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Futebol ainda tem pouca participação na economia

Em visita a Belém esta semana, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, fez incisivas reflexões sobre a Copa do Mundo, seu legado aos estados brasileiros e as projeções para os jogos Olímpicos do Rio, em 2016. Jornalista e escritor natural de Alagoas, José

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Em visita a Belém esta semana, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, fez incisivas reflexões sobre a Copa do Mundo, seu legado aos estados brasileiros e as projeções para os jogos Olímpicos do Rio, em 2016.

Jornalista e escritor natural de Alagoas, José Aldo Rebelo Figueiredo iniciou sua trajetória política na União Nacional dos Estudantes (UNE). É ministro do Esporte desde 2011. Foi membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados bem como presidente do Grupo Parlamentar Brasil-China.

Nesta conversa com a repórter Wal Sarges e com os editores Gerson Nogueira e Eduardo Vilaça, Rebelo comentou os recentes atos de racismo de torcidas nos campos brasileros e ponderou: até que ponto a justiça desportiva deve punir o coletivo, em face atos de um único torcedor? Confira:

P: Qual a avaliação que o sr. faz de uma Copa que inicialmente era tão contestada nas ruas e depois ganhou elogios pela organização?

R: A Copa do Mundo não é apenas o maior evento esportivo. É um acontecimento mobilizador do planeta. Recebemos turistas de mais de 200 países. A previsão inicial era de três milhões de turistas nacionais circulando durante a Copa e 600 mil turistas estrangeiros. O número chegou a um milhão, uma superação grande das expectativas iniciais.

A Fundação Getúlio Vargas realizou um estudo sobre os impactos socioeconômicos da Copa, com a consultoria norte-americana Ernst & Young, e eles calculavam em 3,6 milhões empregos possíveis no ciclo da Copa, antes, durante e depois, gerando um impacto grande na economia e um impacto que você não tem como calcular para a imagem do Brasil. Foi uma Copa em que os aeroportos funcionaram com uma média de eficiência superior à europeia e norte-americana. O setor hoteleiro também respondeu bem, além da mobilidade urbana, do acesso aos estádios. A segurança pública também funcionou. Então, o mundo avaliou a Copa como um acontecimento bem-sucedido, tanto que jornais estrangeiros afirmavam que a Rússia teria que engarrafar uma amostra da Copa do Brasil para tentar reproduzir o êxito dessa Copa na próxima, que será na Rússia.

P: Antes e depois da Copa, a presidente Dilma Rousseff expôs a preocupação em fazer uma ampla reforma em relação à gestão do futebol no Brasil. Com o Ministério do Esporte vê essa necessidade?

R: É uma visão que tem que expressar as contradições do nosso futebol. Tem coisas muito boas, como a construção, a reforma dos estádios. Temos hoje nas nossas metrópoles estádios confortáveis e seguros que irão assegurar uma renda maior para os clubes, atrair mais público, mas ainda temos problemas sérios na gestão do nosso futebol. O Brasil é um grande protagonista do futebol dentro de campo, mas fora de campo nós somos ainda certo fiasco. Os ingleses são donos de 30% do PIB mundial do futebol. E um país que ganhou cinco campeonatos mundiais de futebol tem em torno de 2% do PIB Mundial do Futebol. Somos exportadores de atletas e importadores de espetáculo. Compramos o campeonato europeu, que tem como grandes atrações uma parte de nossos jogadores. Temos futebol de grande tradição, como este aqui do Pará, que tem o clássico mais antigo do que entre Palmeiras e Corinthians, o clássico paraense que atrai multidões para os estádios, mas os clubes vivem empobrecidos, endividados com problemas administrativos, com folhas salariais muito limitadas para a grandeza da tradição desses clubes e desse futebol. Precisamos fazer alguma coisa para ampliar a participação do futebol na economia do Brasil, melhorar a renda dos clubes, melhorar a gestão desses clubes para que possamos recuperar um pouco do protagonismo do futebol brasileiro e mundial.

P: Em termos esportivos tivemos um Pan-Americano, em 2007, que não deixou um legado estrutural para o país. Algumas obras já estão sucateadas, como o Engenhão e o Velódromo. Como fazer diferente para 2016?

R: O Engenhão está interditado, mas a estrutura dele está de pé. Houve um problema em uma viga que precisa ser consertada, mas o estádio está lá e durante muito tempo foi um estádio que serviu para muitos clubes, enquanto o Maracanã foi reformado. Há outros complexos que estão sendo utilizados, não para a Olímpiada, mas para o esporte de alto rendimento, de lazer e de entretenimento. E uma parte desses equipamentos, depois das Olimpíadas, será usada para a educação. Nós queremos criar uma universidade para o esporte. Esse é um dos objetivos do Ministério do Esporte e da Educação.

P: Como o sr. avaliou a recente punição aplicada pelo STJD ao Grêmio após os insultos racistas contra o goleiro do Santos?

