Uma conversa mantida sob rigoroso segredo por mais de três anos se tornou o grande fato político da campanha majoritária no Pará e revelou aquele que pode se tornar um dos maiores escândalos envolvendo um governador no Brasil, acabando por transformar um caso de polícia num caso de política. Na conversa, Izabela Jatene de Souza, filha do governador Simão Jatene, pede ao subsecretário de Receitas da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefa), Nilo Rendeiro de Noronha, a lista das 300 maiores empresas estaduais: “Consegue pra mim? Manda pro meu e-mail?”, pergunta Izabela, que, a seguir, explica: “Vamos começar a buscar esse dinheirinho deles, né?”. A resposta de Nilo: “Claro. Qual é o teu e-mail?”.
A gravação, cuja autenticidade foi atestada pelo professor doutor Ricardo Molina, da Unicamp, considerado um dos maiores peritos do Brasil, aconteceu entre abril e maio de 2011, meses depois de Simão Jatene assumir pela segunda vez o posto de governador do Estado. O telefonema de Izabela Jatene para Nilo Rendeiro de Noronha foi grampeado por acaso: a Polícia Civil investigava o sequestro de um empresário, ocorrido em 31 de março de 2011, no município de Mãe do Rio.
Um dos integrantes do bando, de nome Gilson Silva de Almeida, era gerente de uma fazenda de Nilo, na região de Castanhal. Com autorização do juiz da comarca, os telefones dos sequestradores e daqueles para quem ligavam foram grampeados. Quando Gilson ligou para o patrão, fez com que o celular de Nilo acabasse também grampeado, sem que, naquele momento, a polícia soubesse de quem se tratava.
OPERAÇÃO ABAFA
Quando o teor bombástico da gravação veio à tona, foi articulada operação “abafa” pela cúpula do Sistema de Segurança Pública do Pará para blindar a filha do governador. Fontes revelaram ao DIÁRIO que os policiais que trabalhavam no Guardião, o sistema de grampeamento telefônico do Núcleo de Inteligência da Polícia Civil, receberam ordem de apagar a gravação e destruir a transcrição. A ordem era clara: nada envolvendo a filha do governador deveria ser citado no inquérito policial que seria encaminhado, meses depois, ao Ministério Público. Na documentação que chegou ao DIÁRIO, a transcrição simplesmente sumiu e o MP não tomou conhecimento do fato. Mas uma cópia da gravação da conversa foi salva e entregue ao jornal.
O telefonema de Izabela para Nilo Noronha dura cerca de um minuto e revela intimidade entre as partes (veja a íntegra do diálogo ao lado).
Nilo, que é auditor fiscal de receitas e servidor público de carreira, em nenhum momento se nega a atender um pedido tão estranho: fornecer uma listagem que é protegida por sigilo funcional e fiscal. E chama atenção mais ainda que ele tenha respondido com um naturalíssimo “claro” à revelação do uso que seria feito da documentação. Mas tão ou mais surpreendente é a naturalidade com que a filha do governador explica o que pretende fazer: é como se fosse normal e não fosse a sua primeira vez. Além disso, fica a pergunta: para que, afinal, serviria esse “dinheirinho”? Para algum projeto do governo? Para uso pessoal? Para o caixa dois das futuras campanhas eleitorais tucanas?
APURAÇÃO
Onze assinaturas já constam no pedido de abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar crime de corrupção de Izabela Jatene, filha do governador Simão Jatene (PSDB), pedido pelo deputado estadual Carlos Bordalo (PT). Faltam apenas três para atingir o mínimo de adesões de deputados estaduais necessários à apresentação do requerimento à presidência da Assembleia Legislativa.
O deputado Edmilson Rodrigues (PSOL) também solicitou ao Ministério Público Estadual que investigue os crimes de corrupção cometidos por Izabela Jatene e também o sumiço da gravação original da conversa entre ela e o subsecretário estadual da Fazenda, Nilo.
Já assinaram o pedido de CPI os deputados Zé Maria (PT), Parsifal Fontes (PMDB), Waldir Ganzer (PT), Bernadete Ten Caten (PT), Nélio Aguiar (DEM), Chico da Pesca (PROS), Chicão (PMDB), Simone Morgado (PMDB), Nilma Lima (PMDB) e Edmilson Rodrigues (PSOL), além do próprio Bordalo (PT).
Agora é acompanhar e cobrar que todos os fatos sejam esclarecidos e os envolvidos respondam devidamente por seus atos.
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(Diário do Pará)
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