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Melgaço é o retrato do abandono

Quando o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013 foi divulgado, há pouco mais de um ano, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), caiu como uma bomba a informação de que a cidade de Melgaço, no arquipélago do Marajó, possuía o

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Quando o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil 2013 foi divulgado, há pouco mais de um ano, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), caiu como uma bomba a informação de que a cidade de Melgaço, no arquipélago do Marajó, possuía o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) - índice que leva em consideração a longevidade da população, o nível do atendimento à Saúde, e também a Educação - do Brasil.

A ideia de ser localizado no Estado do Pará o pior município para se morar em toda a federação incomodou o Ministério da Saúde, o governo do Estado e a Prefeitura Municipal, que tentaram à época, e sem muito sucesso, falar sobre alguns investimentos pontuais em melhorias na cidade. Prova desse insucesso é a série de reportagens que o Jornal da Band, emissora à qual é filiada a Rede Brasil Amazônia de Comunicação (RBA-TV), começou a exibir no dia 8 de setembro sobre os melhores e piores lugares para se viver no país, e mostrando, logo na abertura, que do ano passado para cá continuam indo de mal a pior as condições de vida de quem mora em Melgaço.

O repórter Fábio Pannunzio esteve, durante a Copa do Mundo, realizada entre os meses de junho e julho, em Melgaço, para ver de perto a situação dos 26 mil habitantes do município. Iniciando pelo fato de que são pelo menos 18 horas de viagem de barco, sempre carregado com centenas de passageiros, só para chegar lá - isso a partir da capital, Belém -, o jornalista vai descrevendo um cenário desolador e no caminho confirma com uma passageira: outro jeito de chegar na cidade, só mesmo em avião fretado.

Chegando à cidade no início da manhã, Pannunzio ouve de um morador que trabalha carregando seu carrinho de mão para lá e para cá que morar em Melgaço não é tão ruim, mas que saneamento, ou melhor, a falta de saneamento, é um problema. Mais adiante, em uma casa fincada no que o jornalista chama de “pântano de esgoto”, uma moradora confessa que, a cada chuva, o cheiro que invade a residência é absolutamente insuportável. “Tem cano de vaso (sanitário) que dá direto no rio. Só quem já mora aqui aguenta”, confirma.

Em meio ao “caos sanitário”, outra moradora não se inibe em mostrar que a cisterna e a fossa de sua casa ficam a menos de 15, 20 metros uma da outra. “A gente tem o poço com a água limpa, bonita, taí o poço”, oferece ela a Pannunzio, mas se cala quando ele pergunta como ela sabe que um sistema não afeta o outro.

A entrevista com a secretária municipal de Promoção Social é a emenda que sai pior que o soneto. Depois de dizer que a água chega tratada aos moradores, mas depois se desmentir falando que os próprios consumidores tratam a água que usam - e por isso não pagam taxa de consumo público -, ela é, no meio da conversa com o jornalista, interrompida por uma moradora que a desmente sem dó. “É fácil falar assim sem ouvir a população. A água que chega na minha casa, se eu colocar em um balde de manhã, à tarde está amarela”, revela, fazendo com que a secretária abandone a entrevista. “É isso que acontece quando a população fala, o governo se cala”, diz a jovem moradora.

Depois da questão da água, Pannunzio se aprofunda na educação municipal. Tenta filmar o dia a dia na principal escola de Melgaço, mas a mesma se encontra fechada porque a prefeitura decidiu por não um, mas dois meses de férias escolares de meio de ano por causa do mundial de futebol. Isso em uma cidade onde metade da população não é alfabetizada e menos de 700 cursam o Ensino Médio.

(Diário do Pará)

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