R: A punição do clube é a confissão da ineficiência da Justiça, porque você faz uma punição coletiva. Então, se o torcedor pratica a violência dentro do estádio, você proíbe todos os torcedores de comparecem ao estádio. É como se um eleitor cometesse um crime e você proibisse todos os eleitores de votar. Se resume na incapacidade de alcançar o autor do delito. No futebol encontraram um atalho: você pune o clube e retira toda a torcida dos estádios, faz jogos de portões fechados, se configurando em uma impotência da instituição para punir os verdadeiros responsáveis. Isso não irá resolver a situação. Precisa é cobrar do clube que talvez identifique, traduza as imagens e as informações.É preciso encontrar na justiça desportiva um caminho para ter mais eficácia na punição da violência e atos de racismo.

P: Essa punição pode abrir um precedente perigoso. Qualquer incidente agora pode terminar no tribunal...

R: Eu creio que se os modelos mais bem-sucedidos separaram a gestão da seleção da administração dos clubes. Acredito que é este o caminho que deveria ser indicado para todo mundo, inclusive para o Brasil. Administrar a seleção brasileira já é uma responsabilidade e um grande desafio. Na Europa, as federações cuidam das respectivas seleções. E os clubes constituem as ligas que organizam seus campeonatos, negociam direito de imagem e de TV e a publicidade das suas competições. O que eu quero chamar a atenção é que o STJD não é um tribunal da estrutura do poder judiciário. Ele é um tribunal criado pelas entidades organizadoras do futebol. Então, os clubes aqui precisam, juntamente, com a CBF examinar o papel e a eficácia do funcionamento dessas instituições, que têm que ser rápidas, rigorosas, mas devem ser eficazes.

P: Sobre o Fundo de Legado da Copa, como está o andamento? Belém está entre as beneficiadas...

R: Fizemos para a Copa do Mundo investimentos em financiamento para a reforma e construção de estádios, com todas as garantias que o BNDES exige para qualquer tomador. Colocamos até R$ 400 milhões para cada estado. Alguns não tomaram, como Brasília, ou tomaram pouco mais da metade, como o Paraná. Depois, nós ajudamos a financiar os estádios públicos que foram selecionados como centro de treinamento para a Copa. As cidades se inscreveram, a FIFA selecionou e onde havia estádios públicos estaduais ou municipais, nós ajudamos a financiar. Além disso, no Programa de Reforma de equipamentos esportivos ajudamos a financiar estádios, quadras, praças da juventude e outros que se enquadraram no programa. No Pará, vários municípios, inclusive Belém, foram selecionados, com base na população e IDH.

P: Como o sr. vê a discussão sobre os rumos do esporte em meio ao grande debate da sucessão presidencial?

R: O esporte nunca foi tão valorizado como nos últimos doze anos. O presidente Lula criou o Ministério do Esporte, que comemorou recentemente seu décimo aniversário. Os recursos destinados ao esporte têm crescido de ano para ano. O esporte escolar tem recebido recurso, o esporte de inclusão social, o esporte de alto investimento, além das construções de cinco mil quadras, 265 centros de iniciação, que são complexos destinados à prática de até 13 modalidades esportivas, e o investimento maciço em infraestrutura para pisos de alta qualidade para modalidades como esgrima e judô. Nós temos mais de cinco mil atletas recebendo bolsa de até R$ 15 mil, no caso do atleta que está qualificado entre os 20 primeiros da classificação mundial em competições internacionais. A presidente Dilma destinou R$ 1 bilhão à preparação de atletas nos jogos, no chamado “Plano Brasil Medalhas”. Queremos que o país receba bem as 200 delegações. Diferente da Copa do Mundo, a Olimpíada tem mais de 200 países, a Copa tem 32. Queremos que o Brasil organize bem as Olímpiadas e que faça também uma boa figura no quadro de medalhas. Temos como meta pelo menos a quinta colocação para os jogos paraolímpicos e a colocação entre os dez primeiros nas Olimpíadas.

P: Estamos às vésperas de uma eleição e o fato novo é a candidatura de Marina Silva, que substitui a Eduardo Campos. De que forma o sr. analisa o novo quadro?

R: Não é propriamente novo um fato desse tipo, de liderança que contesta aparentemente a velha política. O Jânio Quadros apareceu com essa novidade, a vassourinha que iria varrer a corrupção. Depois o presidente Collor surgiu também como o Caçador de Marajás. E agora surge a Marina também com uma nova política. Isto resiste apenas se não houver um debate. As pessoas são diferentes nos seus propósitos, nas suas propostas e naquilo que querem fazer. E é isso que precisa ser examinado. Quais são os compromissos que ela tem. Sei que ela tem um apoio muito forte. Na Olímpiada mesmo ela foi escolhida pelos grupos europeus. Mas isso não é o suficiente para governar o Brasil. Precisa saber como conduzir um país com tantas contradições e conflitos.

(Diário do Pará)

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