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Chicungunha é risco maior que ebola no Brasil

Com a suspensão da maioria dos voos internacionais vindos do continente africano e o alerta em execução nos portos e aeroportos brasileiros, é mínimo o risco da chegada do vírus ebola ao Brasil, afirma o Ministério da Saúde. Mesmo assim, o Instituto Ev

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Com a suspensão da maioria dos voos internacionais vindos do continente africano e o alerta em execução nos portos e aeroportos brasileiros, é mínimo o risco da chegada do vírus ebola ao Brasil, afirma o Ministério da Saúde. Mesmo assim, o Instituto Evandro Chagas, referência em investigações e pesquisas em medicina tropical e no diagnóstico de doenças infectocontagiosas na região Norte, está incumbido pelo MS de analisar toda e qualquer suspeita da doença no país. Ao mesmo tempo, outro vírus preocupa tanto o Ministério quanto o IEC: o Chicungunha, que provoca uma doença semelhante à dengue, só que com o agravante de deixar sequelas físicas, e que pode estar na iminência de chegar por aqui, visto que já alcançou as três Guianas e a vizinha Venezuela.

O chefe da seção de arbovirologia do IEC, Pedro Fernando Vasconcelos, esteve em Brasília na última semana participando de reunião do MS e Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS) para o estabelecimento de diretrizes do alerta dado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em relação ao Ebola. Os casos registrados em áreas urbanas acenderam a luz vermelha dos órgãos brasileiros. “Discutimos o ebola, que tem riscos mínimos de nos atingir, e também outros vírus com risco potencial de entrar no país, como o Chicungunha, que, se não entrar ainda esse ano, tem grande risco de entrar no ano que vem”, confirmou Vasconcelos. Confira a entrevista:

P: Existe risco de o vírus ebola chegar ao Brasil?

R: Sim. Há um alerta do Ministério da Saúde como um todo. Estive com a direção do IEC em Brasília para discutir todos os protocolos que seriam utilizados, não só para o diagnóstico do ebola, mas também de outros vírus que têm risco potencial de entrar no Brasil, como é o caso do Chicungunha, uma doença muito semelhante à dengue e que deve mesmo entrar no país em algum tempo pelo fato de ser transmitido também pelo mosquito Aedes aegypti. Mas trata-se de uma doença um pouco pior, especialmente no que diz respeito às dores articulares. Há pacientes que ficam anos em processos reumatológicos, de artrite reumatoide, com articulações permanentemente danificadas e até mesmo com as mãos deformadas. O Chicungunha começou na África, se espalhou pelo Velho Mundo, tanto na Ásia quanto na Europa, onde agora ocorre um surto na França, depois de se enfrentar um na Itália. Chegou ao Caribe em novembro passado e se disseminou. Aqui na América do Sul já é intensa a transmissão na Venezuela, nossa vizinha, e nas três Guianas, e o risco de transmissão é alto porque o Aedes está em todos os estados brasileiros.

P: O Chicungunha então chega este ano por aqui?

R: Nós não temos bola de cristal, mas acredito que, se não entrar ainda esse ano, talvez entre no próximo. Temos diagnosticado casos importados, mas muito provavelmente para o ano que vem o risco é muito grande. Voltando ao ebola, na reunião o MS e a Secretaria de Vigilância e Saúde estabeleceram os protocolos de como devem ser colhidas as amostras de sangue, como seriam encaminhadas e prazos para diagnóstico, como seriam referenciados os casos suspeitos para os hospitais de referência…

P: No Pará, esse hospital será o Barros Barreto?

R: Sim. Em nível nacional é o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, homônimo do nosso instituto, só que do Rio de Janeiro, pertencente à Fiocruz. É lá que serão recebidos os casos em nível nacional, a princípio. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, também participou do encontro para discutir principalmente o controle nos aeroportos e portos, tudo em prol de uma possível ação proativa do Brasil frente ao caso. Pouca gente sabe, mas temos uma unidade no Rio de Janeiro do Médicos Sem Fronteiras, que é composta de profissionais que atuam diretamente nos países onde estão ocorrendo as epidemias de ebola. Eles passam meses lá, claro, com todas as proteções, e depois voltam ao país de origem. Como há brasileiros no MSF, e embora os riscos sejam míninos por causa de toda a proteção, sempre pode haver um descuido, enquanto um grupo chega e outro vai. Existe um certo risco. Por isso essas pessoas precisam ser monitoradas, as suspeitas precisam ser monitoradas. Como diz o ministro da Saúde, Arthur Chioro, embora seja mínimo o risco, e nós concordamos, ele existe. Já haveria um provável surto de Ebola também no Congo, o que amplia os riscos de disseminação.

P: E dentro desse planejamento do MS a atuação do IEC é só regional?

R: Não, é nacional, para que o trabalho ocorra de forma bem concatenada, considerados os riscos que temos no país e a não existência... Em outras palavras, o número limitado de laboratórios com biossegurança bem estabelecidos, resolveu determinar que somente um fosse responsável pelo diagnóstico, e foi o nosso IEC o eleito, aqui em Ananindeua, como responsável pelo diagnóstico em todo o Brasil.

P: O Brasil já teve esse alerta antes relacionado ao ebola?

