder aquisitivo das famílias, levando-as a substituir alguns produtos, reduzir e até eliminar outros.

P: Quem é mais afetado com as altas taxas da inflação? A empresa ou o consumidor?

R: O mais afetado é o consumidor. Porque a empresa joga a inflação nos preços e dane-se o comprador. Ela, a empresa, no caso trabalhará perdendo na quantidade, mas compensando isso com a elevação no preço. Mas eu acredito que até 6,5% não desorganiza a economia. O problema principal do Brasil no momento não é a inflação. É o baixo crescimento da atividade econômica. Nós tivemos no primeiro trimestre do ano um crescimento de meio por cento do nosso produto, configurando-se em um crescimento pífio. E não vejo perspectivas de maior crescimento até o fim do ano.

P: Por que um crescimento tão baixo da economia?

R: Primeiramente, o reflexo do que está ocorrendo em todo o mundo. A União Europeia está crescendo pouco e os EUA também. A economia é cíclica; funciona ora subindo, como se fosse uma montanha russa, atinge um auge e decresce. Desacelera e vai até o fim do poço, depois ela volta a subir. Estamos em uma fase de baixa do ciclo econômico.

P: Qual é a causa disso? Por que a economia cai?

R: Por causa da expectativa dos empresários, principalmente. Eles acham que a economia começará a cair e desinvestem. Ou seja, eles passam a investir menos: “Acho que vão cair as minhas vendas... então vou produzir menos e vender mais caro também e ganhar no preço”. Isso explica o aumento da inflação. E como todo mundo resolve produzir menos, é claro que a economia cai. Isso só irá parar quando eles chegarem ao fundo do poço e tiverem a necessidade de repor seus estoques. Quando acabarem seus estoques, especialmente de equipamentos, eles terão que voltar a demandar: novas máquinas, insumos e matérias-primas e aí economia sai do fundo do poço.

P: A economia do Pará está muito concentrada em alguns setores com a mineração, soja. Qual é o cenário que o senhor vislumbra para a economia paraense para os próximos dez anos? De que forma isso influenciará a capacidade de consumo e elevação da renda do paraense?

R: A base produtiva do Pará é localizada. Tanto que os municípios com a maior renda per capita são mineradores, maior até do que Belém: Canaã dos Carajás, Ourilândia, Parauapebas, Marabá. Belém, basicamente, se destaca nos setores de comércio e serviços. Então nossa base produtiva é exógena. Nós não temos controle sobre ela. Se a China respirar bem, aumenta a exportação de minério de ferro, mas o benefício fica localizado. O que falta é diversificar a base produtiva. Isso é uma conversa velha da qual se fala há muitos anos e ninguém faz nada. Nossas autoridades, nossos governantes não fazem nada para diversificar a base produtiva. Não têm atrativos. Incentivos fiscais são difíceis. O Pará está cercado de outros estados com incentivos fiscais. A Zona Franca foi aprovada para mais 50 anos. Não temos como dar incentivos fiscais. O nosso limite do Simples está defasado, tanto que há até uma ação no STF para revisar o Simples. Estamos congelados com ele e isso faz com que as empresas não desfrutem desses incentivos fiscais e elas adotam a estratégia de se partilharem. Criam outra subsidiária com outro nome para poder entrar no Simples. Mas isso tem custos contábeis, de informática, uma série de custos.

P: As empresas do Pará possuem baixa competitividade?

R: Sim. Não só porque nós temos recursos humanos e organizacionais menos qualificados, apresentando baixa produtividade, como também porque não temos infraestrutura e logística adequadas. O edital do Pedral do Lourenço foi suspenso porque não tinha estudo de impacto ambiental. Não sei como fazem um projeto sem um estudo de impacto ambiental, que é óbvio. Com isso, o nosso corredor que seria um exportador hidroviário Araguaia-Tocantins fica prejudicado. E em consequência, não sai a ALPA, em Marabá. E ainda, as eclusas de Tucuruí, obra que foi um gasto que demorou vinte anos para acontecer, também não funciona. Então, nós lutamos aqui contra uma série de fatores. Nossa infraestrutura e logística são deficientes. O nosso meio de comunicação é o modal rodoviário, que é o modal mais caro que existe. O estudo para a ferrovia que viria de Açailândia para Barcarena também foi cancelado. O Tribunal de Contas da União disse que é antieconômico. Se assim fosse, não teriam feito a Belém-Brasília. A economicidade vem depois.

P: A nossa economia é de teto baixo. Temos enormes limitações para continuar crescendo?

R: Isso acaba interferindo no mercado de consumo, porque a nossa empregabilidade vem do mercado informal. O mercado formal não consegue criar empregos suficientes para a mão de obra que vem ao mercado. Mas eu insisto que falta a diversificação da base produtiva. Enquanto ficar só na mineração, nós vamos ter enclaves em Marabá, Ourilândia, Canaã dos Carajás e mais a soja no Oeste e Sudeste do Pará, que não geram efeitos germinativos. Potencialmente, o Pará possui um recurso que seria importantíssimo a nível mundial, que é a biodiversidade. Mas esse recurso não é aproveitado. Lembro que no início do atual governo, quando o Alex Fiúza de Mello era Secretário de Ciência e Tecnologia, eles bolaram um programa chamado Farma Pará, que seria um laboratório para estudar nossos fármacos, com base nas propriedades da nossa biodiversidade. Mas o estudo ao que parece ficou no papel, na gaveta, não saiu. Então, nós temos que estudar a nossa biodiversidade e transformar isso em produtos. O número de fármacos que podemos gerar para o mundo e que deve ser explorado é imenso. Daqui a pouco países estrangeiros irão levar a matéria-prima, sintetizá-la e nos vender. Costumo dizer, que o Pará e a Amazônia como um todo, é uma espécie de almoxarifado para o Brasil. Aqui só se extrai a riqueza para fornecer os benefícios para o restante do país.

P: Na sua avaliação, a Amazônia ainda tem salvação no âmbito econômico?

R: A Amazônia possui 8% do eleitorado brasileiro, com uma participação pequena no cenário nacional, por isso, nossos anseios não são ouvidos. Quem vai se preocupar com 8% de votos? Não tem muita salvação. Se as nossas classes políticas se unissem com as universidades e com a imprensa e fizessem movimentos maciços...! E também temos governos inapetentes. Que entram e saem sem se preocupar com a população. No início do governo se chegou a cogitar de “Pará, 40 Anos” e isso não foi nem para o papel. O Plano Plurianual, o PPA, no Pará, não é um Plano de Desenvolvimento, e sim um orçamento.

(Diário do Párá)

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