A humilhação de madrugar em busca do serviço também é sentida pelos que necessitam de um simples curativo. “Eu vendo picolé e a roda bateu na minha perna e abriu. Eu fiz um curativo e já tava até melhor, mas, como eu sou diabético, estourou isso aqui esses dias eu tive que vir aqui fazer um curativo certo”, explicava o autônomo José Cândido Silva, de 68 anos. “Aqui só entregam 12 fichas para fazer curativo. Se não vier cedo, perde. Cheguei aqui ainda eram 4h30”.
A situação se repetia na entrada da Unidade de Saúde do Jurunas na madrugada de ontem. Sofrendo com o frio em decorrência da artrite, a doméstica Izabel Pereira, de 63 anos, chegou à unidade debaixo da escuridão das 4h. “Se não chegar às quatro, cinco horas, não pega mais nada, não. O negócio não tá bom pra saúde é em lugar nenhum do Estado”, avalia. “Eu moro no Telégrafo. Acordo umas três horas e fico esperando dar coragem para sair de casa e vir para cá. Quando eu consigo sair de casa e chego, já tem bastante gente, mas tem que vir”.
Para além da espera do simples curativo em uma das mãos, a senhora, que também sofre de pressão alta, aguarda há dias pela fisioterapia indicada pela médica para amenizar as dores nos ossos causadas pela artrite. O papel com o encaminhamento da médica já foi deixado no posto há semanas, mas Izabel segue sem saber quando poderá fazer o tratamento. “Eu sofro de muita dor com esse frio. Tem noite que eu nem consigo dormir”.
A longa espera para a realização de exames fez com que a doméstica Maria do Socorro da Silva, de 45 anos, buscasse meios para pagar pelo direito básico. Em acompanhamento pela Unidade de Saúde do Guamá, a espera chegou há seis meses. “Eu vim tentar marcar uma consulta com o ginecologista. Tem que vir esse horário (5h) pra ver se consegue e às vezes nem assim”, queixa-se na fila para tentar garantir a ficha. “Eu tava com uma dor que não sabia o que era. Vinha para cá, mas não conseguia ficha. Fiquei mais de três meses para conseguir uma consulta. Quando consegui, a médica passou uns exames, mas eu fiquei seis meses esperando e o exame não saía. Eu já tava sentindo mais dor, então pedi pra minha mãe mandar dinheiro do interior para mim para eu pagar esses exames”.
(Diário do Pará)
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