R: Teve, mas não na dimensão que estamos tendo hoje. Em 1995, com o ministro Adib Jatene no MS, foi lançado um alerta por causa de uma epidemia no Zaire, hoje chamada República Democrática do Congo, e isso gerou um alerta acerca dos riscos de transmissão, mas não foi trabalhado de forma tão intensa quanto hoje, até porque antes dessa epidemia não existia algo semelhante envolvendo tantos países ao mesmo tempo. Embora a Nigéria esteja, aparentemente, há mais de uma semana sem casos notificados, ainda continua o alerta quanto à possibilidade de transmissão e agora esse possível alerta no Congo piora a situação. Mais um país onde, tradicionalmente, há registros de casos de ebola e que, aparentemente, está voltando a registrar, ainda faltando confirmação laboratorial, agrava muito mais a situação na África. As transmissões envolvendo áreas urbanas foi o que fez com que o ministro tomasse uma atitude, e também seguindo orientação da Organização Mundial de Saúde, que alertou os países anunciando uma emergência mundial, e que existia risco de disseminação para outros continentes.

P: Então a possibilidade de ebola no país é remota por conta desses alertas já em execução ou porque o Brasil não mantém relações estreitas com países em risco?

R: As relações comerciais do Brasil com a África são relativamente limitadas e o turismo idem. Não há voos diretos desses países para o Brasil, e isso é fator limitante. A maioria dos países suspendeu voos indo ou vindo de lá, várias companhias aéreas europeias, até por recomendação da OMS... tudo isso limita a circulação do vírus. Mesmo nos países acometidos, quem precisa viajar é monitorado, triado antes do embarque para verificar temperatura, se está com febre. As fronteiras com esses países foram fechadas para impedir que alguém leve a doença para outros locais - apesar de ser difícil de imaginar a ideia de fechar uma fronteira entre um país e outro, ainda mais para nós, que moramos em um país onde são mais de cinco mil quilômetros de fronteira seca! A OMS orientou os governos nesse sentido.

P: Então a real preocupação do IEC agora é mais com o Chicungunha?

R: Acho que o MS tem essa mesma preocupação. Com o ebola o risco é mínimo que seja, mas temos outros riscos de outros vírus, como o Chicungunha, que está na iminência de ser introduzido por aqui e que, quando entrar, será difícil de ser contido, sendo o Aedes o transmissor. Mesmo com vigilância atuando, notificando governos quando casos suspeitos são registrados, com a coordenação nacional da SVS realizando bloqueios. O problema é que pode haver casos não reconhecidos, facilmente confundidos com a dengue. E o Chicungunha pode ser letal como a dengue. Tive um informe no último dia 15, pela Organização Pan-Americana de Saúde, que os EUA já tinha 585 mil casos autóctones, além do Caribe, América Central, e nos países da América do Sul que eu já citei, com ocorrência de 37 óbitos. Mas a letalidade, embora seja pequena, exige atenção quando se observa o universo de suscetíveis que temos no continente. Mais de 500 milhões de pessoas, ou mais, por exemplo. Já tem autóctone na Florida. Só no Brasil são 200 milhões, mais Caribe, América Latina são 700, 800 milhões de pessoas suscetíveis, porque é vírus exótico, que não ocorria antes nas Américas e agora está ocorrendo e tem transmissão facilitada pelos vetores, que estão nas áreas metropolitanas, urbanas e rurais, o Aedes aegypti e o Aedes albopictus.

P: Como o Brasil está preparado para esse tipo de endemia? Na hora que o Chicungunha chegar, como o nosso hospital de referência estadual está preparado para lidar? Tem como dar conta?

R: O IEC também é laboratório de referência nacional do Chicungunha. Nós já treinamos sete laboratórios de outros estados para a ocorrência do vírus, suprimos reativos para esses laboratórios, porque nós produzimos antígenos contra esse vírus. Recebemos no acordo entre o governo brasileiro e dos EUA, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta, o vírus para produzir reativo e distribuí-lo dentro do país.

P: Há possibilidade de uma vacina?

R: A curto prazo, não. Há vacinas sendo desenvolvidas, em fase bem experimental, em animais. Semana passada, publicaram um artigo dizendo que 20 voluntários foram imunizados com uma vacina e tiveram resposta de produção de anticorpos muito boa. Claro que isso ainda é cedo para dizer, sugerir que possa haver uma vacina em poucos anos. É uma previsão, não tem definição, precisa passar por uma série de fases de avaliação, ser testada em umas 50, 80 mil pessoas para verificar efeitos colaterais, diversos, capacidade de produzir anticorpos, produzir uma resposta imune para o organismo, e isso tudo demanda, além de tempo, dinheiro… Caso tudo dê certo, talvez daqui a dez anos haja uma vacina comercialmente disponível. Antes, não.

P: Falávamos do preparo dos hospitais para o Chicungunha…

R: Tem preparo porque o trabalho é mais ou menos o mesmo da dengue. Não há diferença muito grande porque o transmissor é o mesmo, embora o vírus seja diferente. A epidemiologia é igual, ou seja, a transmissão por Aedes, presente em áreas urbanas, sendo que a dengue pode causar hemorragia, enquanto que o Chicungunha tem muito menos casos nesse sentido, mas com artralgias muito mais severas e que podem ser limitantes, causando anquilose, ou seja, lesão permanente, o que a dengue não faz. De forma geral, é febre, dor de cabeça, dor no corpo, calafrios, o clássico quadro sintomático da dengue, mas com riscos de infecção crônica.

P: Se por acaso o ebola acabasse chegando ao Brasil, o fator regional determinaria uma propensão de casos?

R: Se discutiu isso durante a reunião com o MS e uma certeza, ou hipótese provável, é que, se eventualmente um caso suspeito entrar, vem por uma grande cidade, que é onde estão portos e aeroportos, sejam trabalhadores ou turistas. Muito provavelmente seria em uma grande cidade, que recebe os voos internacionais em maior número, então Rio e São Paulo, por exemplo, poderiam estar mais expostas. Quantificar esse risco é difícil porque as variáveis em relação à exposição ao vírus são muitas.

(Diário do Pará)

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