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Comunidade ribeirinha em Belém sofre sem água

Nem bem amanhece o dia, Pedro Santos Pinto já coloca a rabeta n’água. Distante até 40 minutos da casa onde mora, na comunidade ribeirinha Beira Rio, ainda em Belém, o destino é traçado pela necessidade. Além da pequena caneca levada para secar a parte

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Nem bem amanhece o dia, Pedro Santos Pinto já coloca a rabeta n’água. Distante até 40 minutos da casa onde mora, na comunidade ribeirinha Beira Rio, ainda em Belém, o destino é traçado pela necessidade. Além da pequena caneca levada para secar a parte de dentro da embarcação, seguem na canoa motorizada os cinco garrafões – carotes, para eles – que devem garantir o abastecimento de água a quem já passa os dias sobre ela. “Assim é a nossa lida”.

Iluminado apenas pelo nascer do sol sob o horizonte, o silêncio quase absoluto é a prova de que, em terra firme, muitos ainda dormem. Já distante da casa de madeira construída na beira do rio, a prática do pedreiro segue a rotina já estabelecida há tempos. Rabeta atracada no ponto de chegada, é da mangueira instalada no trapiche da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) que Pedro retira o líquido que matará a sede e a fome dos que aguardam. Sozinho na lida, o único barulho além do provocado pela maresia é o da água despejada no garrafão. “Às vezes chega a ficar quinze canoas aqui de uma vez pegando água. Agora de manhã que não tem muita”. Na comunidade onde mora Pedro não há água nem energia elétrica.

Garantido o motivo da saída, no caminho de volta pra casa, o progresso cruza o cotidiano de quem vive do rio. Imponente ante o cenário de raízes e galhos banhados pelas águas barrentas, a ponte da Alça Viária não deixa esquecer que o desenvolvimento vive muito próximo. Muito antes que se alcance a construção, porém, outra contradição é escancarada aos ribeirinhos todos os dias. “Aí é de onde a Cosanpa [Companhia de Saneamento do Pará] tira a água pra mandar lá pro [lago] Bolonha. Daqui agora é só passar a comunidade do Aurá e a gente já chega na nossa. Tá perto”.

Ainda que a tubulação retire do rio a água que abastece bairros centrais da capital paraense, ao lado da estação de captação, na comunidade Beira Rio, o líquido chega apenas sob os ombros de Pedro e de quem mais se dispõe a buscá-lo. Em casa, a cozinheira Celeste de Souza, de 50 anos, depende da água levada da universidade para dar de comer ao marido e às três crianças.

“É dessa água que a gente pega lá que a gente faz comida e usa pra beber. Coloca hipoclorito pra matar as bactérias e bebe, faz a nossa comida”, anuncia, contabilizando a necessidade de sair em busca de água potável pelo menos três vezes na semana. “A gente tá aqui tão pertinho da cidade e não chega água ainda. A gente vive cercado de água, mas essa água não dá pra quase nada. A gente só usa ela pra lavar louça e roupa e mesmo assim tem que pegar uma parte, colocar pedra úmida pra descer a lama e usar só a parte boa”.

Em situação privilegiada pela condição conquistada com muito esforço, não faltam rabeta e combustível para que Celeste e Pedro busquem o que é tão necessário para a própria sobrevivência. O que não diminui por completo a dificuldade de se viver sem água correndo pelas torneiras. Não muito distante, no dia anterior, a busca pelo líquido acabou no meio do caminho. Engatada em uma raiz, a rabeta foi ao fundo levando com ela a água própria para o consumo. Viagem perdida: foi preciso começar tudo de novo. “Quando chove ou dá muita maresia fica ruim de ir buscar água. Às vezes não tem jeito e a gente vai enfrentando maresia mesmo. Ontem minha rabeta foi pro fundo, perdi um carote [de água]”, lamenta, também sem esquecer dos que passam ainda mais dificuldade. “Pra gente já é ruim, mas tem gente que não tem nem condição de chegar lá. Não tem rabeta, gasolina...”.

Estimado pelos próprios moradores do local, o número de famílias que moram na comunidade chega a quarenta. Nascida longe de hospital, na própria comunidade ribeirinha, a vizinha Regina Nascimento, de 47 anos, lembra que os problemas vão além da falta d’água. “É o tempo todo assim. E nós que moramos tão perto da cidade também ficamos sem energia. Essas outras ilhas aí tudo já tem energia, mas aqui não”, considera. “Acaba estragando é muita comida porque não tem nem como ter geladeira pra guardar. O que a gente pode fazer é salgar. O que dá pra comer a gente come e o que se estragar, tem que jogar fora”.

Cortando o céu azul no meio do rio, os longos cabos de energia sustentados pelos linhões também se impõem no caminho dos ribeirinhos até em casa. É apenas mais uma necessidade que chega muito perto, mas não atende a quem mais precisa. “O meu sogro tem 87 anos e é deficiente, não enxerga. Quando ele fica doente, pra ir no médico só carregado no barco lá pra unidade de saúde do Águas Lindas. Sem água e sem energia não tem posto médico, não tem nada”, reforça a também moradora da comunidade, Ana Maria de Souza, de 38 anos, esclarecendo que são muitos os serviços impossibilitados pela ausência de abastecimento. “Não chega porque não tem água e energia. Não tem posto de saúde, não tem escola... o colégio mais perto é o do Aurá, mas só vai até a quarta série. Da quinta série em diante, as crianças têm que ir lá pra Terra Firme pra estudar. Descem na Ufra”.

Moradora das mais antigas da comunidade que tem o cultivo do açaí como principal meio de subsistência, Maria Eunice de Oliveira, de 66 anos, vê os problemas se agravarem já há 46 anos. “Eu casei com 19 anos e vim morar pra cá porque meu esposo era nascido e criado aqui. Na época que eu vim isso aqui era bem melhor, não jogavam tanto lixo no rio e a água era mais limpa pra usar. Digo pro meu pessoal que antes tudo era no papel, que dissolvia fácil. Depois veio esse plástico e agora tudo, tudo, tudo é no plástico”, lembra. E não é raro avistar sofás e televisões boiando pelo rio. “Depois desse lixão do Aurá, todo aquele chorume vem pra cá, a sujeira do [canal do] Tucunduba... como é que toma uma água dessa? Não é porque a gente mora no mato que a gente não precisa das coisas”.

A OUTRA BELÉM

De quem segue pelo trapiche da Ufra, é preciso passar pelas comunidades da Ceasa e do Aurá para chegar à comunidade Beira Rio. Muito próxima da capital paraense e de locais de captação de serviços básicos, a comunidade ainda sofre com a ausência de abastecimento de água e energia. Não há posto de saúde próximo e o colégio de ensino médio mais perto fica há duas horas do local, incluindo o transporte por barco, a pé e de ônibus.

(Diário do Pará)

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