Embaladas pelas canções cantadas em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, as canoas surgem, uma a uma, cortando as águas calmas do rio Apeú.
Abrigada com destaque em frente à capela, é da orla da Agrovila Boa vista, no município de Castanhal, que a imagem peregrina aguarda pelo início da procissão que segue pelas águas, abrindo a programação de homenagens à padroeira dos paraenses no segundo semestre do ano. Completando já 87 anos de existência, o Círio de Macapazinho, realizado ontem, encanta pela íntima relação com a natureza.
Da cobertura de fitas rosas e brancas amarradas pelos troncos em frente à pequena capela rodeada de flores, o abrigo da imagem de Nossa Senhora de Nazaré passa a ser o verde das árvores que margeiam o rio por onde ela segue de barco.
Do trapiche instalado em Boa Vista, a descida para a Agrovila Macapazinho é cumprida na velocidade da correnteza, apenas os remos ajudam a guiar o percurso.
Seguida por dezenas de romeiros em suas canoas, a berlinda é acompanhada por todo o caminho pela natureza que ora se faz presente na forma de uma borboleta que insiste em sobrevoar a berlinda, ora na forma dos raios de sol que, vencendo o túnel de árvores que cobre o céu, fazem brilhar o lindo manto que envolve a imagem “Viva Nossa Senhora de Nazaré!”, grita quem aguarda nos raros trapiches instalados pelo caminho.
Morador mais antigo de Boa Vista, Elias Miguel de Moraes Resco acompanha toda a movimentação com a clareza de que a tradição foi incentivada por uma graça alcançada. Aos 70 anos de idade e com os filhos todos criados na região, ele conhece bem a história que deu início à procissão. “Tínhamos uma banda de música aqui e tinha um maestro que morava no Rio Guamá e que vinha para cá ensinar música para a banda. Esse senhor teve câncer na garganta e fez uma promessa que, se chegasse a se curar, faria a romaria”, recorda, já adiantando o barco que levaria a família. “A romaria se consagrou e até hoje se mantém. Virou tradição.”
Acostumada a acompanhar de barco a procissão durante toda a adolescência, a dona de casa Maria Tereza Silva, de 68 anos, aproveitou a tranquilidade adquirida com a idade para promover o reencontro com o Círio.
FESTIVIDADE
Passados muitos anos sem poder acompanhar a procissão, ela já tem planos para as próximas edições da festividade. “Quando eu era jovem, eu vinha com meus pais e a gente vinha de barco desde o Apeú de canoa, acompanhava tudo”, lembra. “Mas, quando vieram os filhos, ficou mais difícil de vir. Agora que já estão todos casados eu pude vir de novo. Quero vir todos os anos a partir de agora”.
Já quase cumprido o percurso pelo rio, ao longe se avista a grande quantidade de pessoas que aguardam a chegada da imagem no trapiche e na praça central de Macapazinho.
Cercada pelas crianças vestidas de anjos que seguem no mesmo barco, a imagem é recebida sob fogos e aplausos dos que esperam. Do rio, a homenagem continua a pé pelas ruas do vilarejo que abriga a santa durante todo o ano.
Com uma réplica acomodada na cesta repleta de flores, é a pé que a costureira Amália Ruivo cumpre a promessa feita há dois anos. Ela prefere guardar segredo da graça alcançada, mas a fé cultivada pela mãe de Jesus é demonstrada em cada gesto.
“A promessa é de que a gente acompanhe o Círio nas ruas com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Esse é o segundo ano que tô cumprindo e a promessa vai se repetir todos os anos até o fim da vida”, compromete-se, ao lembrar que já acompanha a festividade da casa da mãe, em Macapazinho, há muitos anos. “Eu tive uma graça muito grande alcançada. Quem tem fé em Nossa Senhora consegue o que precisa, com certeza.”
Após percorrer as ruas de Macapazinho, a procissão foi encerrada com uma missa realizada no coreto da praça.
(Diário do Pará)
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