Inaugurado em abril passado pelo o atual governo, sob a justificativa de “dar retaguarda em áreas críticas, servindo de apoio aos Hospitais Metropolitano, de Clínicas Gaspar Viana e do Abelardo Santos, devido ao estrangulamento da capacidade de leitos para atender a demanda”, o Hospital Galileu, em Ananindeua, sofre com a gestão precária, falta de planejamento e de estrutura médico-hospitalar - que vêm provocando inclusive morte de pacientes. As denúncias são muitas e graves.
Trabalhadores do hospital procuraram o DIÁRIO para denunciar que em junho passado três pacientes teriam morrido em menos de cinco dias no hospital por falta de oxigênio, já que a usina do hospital que fabrica o gás não funcionava. Aliás, segundo os trabalhadores, nunca funcionou desde a inauguração, há quatro meses. “Foi pedido sigilo total a todos os funcionários sobre o ocorrido e uma semana depois instalaram um cilindro externo no hospital para atender a demanda. E só fizeram isso por causa das mortes”, revela uma fonte de dentro do hospital, que prefere se manter no anonimato. Além disso, o bloco cirúrgico que serviria para fazer as cirurgias para retirada de pinos, órteses e próteses, não tem previsão para funcionamento. Está parado.
A Pró-Saúde, organização social preferida do governador Simão Jatene, que gerencia o hospital, contratou 90% dos funcionários para atuarem na instituição sem nenhum conhecimento e experiência na área da saúde.
“Isso está ocasionando várias complicações na saúde dos pacientes, aumentando o tempo de internação e a assistência médica de forma precária. Pessoas inexperientes estão à frente do gerenciamento de serviços de enfermagem e serviço médico deixando os pacientes bastante inseguros, comprometendo a sua recuperação”, cita a fonte.
O hospital possui pacientes internados com doenças que não possuem especialistas para tratá-los. O resultado é que pacientes ficam semanas esperando leito para outro hospital, sem tratar de fato seu problema.
“O serviço de radiologia não funciona 24 horas, mas das 7h30 às 19h. Quando o quadro de saúde de um paciente piora à noite, não temos um exame básico importante para tomar condutas médicas. Inclusive temos uma UTI sem a cobertura deste exame”, revela o denunciante.
O Galileu possui meta de pacientes para internar e tratar. Entretanto o hospital possui uma Unidade de Terapia Semi-Intensiva com seis leitos, onde ficam no máximo dois pacientes internados.
“O déficit de leitos de UTI é grande no Estado do Pará e essa situação do hospital não ajuda a melhorar a situação”.
As denúncias dão conta que diretores do hospital vêm ameaçando de demissão colaboradores que questionam as condutas e orientações erradas. Alguns inclusive já foram demitidos. “O discurso é o seguinte: quem trabalha no Galileu e for demitido não trabalha mais em nenhum lugar no Estado, pois a Pró-saúde é quem manda na saúde do Pará”, aponta a fonte.
SERVIÇOS ILEGAIS
As equipes médica e de enfermagem do Hospital Galileu têm encontrado grande dificuldade para desenvolver suas atividades devido à demora na entrega de resultado de exames laboratoriais e de diagnóstico, já que a instituição não tem laboratório nem outros serviços de apoio, com total dependência do Hospital Metropolitano. “Alguns pacientes têm alta hospitalar sem sequer receber resultado de seus exames e sem saber de fato que doença possuem”, revela a fonte de dentro da própria instituição.
O hospital ainda não possui inscrição no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) no Ministério da Saúde. Por essa razão vários serviços funcionam de forma ilegal e sem vistoria técnica do próprio ministério. Enfermeiros são contratados e estão na escala de serviço em um setor do hospital. Entretanto desenvolvem suas atividades em outro setor, que não condiz com a escala.
“Além disso, enfermeiros e técnicos de enfermagem estão realizando seu trabalho com um grande número de pacientes, infringindo o Código de Ética, que estabelece um número máximo de pacientes por profissional para poderem desenvolver um trabalho de qualidade. Técnicos de enfermagem da escala noturna ficam cada um com até dez pacientes, muitos deles graves”.
PRÉDIO ALUGADO A R$ 1,5 MI E ENTREGUE À PRÓ-SAÚDE
O Hospital Galileu, ao contrário do que festejou a propaganda governamental, não se tratou de mais uma obra do Estado, que apenas alugou as instalações de uma entidade evangélica por cerca de R$ 1,5 milhão ao ano, equipou e o entregou para a organização social Pró-Saúde, Associação Beneficente de Assistência Social, entidade que já teve suas contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). Coube à Secretaria de Estado de Obras (Seop) preparar o prédio para ser entregue à OS, que vai faturar ainda mais em cima dos recursos públicos, ampliando o danoso processo de terceirização da saúde no Pará.
A verdade é que a Pró-Saúde recebeu de mão beijada do governo Jatene mais um hospital novo e equipado, elevando às alturas o seu milionário faturamento.
CARTAS MARCADAS
No último dia 26 de janeiro o DIÁRIO antecipou na reportagem “Jatene entrega Galileu à Pró-Saúde”, que a OS seria a grande vencedora da convocação pública (Edital de Seleção 001/2014) para gestão do Hospital Galileu.
Apesar das contas rejeitadas, o governo permitiu que a OS participasse da concorrência que, como até as pedras do rio sabiam, acabou levando mais um hospital para administrar.
Dessa forma a OS, que desde 2011 fatura cerca de R$ 300 milhões ao ano para gerenciar os hospitais regionais de Santarém, Altamira, Marabá e o Metropolitano de Ananindeua, ampliou ainda mais seu faturamento e os tentáculos na gestão da saúde pública no Estado. Agora gerencia cinco hospitais no Pará. As cifras ainda não foram reveladas.
HOSPITAL NEGA MORTES E DIZ QUE OPERA DE FORMA REGULAR
Em nota, a assessoria de Imprensa do Hospital Galileu nega as mortes em junho passado: “Nenhum paciente internado no Estadual evoluiu a óbito e/ou sofreu pela falta de oxigênio”. Em relação ao bloco cirúrgico, o hospital informou que “entrará em funcionamento no mês de agosto, visto que se aguardava a chegada de materiais fundamentais ao seu funcionamento”.
A assessoria garante ainda que o tempo médio de internação está dentro do perfil das especialidades atendidas, com tempo médio de internação de 7,3 dias. “O hospital opera com uma média de dois enfermeiros por leito ocupado e o gerenciamento das atividades assistenciais é realizado por profissionais de larga experiência”. Informa ainda que a contratação dos profissionais foi realizada por processo seletivo, sendo que os profissionais selecionados “atenderam os requisitos técnicos exigidos”.
O hospital também nega que o serviço de radiologia não funcione 24 horas. Em relação a ameaças feitas por diretores a funcionários, o Galileu informa que “o Hospital trabalha com avaliações e orientações aos colaboradores, visando o desenvolvimento do profissional de forma sempre respeitosa e humanizada”.
Em relação à demora na entrega dos exames, a assessoria diz que “de forma alguma pacientes recebem alta sem melhora clínica” e que “todos os exames cabíveis à hospitalização do paciente são averiguados e repassados aos pacientes e familiares”.
Em relação à sobrecarga de trabalho dos enfermeiros, o hospital garante que “o Dimensionamento de Enfermagem segue orientações da Resolução do COFEN Nº 293/2004, onde fixa e estabelece parâmetros para o dimensionamento do quadro de profissionais de Enfermagem nas unidades assistenciais das instituições de saúde e assemelhados”.
A reportagem do DIÁRIO DO PARÁ encaminhou também há cerca de uma semana vários questionamentos referentes às denúncias citadas para a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), mas o jornal não obteve respostas até o fechamento desta edição.
(Diário do Pará)
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